O Evangelho e a Cultura (1): Cristo contra a Cultura

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.” (João 15:18)

Abraçar ou rejeitar a cultura, desde o início tem havido cristãos com uma dessas duas posturas. Clemente de Alexandria quis mostrar o cristianismo como culminação da sabedoria antiga, da filosofia grega, ao passo que seu contemporâneo Tertuliano via entre esses dois mundos uma contradição inconciliável.

Uma postura encara o cristianismo como o ápice daquilo que já vê de melhor em sua própria cultural, e afirma uma identidade entre a revelação cristã e a revelação geral (religião natural, lei moral, ou qualquer nome que se dê). A outra postura vê o cristianismo como o oposto daquilo que a cultura espera, enfatizando as diferenças e oposições entre os valores revelados e a moral cultural.

Esses dois extremos foram nomeados pelo teólogo americano Richard Niebuhr (1894–1962) respectivamente como “Cristo da Cultura” (Christ of Culture) e “Cristo contra a Cultura” (Christ against Culture). Ele também os chamou de “Lei Natural” e “Nova Lei”, pois sua preocupação era identificar as maneiras diferentes de se relacionar os mandamentos divinos presentes na revelação cristã com os valores encontrados na cultura. Mas essa tipologia facilmente se estende para além da ética cristã.

Esses tipos identificados por Niebuhr são representados por certos indivíduos ao longo da história da Igreja. Eles são chamados de “tipos” porque, como Niebuhr deixa muito claro, ninguém jamais se encaixa perfeitamente. Ninguém apresenta todas as características. Mas a linguagem e o comportamento de certos cristãos ao longo dos séculos permite agrupá-los em famílias.

Na igreja primitiva, o representante mais característico da família “Cristo contra a Cultura” é Tertuliano. Pode-se identificar também vários cristãos dos dois primeiros séculos (Didaquê, Pastor de Hermas, Epístola de Barnabé, Clemente de Roma); o monasticismo beneditino; vários espiritualistas, biblistas e pacifistas de todos os tempos, como menonitas, quacres e Tolstói; e atualmente os evangélicos fundamentalistas. Uma linguagem característica dessa família é oposição entre fé (ou revelação) e razão, ou religião e ciência, e em razão dessa linguagem esses cristãos tendem a entrar em conflito com representantes do cientificismo.

TissotBeatitudes[1]Uma tendência dessa família é identificar o “mundo” (o mundo de pecado) com a cultura, e por isso tendem a se separar do restante da sociedade. Tendem a ser vistos como radicais, fanáticos, sectários; por outro lado, por seu ardor, podem acabar sendo vistos também como os verdadeiros representantes da fé cristã, os que a levam mais a sério —  e eles preferirão ser vistos assim. Na ética cristã, a morada dessa família é o Sermão da Montanha, que faz algumas exigências quase impossíveis (oferecer a outra face ao ofensor, dar além do que pede, etc) e outras que subvertem os valores sociais (felizes são os que agora padecem). Um membro dessa família jamais tentará tornar esses valores mais “razoáveis”.

Nesse modelo, o cristianismo está destinado a permanecer um gueto. Como acomodar pessoas que já estejam de algum modo bem integradas na cultura e que talvez até dependam dela? Um exemplo é a proibição, vista em pais da igreja como Tertuliano, de que os cristãos sejam soldados ou magistrados, porque essas profissões os levariam a matar ou punir outras pessoas. Mas o que aconteceria quando a sociedade se convertesse? Não haveria mais soldados nem magistrados? Esse tipo de posição só era viável durante a perseguição romana; não ajudaria a sociedade quando o cristianismo se expandisse.

Uma das ironias da história é que os soldados cristãos romanos foram os responsáveis por levar a fé cristã a lugares do mundo antigo em que outros teriam mais dificuldade de penetrar, como as ilhas britânicas. Talvez abraçar a cultura seria uma postura mais satisfatória. É possível abraçá-la sem abdicar de Cristo? Esse é o tema do próximo artigo.

G. M. Brasilino

3 comentários em “O Evangelho e a Cultura (1): Cristo contra a Cultura

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