Notas sobre o Batismo

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“O Batismo é o sacramento mediante o qual, pelo arrependimento e pela fé, recebemos esta salvação: unimo-nos a Cristo na sua morte; obtemos o perdão dos nossos pecados; somos feitos membros do seu Corpo; e com Ele nos elevamos a uma vida nova no Espírito.” (LOCb)

A coisa mais impressionante que a Sagrada Escritura diz sobre o batismo é que ele “salva”: sōzei baptisma (1Pe. 3:20,21). Diferentemente do que prega o zuinglianismo, tão comum entre evangélicos brasileiros, o batismo jamais é descrito nas Escrituras como “apenas um símbolo”. Na realidade, a Escritura jamais diz ou dá a entender que o batismo é um símbolo, em primeiro lugar. No texto de 1 Pedro, o Dilúvio foi o símbolo; a realidade simbolizada é o batismo. Quando se utiliza a palavra “símbolo” para o batismo, trata-se de linguagem meramente fenomenológica, e não de uma descrição fundada na Revelação.

A teologia defendida é a teolgia reformada do batismo, em íntima conexão com a teologia patrística do batismo (que não tem nada de “meramente simbólica”), fundamentada nas Escrituras, e em clara oposição à concepção zuingliana do batismo.

1. O que é o batismo?

O batismo é uma declaração profética do nome de Deus e da “purificação” (Jo. 3:25,26; cf. Ex. 12:44; Nm. 19:11-13; Lv. 14:8; 22:6) sobre a vida de uma pessoa. Na Bíblia, declarar o nome de Deus sobre algo ou alguém significa que esse algo ou alguém agora pertencente a Deus como lugar de sua habitação e manifestação (Tg. 2:7; cf. Dt. 28:10; 2Sm. 6:2; 1Rs. 8:43; 1Cr. 13:6; At. 15:17; 22:16). O batismo é um ato exterior, simbólico, ao qual é acrescida a promessa de renovação espiritual. A noção da promessa como atrelada ao batismo foi uma das ênfases corretas de Lutero na teologia do batismo.

2. Batismo e Morte

O batismo é um símbolo do sepultamento (Cl. 2:12). A pessoa morre não apenas para os pecados individuais que tenha cometido (At. 2:38), mas também para o mundo como um todo e para o pecado original (Rm. 6:1-8), do qual todos os seres humanos são herdeiros até o momento de se tornarem herdeiros de Cristo (1Co. 15:22). Ela deixa de estar em Adão (velha criação, condenada) e passa a estar em Cristo (nova criação, libertada). Por isso, o batizado recebe sobre si a promessa profética de não mais fazer parte das relações deste mundo (Gl. 3:27,38), algo que só vai se cumprir inteiramente na eternidade. Esse “revestir-se” transmitia a idéia de assumir uma nova identidade, um novo relacionamento com o restante do mundo. A velha identidade se perdeu.

Dizer que o batismo é um símbolo não significa tratá-lo como uma mera “representação”. Não há nada de teatral no batismo. Embora alguns imersionistas gostem de pensar na “descida” como representação do sepultamento e na “subida” como representação da ressurreição, na realidade os judeus (como Jesus e os apóstolos) não eram enterrados como nós somos hoje. Aplicar essa idéia ao batismo é um anacronismo, além de ignorar a evidência de batismos sem imersão no Novo Testamento (e.g. At. 9:18; 19:1-6).

2. Batismo e Fé

O lado profético é importante, porque mesmo pessoas que são batizadas adultas continuam pecando, apesar de terem se comprometido a uma vida nova. Quando batizamos uma criança, queremos que ela seja parte dessa vida nova (Cristo), e não da vida antiga (Adão). O mesmo ocorre com adultos. Nenhuma criança escolheu nascer em Adão!

O batismo e a fé estão intimamente ligados. Por isso, às vezes o batismo é chamado sacramento da fé. Isso quer dizer que as promessas do batismo só são plenamente usufruídas quando se exerce a fé. Além disso, nós só batizamos filhos de cristãos, pessoas que tenham se convertido a Cristo; o batismo é sempre precedido da pregação do Evangelho.

Essas crianças precisam um dia se converter e ter fé em Cristo. Mas elas já são membros da Aliança com Deus. Se resolverem levar uma vida de pecado, são membros rebeldes da Aliança. Se levarem uma vida de fé, elas confirmam para si aquilo que fizeram no batismo e recebem essas promessas batismais de perdão de pecados e recebimento do Espírito Santo (At. 2:38,39) e vida nova em Cristo. Assim, elas cumprem aquilo que está em Cl. 2:12: primeiro foram sepultadas no batismo (quando crianças) e depois ressuscitaram com Cristo pela fé (quando adultas). Na verdade, muitos adultos são batizados sem fé, e só depois têm uma conversão verdadeira. Com eles acontece o mesmo que com as crianças, e eles não devem ser rebatizados.

