Amor em duas teologias: Dietrich Bonhoeffer e C. S. Lewis

Fotsky

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” (1Jo. 4:16b)

Um alemão e um britânico. Ambos viveram durante a Segunda Guerra, embora Bonhoeffer não tenha sobrevivido ao nazismo. Ambos cristãos profundamente preocupados com o relacionamento de sua fé cristã com a cultura e a sociedade. Eles representam duas tradições teológicas distintas, cujas histórias se misturam às de seus países — um luterano e um anglicano. Por isso, em Bonhoeffer e Lewis mostram-se duas formas contrastantes de encarar um dos assuntos mais importantes da pregação cristã: o amor.

Um ponto de discordância fundamental é o lugar concedido ao amor natural. Que relação há entre as afeições naturais e o amor divino que é resultado da ação interior do Espírito Santo (Rm. 5:5; Gl. 5:22)? Para Bonhoeffer, há uma oposição; para Lewis, há uma forma de continuidade.

Bonhoeffer (1906–1945) concebe o amor em um cristocentrismo radical, sua principal virtude. Meu relacionamento fraterno com o irmão “consiste unicamente no que Cristo fez por nós dois” (Vida em Comunhão, Sinodal, 2011, p.17). Ele traça a distinção entre o amor anímico (ou psíquico) e o amor espiritual. O amor anímico tudo faz por desejo, enquanto o amor espiritual é o amor de serviço. “O amor anímco ama a outra pessoa por amor a si mesmo; o amor espiritual ama a outra pessoa por amor a Cristo.” (p. 24)

Nessas condições, não resta qualquer lugar para o amor natural, como a afeição materna natural. De fato, “o amor espiritual vem do alto, é estranho a todas as formas de amor terrenas, é novo, incompreensível” (p. 25). Entre a esfera terrena e a espiritual, entre a natureza e a graça, há um abismo intransponível.

Lewis (1898–1963) vê as coisas em nuances. Tratando do patriotismo — se bom, se mau —, Lewis vê no amor a pátria uma forma de vencer o amor próprio da família, e na família uma forma de vencer o amor próprio do indivíduo. “Todas as afeições naturais, inclusive essa, podem se opor ao amor espiritual, mas podem também ser imitações preparatórias desse amor, treinando (por assim dizer) os músculos espirituais que a graça poderá, mais tarde, pôr a serviço de algo superior — do mesmo modo como as mulheres cuidam de bonecas na infância e, mais tarde, de crianças.” (Os Quatro Amores, Martins Fontes, 2009, p. 35).

Por isso, ele usa expressões muito mais matizadas para tratar desses dois amores: Amor-Necessidade e Amor-Doação, de maneira que o primeiro é uma preparação para o segundo. O egoísmo não estaria no amor próprio, mas em tratá-lo como a preocupação última, a coisa mais importante.

Enquanto Bonhoeffer vê a verdadeira vida comunitária como livre da necessidade e preocupada apenas com o serviço, Lewis vê nisso um ideal bastante ilusório: “essas alturas deixariam de ser graças verdadeiras — seriam ilusões neoplatônicas ou, em última instância, diabólicas — no momento em que um homem ousasse imaginar-se capaz de viver delas e dispensar, desse momento em diante, o elemento necessidade.” (p. 5).

Talvez uma forma de recolocar essa oposição é pensar a natureza do amor próprio. Ele é resultado da Criação ou da Queda? Bonhoeffer parece ver o amor próprio como um resultado da Queda, enquanto talvez Lewis colocasse o amor próprio como parte da boa Criação de Deus, ainda que dirigido pelo pecado.

***

Ao ensinar que devemos amor o próximo como a nós mesmos, citando a Lei Mosaica, Cristo toma o amor próprio como pressuposto, como observou Agostinho, embora este tenha exagerado em ver aí não apenas uma referência, mas um mandamento do amor próprio (De doctrina christiana, I, c. 26). Uma pessoa totalmente desinteressada não tem com que fazer com “como a ti mesmo”.

