Espiritualidade Cristã (2): O corpo

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“Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo.”
(1 Coríntios 6:13)

O texto anterior, sobre culpa, leva naturalmente a uma discussão sobre confissão, e portanto sobre oração. A oração é um dos centros da vida espiritual cristã. Não seria errado dizer, com Richard Foster, que a oração é uma disciplina espiritual interior. Nas palavras de George Herbert, a oração é a alma em paráfrase. Nela nós damos voz e nome à nossa gratidão e à nossa inquietação, ao mais íntimo de nós, esperando que o que há em nós seja renovado pelo Deus que nos sonda.

Mas como nos ensinou John Donne, nenhum homem é uma ilha. A oração é tão interior quanto exterior. Oramos em silêncio, à sós, como também oramos juntos, de muitas maneiras. O culto cristão é, de certo modo, uma extensa oração, com muitas partes, muitas formas, muitas vozes — e muitos corpos.

Os nossos relacionamentos são corporais. Nós geralmente conhecemos os pensamentos, sentimentos e compromissos uns dos outros através dos nossos corpos, principalmente através da voz e do rosto. Mesmo um texto de internet teve de ser escrito — com os dedos. Nossos corpos não são apenas instrumentos nossos, mas são parte de nós. Quando um de nós falece, não tratamos o seu corpo como coisa qualquer; o corpo enterrado leva consigo à terra uma história.

Por isso, as Escrituras nos exortam a santificarmos os nossos corpos (1Ts. 5:23) e tratam a vida eterna como ressurreição do corpo (Rm. 8:11). Os corpos são importantes para nós e para Deus. Também por isso nós cristãos tradicionalmente enterramos os corpos, ao invés de incinerá-los, prática mais comum em culturas onde predomina uma concepção diferente sobre o corpo. Não porque o enterro (a preservação do corpo) vá de algum modo ajudar a ressurreição daquele falecido — não vai —, mas porque nós que ficamos simbolizamos assim nosso relacionamento com o corpo que fica.

catacombs[1]

Nosso corpo é o lugar de nossas orações. Por isso os atos de oração são simbolizados, na Escritura, pela linguagem corporal: a súplica é simbolizada pelas mãos alçadas (1Tm. 2:8), a adoração pelos joelhos dobrados (Ap. 22:8,9), o arrependimento e o lamento como um bater no peito (Lc. 18:13; 23:27,48). Por isso também o ato de olhar para o céu (Jo. 17:1), indicando não o espaço físico onde Deus está, mas justamente sua grandeza.

Esse simbolismo é tão forte que muitas vezes a Escritura fala apenas do ato exterior, como que indicando por ele o ato interior. Quando Jeremias escreve ao seu leitor que “Levante para ele as mãos em favor da vida de seus filhos” (Lm. 3:18), é contextualmente óbvio que ele se refere não ao mero ato de estender as mãos, mas à própria oração. Porém essa figura de linguagem — não uma metáfora, mas uma metonímia! — só é possível porque para o escritor bíblico a oração e o seu gesto exterior estão intimamente ligados.

Nossos corpos são o templo do Espírito Santo (1Co. 6:19). Isso contrasta com uma opinião, comum na Antigüidade, segunda a qual o corpo é a prisão da alma (sōma sēma). Um templo certamente é um lugar mais nobre que uma prisão. Mas também contrasta com a visão pagã do corpo como a habitação de uma alma divina — da minha alma divina. O corpo é um lugar sagrado, mas somente no que ele tem de receptáculo, um vaso mesmo, da presença divina, que não é minha, mas que está em mim — e eu nela.

G. M. Brasilino

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