3. Batismo e Igreja

No Antigo Testamento, existia a prática de circuncisão, que era o meio pelo qual alguém passava a fazer parte do povo de Deus. Tanto crianças quanto adultos eram circuncidados; uma criança não circuncidada estava excluída do povo de Deus (Gn. 17:14). Hoje o batismo substituiu a circuncisão (Cl. 2:11,12) e é pelo batismo que somos incorporados à Igreja. No Novo Testamento, quando os pais se convertiam, toda a família era batizada (At. 10:47,48; 11:14; 16:15; 16:30-34; 1Co. 1:16), assim como no Antigo toda a família era circuncidada (Gn. 17:12,13). A circuncisão era um selo da fé que Abraão teve (Rm. 4:11), mas mesmo os seus filhos receberam esse selo de fé. Embora nós digamos que batizamos crianças, na realidade batizamos famílias, das quais as crianças são membros.

As igrejas evangélicas mais recentes têm dificuldade com o batismo infantil por crerem que o batismo é uma profissão de fé. A Escritura nunca descreve o batismo como uma profissão de fé. O que a Bíblia claramente diz sobre o batismo é que ele é um sepultamento (Rm. 6:4; Cl. 2:12) e que através dele nós somos revestidos de Cristo e deixamos de fazer parte do velho mundo (Gl. 3:26-28). Por isso, deixamos também de estar debaixo da lei de Moisés (Rm. 6:4-6 + Rm. 7:4; Cl. 2:12-17).

O batismo é um sinal (sacramento) instituído por Cristo, através do qual nós nos tornamos seus discípulos, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt. 28:19). O batismo não foi instituído no nome de nenhum homem ou igreja, e por isso é irrelevante saber quem batizou ou em que igreja uma pessoa foi batizada. Do contrário, nenhum de nós jamais teria um batismo válido. O batismo não depende da fé ou da vida espiritual de quem batiza. Sua eficácia depende apenas do poder de Cristo (que nunca falha), e seu gozo depende apenas da fé de quem foi batizado (que não será decepcionada).

O lado coletivo do batismo aparece em Ef. 4:4-6, texto que perde o seu sentido se o batismo é entendido como uma confissão de fé individual, e não como um ato coletivo de participação em Cristo. A mesma idéia se vê em 1Co. 12:13, o qual, corretamente traduzido, não se refere a um “batismo no Espírito Santo” (como na Almeida), mas sim em que a ação de inserir os cristãos na Igreja através do batismo é uma ação do Espírito Santo (cf. vv.4-11). Se nesta mesma carta aos coríntios, o apóstolo Paulo não assumisse o batismo com o sacramento que incorpora a uma igreja, não haveria qualquer motivo para criticar o divisionismo coríntio (“Eu sou de Paulo”) com a pergunta: “fostes vós batizados em meu nome?” (1Co. 1:11-16). Porque o nome no qual foram batizados indica aquele a quem eles pertencem.

4. Batismo e Graça

O batismo é um símbolo do Evangelho da graça (tão poderosa que alcança crianças) e da justificação pela fé. Há quem chame a justificação inicial (ligada à conversão) de justificação batismal. O batismo preserva a verdade da justificação pela fé; não é a minha fé em si mesma, mas um ato exterior a ela (o batismo) realizado por outra pessoal (não por mim), por ação divina, que a capacita a herdar a ressurreição. A justificação pela fé deixa de ser um ato individualista de confiança interior e passa a ser um ato comunitário. Deixa de ser um ato humanista de profissão da própria fé para se tornar um ato divino de recepção de um pecador.

Como em Hb. 10:22, para aproximar-nos de Deus, o coração purificado é acrescido do “corpo lavado com água limpa”. Essa “água limpa” aponta para Ez. 36:25-27 (LXX), texto em que a purificação dos pecados é conseqüente à purificação com água. O mesmo ocorre também em 1Co. 6:11, em que um lavar-se em água é resposta para o pecado. Nós, que morremos com Cristo no batimo (Rm. 6:4), estamos absolvidos do pecado (Rm. 6:7), remidos dos pecados (At. 2:38). Unido a Cristo, eu compartilho de sua justiça enquanto ele leva meu pecado na Cruz.

