A Cruz e o Tabu

Seeds-2

“Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns.”
(1 Coríntios 9:22b)

A parábola da casa edificada sobre a rocha (Mt. 7:24-27) está entre as mais conhecidas. É uma metáfora estendida: a verdadeira obediência à palavra de Jesus assemelha-se à casa edificada sobre a rocha, que resiste ao tempo mau, ao passo que a casa edificada sobre a areia não resiste. A firmeza depende do solo. É uma lição de fé e ao mesmo tempo uma lição de sabedoria.

Quando o missionário Bruce Olson evangelizou os motilones da Colômbia e da Venezuela, deparou-se com um problema. Os motilones não constroem casas sobre solos muito firmes, mas sobre areia. Suas casas dependem de “estacas” que devem penetrar fundo na areia, dando estabilidade à estrutura; se o terreno é rochoso, a casa provavelmente não vai resistir. Quando Jesus contou a parábola, pressupôs um modo de construir que não é o mesmo usado pelos motilones. Bruce Olson então inverteu a parábola na sua tradução: aquele que segue Jesus é como o que edifica sua casa sobre a areia; o tolo edifica sobre a rocha. Tendo que escolher entre a mensagem e a letra, ele preferiu a mensagem.

Na aculturação da pregação cristã, os missionários se deparam com choques, e nem sempre eles são tão simples de resolver. O site da BBC (veja aqui) mostra fotografias muito bonitas do último povo nômade (Raute) do Nepal, hoje com menos de 150 pessoas. São caçadores-coletores com um tabu intrigante: segundo o comentário do site, eles consideram “pecado” semear. Provavelmente “pecado” não é a melhor palavra para expressar esse tabu; é uma expressão com uma série de pressupostos teológicos que não sabemos ser compartilhados por esses nepalenses. De todo modo, é proibido semear.

Não é difícil entender a origem desse tabu. Se supomos que a cultura é uma forma coletiva de sobrevivência à natureza e vivência da natureza, o tabu é uma forma de preservar os próprios Raute. Como nômades, sua sobrevivência depende daquilo que caçam e colhem (e, atualmente, do que recebem do governo); não estão presos a nenhuma área específica. Em algum momento, quando entraram em contato com a semeadura, perceberam como aquilo poderia trazer risco para a unidade de que eles precisavam para sobreviver. A semeadura torna os homens presos à terra e introduz novas formas de poder e autoridade; desprivilegia a coragem e a força do caçador contra a sabedoria e paciência do agricultor; de fato, põe em risco até mesmo a divisão sexual do trabalho presente entre eles. Se queremos ser unidos, seremos todos caçadores e ponto final. Talvez seja esse o motivo.

A idéia de que os tabus estejam ligados à sobrevivência de uma identidade coletiva é bem conhecida dos leitores do Novo Testamento. Os Atos dos Apóstolos e as epístolas aos Romanos e aos Gálatas mostram a crise ocasionada pela conversão dos gentios, impondo sérios desafios à identidade judaica dos primeiros seguidores de Jesus, sustentada em certos tabus (alimentação, sexo, e trabalho no sétimo dia) e na marca da circuncisão. Pela lei de Moisés, quem não praticasse isso seria “extirpado do seu povo” (Gn. 17:14; Lv. 7:27; 18:29; cf. Ex. 31:15,16). Vivendo espalhados pela África, Europa e Oriente Médio, e sem liberdade política em Israel, os judeus encontraram nesses tabus que os diferenciavam de outros povos, a unidade de que precisaram para sobreviver.

O que aconteceria se missionários cristãos evangelizassem o povo Raute? É claro que um primeiro problema estaria na ubiqüidade do conceito de semeadura na Bíblia, seja literal, seja metafórico. Não seria tão simples “acomodar” a mensagem a uma outra linguagem, como fez Bruce Olson. Mas o problema é bem amor. Para os cristãos, semear não é, em si mesmo, pecado. Não há nada inerentemente mau em semear.

A introdução de uma nova referência para o comportamento levaria o tabu Raute a morrer ou a tomar outra forma. Morto o tabu, os Raute seriam incorporados à cultura agrícola em redor e aconteceria tudo o que o tabu quis evitar —  exceto talvez a perda da unidade, que encontraria na Cruz, e não mais no Tabu, seu epicentro (mas não sem conflito; cf. Mt. 10:34-36). Por mais cuidadosos que sejam os missionários, o cristianismo necessariamente causa um impacto sério na cultura. O Evangelho muda a cultura.

Cristianismo e cultura têm um relacionamento bastante intrincado e problemático; a cultura tende a ser um modo particular de vida coletiva, enquanto o cristianismo tende a apontar para e se ocupar com valores eternos. “Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas.” (Cl. 3:2). Independentemente da proposta teológica que se faça acerca do binômio “Cristo e cultura”, na prática há algo que a Igreja sempre fez e faz: tolerar a cultura. Os cristãos encontram elementos com os quais são capazes de conviver e que, de toda forma, só causariam mais problemas se fossem mexidos. O “consumismo” não é compatível com a noção cristã de simplicidade, mas a Igreja tolera riqueza ou conforto na vida de seus membros. Trata-se de uma tolerância crítica. Ver a cultura sub specie aeternitatis dá à Igreja a medida relativa da (ir)relevância dos “elementos” da cultura.

