Hermenêutica do Amor

Brooklyn_Museum_-_The_Pharisees_Question_Jesus_(Les_pharisiens_questionnent_Jésus)_-_James_Tissot[1]

“E como vós quereis que os homens vos façam,
da mesma maneira lhes fazei vós, também.”
(Lucas 6:31)

Recentemente surgiu uma polêmica em torno de uma declaração, feita pelo pontífice romano, de que Jesus teria “fracassado” na cruz. Quem ouvir ou ler as palavras originais de Francisco perceberá que ele simplesmente repetiu o que todos os cristãos de todas as confissões sempre disseram sobre a crucificação — da perspectiva do triunfo terreno, a cruz é um fracasso. Não há o que discutir. Mas é curioso o número de pessoas que apostaram na malícia, muitas delas católicas romanas.

Entre os evangélicos, isso acontece muito com músicas — espasmos de zelo puritano acabam condenando certas letras de músicas, em geral mal escritas, porque podem ter algum sentido “herético”.

Há duas formas contrárias de se interpretar um texto: com amor e com suspeita.

A hermenêutica do amor é a de quem lê desarmado. Interpretar com amor é permitir que o que foi dito tenha tanta razão quanto possível. Aqui há um pacto de boa vontade: eu manifesto boa vontade para com o escritor (ou falante) e confio na boa dele para comigo. Essa “presunção de inocência” aplica-se ao texto, mas também às relações humanas em geral. A hermenêutica do amor não implica no meu compromisso de vida a inocência postulada, mas significa que minha imaginação está em princípio voltada para ela.

A hermenêutica da suspeita (ou do ódio) é aquela que busca segundas intenções por trás das palavras. Eu imagino o mal, e enquadro as palavras no mal imaginado (como quer que eu o chame). Na cultura ocidental, esse tipo de leitura foi consagrada por Marx, Nietzsche e Freud, nomeados “os mestres da suspeita” por Ricoeur, este mesmo um defensor da suspeita. Existe uma “presunção de culpa”.

As duas hermenêuticas são dois preconceitos em relação ao texto, e não há uma neutralidade possível. Uma leitura busca ver tanta concordância quanto possível, e a outra tanta discordância quanto imaginável. Por isso, poderiam talvez ser chamadas hermenêutica do amigohermenêutica do inimigo.

A hermenêutica do amor é uma exigência da Lei da Reciprocidade: tratar os demais como gostaríamos de ser tratados (Mt. 7:12; Lc. 6:31), e nenhum de nós gostaria de ser tratado com suspeita. É claro que há lugar para a suspeita na vida cristã — devemos ser “prudentes como serpentes” (Mt. 10:16). Mas nossa suspeita não deve forjar provas contra ninguém.

G. M. Brasilino

5 comentários em “Hermenêutica do Amor

  1. O Amor não pode em hipótese alguma substituir a Salvação! Não há expressão maior de amor do que dar a vida por alguém. Esse alguém está rumando ao abismo e estamos só tentando dar-lhe um pedaço de pão, roupas e abrigo, mas o que importa de fato é tentar impedi-lo de cair no abismo que arde com fogo.

    Curtir

  2. Interessante como a hermenêutica do amor pode ser usada facilmente com malícia. Basta que eu seja um defensor do autor para que eu procure com todas as forças justificá-lo, nem que pra isso eu use uma interpretação implausível.
    Parabéns pelo texto, muito edificante.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s