5. Batismo e Vida Nova

É natural, então, que todas as reações negativas às promessas bíblicas do batismo sejam eminentemente moralistas: como pode o batismo ser instrumento de vida nova, se tantas pessoas (crianças ou adultos) são batizados e não manifestam uma vida nova? Por outro lado, pessoas abraçam a fé cristã e já manifestam uma vida diferente. Mas como explicado acima, o batismo representa apenas o “sepultamento”; a vida nova aparece “pela fé” (Cl. 2:12). O mesmo ocorre em Gl. 3:26,27: nós nos tornamos filhos de Deus pela fé em Cristo, tendo sido primeiramente batizados; o batismo não garante a filiação espiritual, mas a possibilita.

O batismo é como uma estrada: embora digamos que uma estrada “leva a tal lugar”, na realidade quem leva é o carro que passa por cima da estrada e a usa como superfície de atrito e como indicação do caminho. O batismo é a estrada, pavimentada por Cristo, sobre a qual o carro da fé nos conduz à Jerusalém Celestial.

6. Batismo, Dilúvio e Êxodo

As duas alegorias bíblicas do batismo são o Dilúvio no Gênesis (1Pe. 3:20,21) e a travessia do Mar Vermelho no Êxodo (1Co. 10:1,2). Nos dois casos, a água é uma transição. No Dilúvio, uma transição entre um velho mundo condenado e um novo mundo. No Êxodo, é a transição entre o Egito (escravos sob Faraó) e o percurso à Terra Prometida. Os dois casos se encaixam perfeitamente na descrição de Rm. 6:1-8: sepultados nas águas do batismo, pela Cruz de Cristo somos libertados da “escravidão” do pecado do nosso “velho homem” (Adão) e levados a um novo mundo de liberdade. Nos dois casos, somente os que creram na promessa a herdaram (fé). Nos dois casos, assim como no texto de Romanos, algo sempre morre no batismo (Antediluvianos, Egípcios, Adão).

De fato, pode-se dizer que a Epístola aos Romanos reconta a história do povo de Israel em termos cósmicos: as promessas são feitas a Abraão (Rm. 4), o povo é escravizado e libertado (Rm. 5), o povo atravessa o Mar Vermelho e deve aprender a viver como livre (Rm. 6), o povo recebe a Lei (Rm. 7), o povo recebe a terra prometida (Rm. 8).

7. Batismo e Comunhão

Em geral, as igrejas protestantes têm como prática só admitir à Comunhão (Ceia, Eucaristia, Mesa ou como queira chamar) quem tenha sido batizado, o que, na realidade, é a prática dos cristãos de todas as épocas. Mas para quem tem uma concepção depreciativa do batismo (“apenas um símbolo”), não existe a menor justificativa para essa limitação. Se o batismo é “apenas um símbolo”, e já somos filhos de Deus pela fé sem o batismo (contradizendo Gl. 3:26,27), não existe nenhum motivo pelo qual os filhos de Deus não possam receber esse alimento. Mas se a Comunhão é o sacramento que sela a unidade da Igreja (1Co. 10:16,17), então só é válido para quem é parte da Igreja, ou seja, quem foi batizado. Somente uma concepção robusta e reformada do batismo justifica essa limitação.

G. M. Brasilino

4 comentários em “Notas sobre o Batismo

  1. Meu caro, gostaria de esclarecer uma questão sobre a validade dos sacramentos em certos grupos: creio que no protestantismo, no anglicanismo, no catolicismo romano, na Igreja Ortodoxa e no adventismo do sétimo dia o sacramento do batismo é válido pelo fato desses grupos possuírem, mesmo q somente nos pontos mais básicos, a verdade cristã. Mas o que dizer do batismo efetuado um,grupo que não possui a “fé católica”, tal qual professada nos credos ecumênicos? (ex: Testemunhas de Jeová, Mórmons, Unicistas,etc.)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sendo o Batismo realizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a regra é de que ele é válido. Nos casos onde há dúvida (geralmente por oposição à fé trinitária), realiza-se o Batismo condicional.

      É um pouco complicado associar a doutrina ao Batismo. O cânon 5 do Concílio de Constantinopla, por exemplo, relata a prática antiga de considerar vário o batismo ariano (=Testemunhas de Jeová) e negar o batismo sabeliano (=Unicistas). O meu sentimento pessoal é de que deveria ser o contrário, se levássemos em conta a doutrina, já que os unicistas afirmam o monoteísmo (mantendo a autoridade batismal em um só Deus) e os arianos, de certo modo, negam (fazendo do Filho um deus inferior). Por outro lado, o arianismo está mais perto das cristologias do século II que o sabelianismo.

      Por conta dessas dificuldades, eu considero que o melhor mesmo é realizar o Batismo condicional no caso de “Testemunhas de Jeová”, unicistas, etc.

      O caso dos Mórmons é inteiramente diferente, já que eles são politeístas explícitos, e não existe relacionamento real entre o que eles chamam de “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo” e aquilo que cristãos (mesmo arianos e unicistas) chamam pelos mesmos nomes.

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