O Evangelho e a Cultura (2): Cristo da Cultura

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“Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;” (Romanos 2:14)

Na postagem anterior (veja aqui), eu expus muito brevemente as características de uma perspectiva do modelo “Cristo contra a Cultura”, um modelo caracterizado por distanciamento em relação ao restante da sociedade. É um modelo impraticável, pois impede a plena realização da missão transcultural da Igreja. Se a Igreja se fecha à cultura, ela inevitavelmente constituirá sua própria cultura, tratando-a como sagrada. Há aí um perigo de perder de vista o Evangelho e sua missão transcultural.

Existe um modelo oposto e igualmente inaceitável, que Niebuhr chamou “Cristo da Cultura”. Não é difícil imaginar o que seja: trata-se de um paradigma em que Cristo foi totalmente absorvido pela Cultura. Todas as exigências do Evangelho são conscientemente interpretadas com as lentes da cultura, como uma forma de “atualizar” a mensagem. A idéia não é simplesmente mudar a linguagem cristã, mas em reinterpretar seu conteúdo à luz do melhor da cultura.

Niebuhr dá Clemente de Alexandria como exemplo na Igreja primitiva: o seu ideal de santidade combinava a santidade bíblica com a filosofia grega, que era não apenas uma “área de estudo”, mas realmente um modo de vida. Algo mais radical fez Kant, tentando transformar a religião cristã em um conjunto de imperativos meramente morais, “deveres”. Também os gnósticos tentaram inserir no cristianismo uma cosmovisão pagã pessimista, mas preservando a linguagem dos evangelhos.

Cada cultura pode ter seu próprio Cristo da Cultura, ou mesmo mais de um Cristo, à medida que seja mais diversificada. Como vivemos em uma civilização com múltiplos ideais, aparecem vários cristos da cultura. Eles aparecem em declarações do tipo “Jesus apoiaria o casamento gay se vivesse hoje”, ou no Jesus pacifista, ou no Jesus socialista da Teologia da Libertação. É evidente que nenhum dos partidários desses Cristos identificará o seu Cristo como o total da cultura, mas com aquilo que ele considera melhor.

Um dos problemas nesse modelo é transformar Cristo em um ídolo — uma representação de qualquer ideal que se queira atribuir a ele. Jesus se torna o representante da última moda, pronto a ser descartado ou reusado quando outra moda aparecer. Mais do que isso, a revelação deixar de ser tratada como revelação, como um segredo divino que se faz conhecer aos homens e que encontra na cultura tensões; deixa de pregar o “Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos” (1Co. 1:23).

Não é difícil perceber que dois extremos (a contra-cultura radical e a acomodação radical) são inaceitáveis. Surge a necessidade de uma via média. Mas o mérito de Niebuhr foi perceber que não há apenas uma forma de encarar o meio entre os extremos. Esse é o tema do próximo texto desta série.

G. M. Brasilino

2 comentários em “O Evangelho e a Cultura (2): Cristo da Cultura

  1. Brasilino, meu caro, esta tua excelente séria sobre “O Evangelho e a Cultura” parou no segundo artigo mesmo? ansioso pelas demais, tenho interesse nesta área da mensagem cristão…dias atrás li este texto com a mesma temática: http://tuporem.org.br/cristo-cultura-e-carson/; também tomando como ponto de avaliação o livro do Richard Niebuhr, tão difícil de encontrar impresso. forte abraço, e teu blog é excelente, lida com temas tão prementes com apoio bíblico…

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