Espiritualidade Cristã (1): A culpa

Van_Gogh_-_Trauernder_alter_Mann.jpeg“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 João 1:9)

Um dos obstáculos à espiritualidade cristã é a culpa. Muitos cristãos carregam um sentimento de culpa que os angustia e os aprisiona, impedindo de manter um relacionamento livre com Deus, em razão de algum pecado passado ou ainda presente. Isso piora quando esses cristãos se vêem forçados a carregar isso em segredo, sem contar com a ajuda de outras pessoas que poderiam ouvir, acompanhar e aconselhar.

A tristeza tem lugar na vida cristã? Muitos cristãos hoje acham que não; eles não “aceitam” a tristeza. Sem dúvida a tristeza é algo deste mundo. Deus promete extingüir para sempre a tristeza no mundo vindouro (Ap. 21:4), e já hoje ele gera em nós uma alegria que expressa algo dessa alegria futura. Entretanto, na presente era, a tristeza tem um lugar importante em nossas vidas espirituais. Sem tristeza não há arrependimento; a Escritura nos diz que a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação (2Co. 7:10). Aliás, tentar esconder o sentimento de culpa por tempo demais pode nos levar a nos sentirmos ainda mais culpados — nós nos sentiremos hipócritas.

Há mais uma coisa que pode agravar o sentimento de culpa. Numa cultura cristã sentimentalista, os sentimentos são confundidos com a ação do Espírito Santo. Eu sinto a presença de Deus, portanto Deus está presente. Eu sinto que Deus está falando comigo, portanto ele está. Eu sinto que Deus quer que eu faça algo, portanto ele quer. E se eu sinto a culpa, eu posso achar que ainda sou culpado. E se eu não posso mais pedir perdão a alguém a quem eu fiz um mal?

É preciso distinguir a culpa e o sentimento de culpa. Culpa é o estado de quem transgride um mandamento. Quando pedimos perdão a Deus com sinceridade, somos perdoados (1Jo. 1:9), isto é, somos livrados desse estado; nossa culpa é levada embora. Mesmo que ainda nos sintamos culpados, somos perdoados. Essa é uma dimensão da doutrina paulina da justificação pela fé. Em razão da cruz de Cristo, o meio de nossa reconciliação com Deus é a fé no seu Filho. Nosso sentimento de culpa se deve, por um lado, à nossa falta de fé no perdão de Deus; por outro lado, à decepção com nós mesmos.

Essa decepção diz algo importante sobre nós. Em Rm. 7:7-25, o apóstolo Paulo descreve em termos dramáticos a situação daquele que conhece a lei de Deus, mas vê em si mesmo uma força que o induz contra essa lei. A essa força Paulo dá o nome de “lei do pecado e da morte”, que luta contra a lei de Deus presente no entendimento. Essa é a experiência de todos aqueles que, buscando obedecer a Deus, esbarram em suas próprias incapacidades. Quero fazer o bem, sei qual é o bem, mas pratico o mal.

Mas essa experiência não é definitiva, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte. (Rm. 8:2) O primeiro passo da restauração é não querer lutar com as próprias forças. O pelagianismo (achar que se pode guardar os mandamentos com as forças humanas) é um grande inimigo da vida espiritual. Só é possível obedecer aos mandamentos de Deus com amor, e só é possível amar a Deus porque o seu amor é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Mt 22:35-40; Rm. 5:5).

Em nossa fraqueza, somos realmente miseráveis. Mas em sua misericórdia, Deus é poderoso para nos livrar de todos os nossos pecados. Os pecados são vencidos não por esforços humanos, mas por uma vida cheia do Espírito Santo. A força para vencer o pecado é o resultado espontâneo de uma vida cheia do Espírito.

G. M. Brasilino

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