Ainda assim, a Igreja insere na cultura princípios que, após muitas gerações, mudam aquilo que ela tolera. A escravidão é uma instituição tolerada na Escritura, ainda que com uma série de limitações. Mas a pregação da Igreja levaria necessariamente ao fim da escravidão: como seria possível manter essa instituição sem violência e considerando-se o escravo como irmão (Gl. 3:28; Ef. 6:9)? Quando essa igual dignidade espiritual se fez em igual dignidade política sob Constantino (manumissio in ecclesia), o Império Romano viu lentamente a morte da escravidão na Europa, o que aconteceria também no mundo colonial, mais de um milênio depois, graças aos esforços de cristãos como William Wilberforce.

G. M. Brasilino

6 comentários em “A Cruz e o Tabu

  1. Cristianismo é um modo de vida de livre escolha. Mas, com certeza faz transformações. Aliás, não só faz, como de fato deve fazer. Pois isso é a pregação do Evangelho.
    Essa questão de enculturação é arma ou escudo da fé alheia, ou melhor, da crendice alheia. Isso soa à Teologia Liberal onde o Evangelho além de dispensável é ecumênico. Como bem sabemos o ecumenismo é a religião do anticristo.

    Curtir

  2. Gostei muito de seu texto. Concordo que o Evangelho muda (e deve mudar) a Cultura, mas tenho algumas ressalvas, quanto a isso: 1. quando um comportamento de dada cultura não é oposto aos princípios bíblicos, tal costume pode/deve permanecer; 2. se uma dada prática cultural for contrária aos ensinamentos das Escrituras, tal deve ser totalmente condenada. Um terceiro caso, seria algum comportamento que, não necessariamente é pecado, mas pode “levar ao erro”.Por exemplo: beber cerveja. Na Alemanha, o beber cerveja está muito associado à apreciação da cevada, nas refeições. tanto é que, até as propagandas abordam a qualidade do produto, de sua matéria-prima, etc. Já aqui no Brasil, o ato de tomar cerveja está muito mais ligado ao alcoolismo, adultério, exageros, etc. O comportamento per se não é inerentemente mau, mas pode, em alguns contextos culturais, estar muito associado à prática pecaminosa. Nesse caso, devemos ter cautela e evitar tais práticas, pelo menos por causa dos irmãos mais fracos. Assim, estaremos seguindo a recomendação paulina de” deixar de comer carne para não ferir a consciência do irmão mais fraco , por quem Cristo Morreu”.

    Curtir

      1. Talvez signifque isso mesmo; mas, deve significar muito mais: significar, antes de tudo, que devo ‘tentar’, com tudo que estiver ao meu alcance, não ferir à consciência de meu irmão. Se eu estou em minha casa, posso saborear um vinho, mesmo sabendo que um irmão ‘mais fraco’ não entende o que faço de consciência livre.No entanto, a tarefa mais importante que um irmão forte deve empenhar-se em realizar é a de instruir o mais fraco, para que este alargue sua compreensão do que é e não é pecado, do que é e não é Evangelho. Talvez, se não obtiver êxito na tentativa de esclarecer ao irmão – sobre o fato de não haver pecado algum em tal comportamento- eu possa, enfim, “consumir o álcool, mesmo que ele saiba”, pois também não estamos sujeitos à escravidão. Mas, como citei, devemos fazer “tudo que estiver ao nosso alcance”. Do mesmo modo, boa parte das igrejas utiliza suco de uva na celebração da Ceia, para não despertarem, naqueles irmãos que tiveram problemas com alcoolismo, o vício. Não quero oferecer uma resposta fechada para sua pergunta, até porque tenho mais a aprender contigo, que você comigo. Paz!

        Curtido por 1 pessoa

      2. O propósito na minha pergunta foi o de testar a maturidade da resposta. Concordo com sua resposta em tese, mas percebo que ela não se aplica tão facilmente à situação brasileira, por dois motivos:

        1. Não percebo na cultura brasileira nenhum problema específico com o álcool, se comparada à germânica ou qualquer outra. O problema que existe é na cultura brasileira evangélica, assim como na americana, da qual deriva. Essa sub-cultura inventou um tabu em relação à bebida alcoólica (assim como ao tabaco e outras coisas) e agora é refém desse tabu. Por conta disso, os pastores evangélicos brasileiros são pródigos em pregar o “não despreze seu irmão [que não come]”, mas se omitem da responsabilidade de pregar o “não julgue seu irmão [que come]” (Rm. 14:3). Se os DOIS lados fossem pregados, o tabu desapareceria depois de uma geração, e todos os cristãos poderiam usufruir do presente de Deus: “o vinho que alegra o coração do homem” (Sl. 104:15).

        2. O caso que o apóstolo Paulo discute (Rm. 14; 1Co. 8; e 10) é mais delicado que o nosso. O tabu alimentar ali tratado não é uma invenção da igreja, mas uma prática de abstinência de pureza alimentar assentada no Antigo Testamento, como ocorrera antes com o profeta Daniel (1:8,12). Como as igrejas gentílicas cresciam principalmente a partir da conversão de judeus helenizados, a questão de “relação pública” tendo em vista a pregação do Evangelho se tornava bastante sensível; por isso mesmo Paulo se recusa a dar uma resposta definitiva.

        Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s