E todavia há situações que claramente desafiam o amor próprio, e aqui se mostra radicalidade de Cristo. Só posso amar o inimigo sacrificando algo do amor próprio. Mas não precisamos ir tão longe: um pai que trabalha pelo bem dos filhos. Podemos dizer que ele ignora suas próprias necessidades, seus próprios desejos, seu amor próprio, pelos filhos, ou dizer que, concebendo os filhos como parte de si, ele no fim das contas cuida de si mesmo — tanto faz! Fato é que aqui o amor próprio foi absorvido num amor de doação.

 

Em Bernardo de Claraval (1090–1153), o progresso do amor egocêntrico para o amor teocêntrico encontra uma bela representação, e é esse tipo de “unidade de percurso” que subjaz ao realismo de Lewis. O amor a Deus começa como um amor egoísta, um amor a si mesmo, preocupado comsbc sua própria necessidade e satisfação. Mas, impelido por essa necessidade, esse amor é levado a buscar em Deus sua própria satisfação e, encontrando a resposta da graça divina, redunda em gratidão belo benefício, que é o segundo estágio. Quando isso se torna constante, o amor começa a deleitar-se em estar com Deus simplesmente, e não mais por qualquer coisa recebida; o amor próprio não é mais uma preocupação. Aqui, no terceiro nível, começa o amor teocêntrico; Deus passa a ser amado por si mesmo, e não por algo que ele nos proporciona. No quarto e último nível, só plenamente desfrutado na vida eterna, é passar a amar a si mesmo por amor a Deus, o inverso do começo! Embora não se possa dizer que essa escada imaginada por Bernardo reflita exatamente o progresso espiritual de todos os que chegam ao quarto grau, sua beleza está em ver todas as coisas como instrumentos da graça divina — mesmo o egoísmo do primeiro estado!

***

A rejeição do amor próprio afeta diretamente uma das expressões mais próprias do amor: a oração. É essa uma das preocupações de Richard Foster em seu livro sobre oração:  “Falam muito também em evitar essa “oração egoísta”, ressaltando a “oração altruísta”. O que não percebem, entretanto, é que a oração simples é necessária, essencial mesmo, à vida espiritual. A única maneira de ir além da “oração egoísta” (se esse for mesmo o caso) é passar pela oração simples, não tentando contorná-la.” (Oração, Vida, 2008, p.30). Se não há c1000L16004_8SM74_1ontinuidade entre o amor próprio e o amor divino, de fato grande parte das orações dos Salmos ficam inteiramente sem sentido (Amo ao Senhor, porque ele ouviu a minha voz e a minha súplica.”, Sl. 116:1). Fica sem sentido a exortação do profeta Josué a que os israelitas guardem seus corações para amarem a Deus para que não sejam castigados (Js. 23:11-13).

Promessas apelam ao amor próprio, assim como condenações. Mesmo quando nos ensina a nos negarmos, Jesus o faz tendo em vista uma promessa que queremos receber (Mc. 8:34,35). O que está em jogo é ir além do amor próprio (Lc. 6:32), não rejeitá-lo desde o princípio. O amor divino elimina o temor da condenação (1Jo. 4:18), mas esse amor é o resultado da caminhada, e não o seu começo; o temor é algo a ser superado, e não simplesmente rejeitado.

No livro IX da Ética a Nicômaco, Aristóteles discute essa mesma questão: o homem bom deveria amar mais a si mesmo ou ao seu amigo? O Estagirita responde que o homem bom realiza o bem ao próximo por amor a si mesmo; quando gasta uma fortuna por outra pessoa, o faz porque quer ser nobre, pois ser nobre é melhor que ser rico.

Aristóteles não conheceu a revelação cristã, mas sua resposta aponta imperfeitamente para o que C. S. Lewis ou Bernardo de Claraval nos disseram. Fomos criados como necessitantes; a abertura do homem de que nos falam os existencialistas é uma abertura de necessidades. Não é mesmo um escândalo que nosso Senhor nos ensine a pedir primeiro pelo pão (epiousios) diário, e só depois por perdão e por livramento na tentação? O verdadeiro progresso do amor é passar às necessidades mais elevadas, até o ponto em que esquecemos de nós mesmos. Deus então é tudo em todos.

G. M. Brasilino

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