Oito erros que teólogos cometem

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  1. Doutrinarismo

O doutrinarismo reduz o cristianismo a um sistema de afirmações (“doutrinas”) corretas. A preocupação principal é saber se as pessoas acreditam nessas afirmações ou não. Os cristãos verdadeiros são os que acreditam nelas. Num caso mais extremo, a própria Escritura é reduzida a um sistema de proposições verdadeiras. É claro que a Escritura e (conseqüentemente) o cristianismo contêm proposições “verdadeiras” (na realidade, contêm juízos verdadeiros), mas nenhum dos dois se limita, de qualquer maneira, à dimensão doutrinal ou proposicional. A tendência do doutrinário, consciente ou não, é atribuir o primeiro lugar à Teologia Sistemática e interpretar a Escritura a partir dela. O doutrinarismo é um tipo de racionalismo da fé, em que tudo se rende ao sistema.

Na realidade, o cristianismo não é um sistema de doutrinas corretas. O cristianismo é a vida de Cristo no ser humano, é a participação em sua Cruz e sua Ressurreição, é a vida rendida e consagrada a Deus em Cristo. Todas essas coisas são primeiramente acontecimentos realizados por Deus. Como a doutrina é atividade do teólogo sistemático, coloca-la em primeiro plano é colocar a si mesmo em primeiro plano, quando a primeira lição que esse teólogo deveria aprender é colocar a atividade de Deus, e não a sua própria, em primeiro lugar. Tudo isso envolve doutrinas corretas — nós necessitamos de verdades que nos ajudem a lidar com todas essas coisas —, mas não é absolutamente dependente delas. A doutrina é apenas um necessário instrumento para o cristianismo, e não o próprio cristianismo.

  1. Distância da vida comunitária e de serviço

Está diretamente ligado ao anterior. Na verdade, a vida em comunidade e em comunhão é uma vacina contra o doutrinarismo. Essa proximidade com pessoas reais, sem os idealismos da doutrina, ajuda a ver o que de fato se deve esperar delas. É aqui que o doutrinário descobre o real lugar que a justificação pela fé tem, quando lida (como Paulo lidou) com cristãos diferentes que professam o mesmo Cristo, e não como doutrina abstrata sobre um elemento invisível da salvação; é aqui que ele descobre se sua teologia do casamento funciona; é aqui que ele descobre se suas concepções sobre oração são factíveis.

Esse erro tornou-se comum à medida que a atividade teológica deixou de ser uma atividade de ministros do evangelho (ou seja, de pessoas responsáveis por cuidar de outras pessoas) para ser uma atividade leiga (de professores), ou seja, à medida que deixou de ser uma atividade do coração. Com essa distância, a tendência é que o doutrinário se torne mais crítico e menos misericordioso.

  1. Crescimento do estudo sem crescimento correspondente da oração

A vida cristã de estudo e a vida de oração estão intimamente ligadas. A injunção paulina “Orai sem cessar” (1Te. 5:17) só faz sentido se a oração se tornar parte integral de todas as nossas atividades, inclusive o estudo. De fato, como a vida de estudo é feita de crises e mudanças de perspectiva (“e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor”, Ec. 1:18b), somente uma vida crescente de oração é capaz de levar a inteligência a uma verdadeira consagração. Inseridos numa cultura individualista que não incentiva a prática disciplinada, mas apenas a “espontaneidade”, é perceptível que os cristãos (e os teólogos cristãos) levam uma vida relaxada de oração.

  1. Provincianismo intelectual

O doutrinarismo provoca o provincianismo, e o provincianismo alimenta o doutrinarismo. É comum que os teólogos evangélicos se isolem da vida intelectual e cultural em geral, mas sofrem a pena de se perderem num universo de palavras e conceitos, por falta de sensibilidade intelectual. O papel do teólogo cristão não é apenas falar sobre Deus, mas ver todas as coisas à luz de sua Revelação. Por isso, ele deve se engajar seriamente e profundamente com toda a atividade intelectual. Quando não se isolam em debates inúteis do tipo “criacionismo e evolucionismo” (Cristo contra a cultura), incorrem no erro oposto, que é a absorção ingênua da última moda da academia (Cristo da cultura), porque, afinal de contas, o teólogo não tem tempo para estudar todo o mais…

  1. Usurpação da autoridade divina

O teólogo passa a falar em nome de Deus. Isso se tornou relativamente comum entre teólogos protestantes porque, em razão do doutrinarismo, o pecado de heresia deixou de ser uma “obstinação, após correção, na doutrina errada e sectária” (em concreto), como era na igreja medieval, para ser a “doutrina errada” (em abstrato), de modo que o lugar da condenação se transfere do tribunal eclesiástico para o livro do teólogo. Mas ao teólogo não cabe falar em nome de Deus; sua atividade é falível e essa falibilidade deve ser permanentemente e explicitamente admitida.

  1. Falta de senso histórico

O teólogo perde noção do quão dependente ele é de sua própria tradição e de quão grande é a influência dos muros eclesiásticos na sua interpretação. Passa a ver sua Teologia Sistemática como a verdade sobre a Escritura, e não apenas uma forma falível de reflexão acerca da Escritura. Leva naturalmente ao provincianismo e à usurpação de autoridade. É sempre recomendável um estudo sério, sincero e crítico de História da Igreja e Teologia Histórica. Embora não seja aceitável o radicalismo historicista que sujeita todas as crenças à história, o teólogo deve expressar sempre humildade perante o passado (e não apenas o passado que lhe agrada).

  1. Paranóia heresiológica

É a malícia na interpretação de declarações alheias. O paranóico procura sempre aumentar a diferença e diminuir a identidade entre sua posição e a do seu alvo. Procura sempre enxergar o número máximo de erros e o número mínimo de acertos. É uma violação clara do ensinamento de Cristo: tratar aos outros como gostaríamos de ser tratados (Lc. 6:31), isto é, com a mesma bondade. Quem age assim mostra pouco interesse em conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef. 4:3) e pouca paciência para com o progresso alheio.

  1. Independência

Um grande erro que um teólogo pode cometer é não ter um mentor cristão, alguém com experiência e profundidade que possa lhe fortalecer espiritualmente. Os teólogos, assim como todos os cristãos, precisam de pessoas que os acompanhem, ajudem e que sejam capazes de os apoiar e compreender nos momentos de crise.

G. M Brasilino

2 comentários em “Oito erros que teólogos cometem

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