Espiritualidade Cristã (5): Hipocrisia

judas-1885[1]

“O Senhor não vê como o homem:
o homem vê a aparência,
mas o Senhor vê o coração”
(1Sm. 16:7b)

Como amar quem não amamos? Há pessoas amáveis, pessoas fáceis de se amar, como há também pessoas refratárias ao amor. O compromisso cristão é de amar a todos. C. S. Lewis ensinou um segredo sobre como lidar nessas situações: disse que não devemos nos preocupar em saber se amamos ou não alguém; devemos agir como se amássemos. O segredo é que quando começamos a agir com amor, passamos a amar. De fato, nós modernos nos preocupamos demais com o amor como sentimento que nos toma, quando na realidade o amor é também um compromisso que decidimos e um comportamento que assumimos.

A colocação de Lewis levanta um questionamento. Parece que ele nos ensina a ser hipócritas, a fingir amor. Queremos amar sinceramente. Queremos ser autênticos. Como pode haver uma separação tal entre nossos sentimentos e nossas ações?

Nossa cultura nos leva a confundir muitas palavras usadas nas Escrituras, e uma delas é hipocrisia. Costumamos definir hipocrisia como uma contradição entre nossos sentimentos e nossas ações, mas isso é um erro quando transporto para a doutrina cristã. Não é isso que hipocrisia significa na Escritura. Se fosse, significaria que nossos sentimentos estão sempre certos. Mas não estão. Isso seria desculpa para qualquer pecado.

O significado da “hipocrisia” se esclarece quando vemos como Jesus a condena. Ele diz: “Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas, pois eles mudam a aparência do rosto a fim de que os homens vejam que eles estão jejuando.” (Mt. 6:16a). As pessoas condenadas por Jesus jejuavam de fato, e não há nas palavras de Jesus nada que toque os sentimentos deles. O que os tornava hipócritas era o desejo de ser vistos quando jejuavam.

Não há hipocrisia quando há um desejo sincero de mudar, e é isso que motiva a declaração de Lewis. Ainda que os sentimentos sejam impedimentos, eu quero amar ao meu inimigo. Eu quero vencer o rancor. Isso é o nosso coração. Assim, a hipocrisia é um pecado eminentemente social. Ninguém é hipócrita sozinho em alto mar. O hipócrita é aquele cuja prática religiosa visa agradar à vista.

Um dito latino anterior ao cristianismo expressa essa verdade: esse quam videri (“ser, em vez de ser visto”). A verdadeira virtude se manifesta mesmo quando não é vista. Ela não busca ser vista. Por isso Jesus, no Sermão da Montanha, corrige a três práticas religiosas: a caridade (Mt. 6:1-4), a oração (6:5-15) e o jejum (6:16-18). Sobre as três Jesus diz o mesmo: que não devem ser praticadas com o propósito de ser vistas. Isso não significa que elas devam necessariamente fugir à vista — o próprio Jesus orou em público, quando conveniente —, mas não devem buscá-la.

G. M. Brasilino

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