O Símbolo de Deus

man and God

“Que é o homem mortal para que te lembres dele?
e o filho do homem, para que o visites?
Pois pouco menor o fizeste do que os anjos,
e de glória e de honra o coroaste.”
(Salmos 8:4,5)

O texto de Gn. 9:6, juntamente com Nm. 35:33,34, é o mais perto que a Escritura chega de uma justificação da pena de morte para o homicida.

Gênesis 9:6
“Quem derramar sangue do homem,
pelo homem seu sangue será derramado;
porque à imagem de Deus foi o homem criado.”

Ele deve ser morto, pois matou o homem criado à imagem de Deus — noutras palavras, deve ser morto porque feriu a imagem de Deus no homem, porque atingiu algo de sagrado no homem, atingiu ao próprio Deus. O texto de Números não é muito diferente: o homicídio é uma profanação que contamina a terra, o que nos recorda do pecado de Caim. O homicida comete um sacrilégio. Algo semelhante é dito em Tg. 3:9,10 sobre situação diferente:

Tiago 3:9,10
Com a língua bendizemos ao Senhor e Pai,
e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus.
Da mesma boca procedem bênção e maldição.
Meus irmãos, não pode ser assim!

O que esses textos têm em comum é a referência à criação do ser humano, a Gn 1:26. Quem amaldiçoa ao ser humano, amaldiçoa a Deus, porque o ser humano foi feito à sua semelhança. Eis a hipocrisia da língua!

Gênesis 1:26
Então disse Deus:
“Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança.
Domine ele sobre os peixes do mar,
sobre as aves do céu,
sobre os animais grandes de toda a terra
e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”.

Deus criou o ser humano à sua imagem, conforme a sua semelhança. Na história da teologia cristã, houve muitas especulações sobre o significado de “imagem” e “semelhança” em Gênesis, todas muito interessantes e geralmente infundadas. Atualmente a erudição aponta na direção da posição do ser humano na Criação, não de uma característica sua. Assim como os monarcas do oriente médio antigo eram representantes (imagens) dos deuses, o ser humano é representante do Deus único, com o respectivo poder sobre a criação. Essa é a noção subjacente ao Salmo 8, por exemplo.

Para efeitos do que se discute aqui, não importa muito identificar o que exatamente “imagem” e “semelhança” significam, ou distingüi-las. O texto hebraico em si não separa imagem e semelhança. Quando Gn. 1:26 foi traduzido para o grego (Septuaginta), e dele para o latim (Vulgata), um “e” infeliz foi introduzido entre a imagem e a semelhança — kat’ eikona ēmeteran kai kath’ homōiosin (LXX), ad imaginem et similitudinem nostram (Vg.) —, o que viciou todo o debate teológico posterior a falar em “imagem e semelhança”, ainda que esses mesmos tradutores tenham entendido claramente tratar-se de uma coisa só, pois colocaram o adjetivo possessivo (ēmeteran, nostram) no singular. Fato é que o texto hebraico dá motivo para ver nada além de um paralelismo sinônimo — uma repetição em palavras distintas, com o mesmo sentido.

Imagem e semelhança são expressões que, em conjunto, apelam para a visão. Posso falar da semelhança entre duas músicas ou dois sabores, mas só posso falar da “imagem” de uma música como figura de linguagem. No texto hebraico, essas duas expressões designam universalmente a aparência física — “imagem” (elem) geralmente designa os ídolos que representam os deuses pagãos, enquanto “semelhança” (mût) designa a aparência de algo (cf. Ez. 1:28). Noutras palavras, quem olha para o ser humano, de algum modo olha para Deus. No homem se vê mais do há que nele. O homem aponta para uma realidade superior. O homem é um símbolo de Deus.

Importa apenas saber que, segundo Gn. 9:6 e Tg. 3:9 mostram, a imagem e semelhança de Deus ainda está presente no ser humano, de modo que uma ofensa ao ser humano torna-se uma ofensa a Deus. O princípio que norteia Gn. 9:6 e Tg. 3:9 é o de que a dignidade do homem deriva da dignidade de Deus, a qual jamais pode ser desprezada. Esse princípio, já presente no Antigo Testamento, não é muito diferente da preocupação de Jesus com o próximo: tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt. 7:12).

 G. M. Brasilino

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