Contra o Princípio Regulador do Culto

Aliança

Portanto, já que estamos recebendo um Reino inabalável, sejamos agradecidos e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso “Deus é fogo consumidor!” (Hebreus 12:28,29)

Todos os cristãos concordam que somente Deus deve ser adorado, e que somente deve ser adorado como sua Palavra estabelece. Existe um modo aceitável (euarestōs) de se adorar a Deus — o que quer dizer que há também um modo inaceitável. Todas as tradições cristãs vêem em Hb. 12:28,29 uma clara afirmação da seriedade com que se deve tratar os limites do culto comum. Mas entre os cristãos protestantes, há um debate sobre o que constitui de fato uma liturgia obediente à Palavra. Significa que devemos fazer apenas o que a Escritura não proíbe, ou que devemos fazer apenas aquilo que ela manda? Há graus distintos de liberdade.

Para os regulativistas (defensores do Princípio Regulador do Culto, PRC), a liberdade é em geral mal vista: não podemos acrescentar ao culto nada que não esteja ordenado ou exemplificado nas Escrituras.

Para os normativistas (defensores do Princípio Normativo do Culto, PNC), devemos fazer tudo o que a Escritura manda (orar, cantar, adorar, etc.), não podemos fazer aquilo que ela proíbe (idolatrar, distrair, ensinar heresia, etc.), mas temos liberdade para inserir no culto aquilo que não prejudique as ordens ou contradiga as proibições. Não significa que se permite tudo o que não é proibido; significa que se permite, dentre o que não é proibido, aquilo que é coerente com o que a Escritura ensina sobre adoração (ordem e decência, reverência e temor, etc.). A Escritura não proíbe sexo durante o culto, mas isso não é coerente com o que ela ensina sobre o culto.

O Princípio Regulador foi pedra-de-toque na polêmica dos puritanos ingleses contra a liturgia anglicana. Somente era aceitável o culto que se enquadrasse nesse princípio, o que significaria eliminar muito daquilo que fora posto no Livro de Oração Comum, livro litúrgico inglês. A Igreja Anglicana se via como uma igreja católica reformada — herdeira de uma tradição litúrgica universal, mas que busca enquadrar (reformar) essa herança nos limites da Sagrada Escritura. Enquanto os puritanos (presbiterianos e bcpcongregacionais) eram regulativistas, os anglicanos eram normativistas, dando espaço para a “liturgia recebida”, elementos litúrgicos tradicionais que não fossem contrários às Escrituras.

A distinção entre regulativismo e normativismo não é a mesma que entre uma liturgia mais rígida ou menos rígida. Afinal, a liturgia anglicana tradicional era bastante rígida, mas admitia elementos que não eram admitidos pelo regulativismo puritano. São dois modos de rigidez: rigidez de princípios ou rigidez de prescrição.

Em 1603, os puritanos escreveram a Petição Milenária (petição de mil assinaturas), propondo ao Rei Tiago I mudanças na liturgia do culto inglês em conformidade com o Princípio Regulador, a qual incluía a eliminação das alianças de casamento (curiosamente, eles pediam também que não se permitisse às mulheres batizar). Esses puritanos estavam sendo totalmente coerentes com seu princípio; não existem alianças de casamento nas Escrituras. De fato, o costume de se utilizar alianças de casamento é pagão. Embora não fossem proibidas nas Escrituras, não eram autorizadas pelas Escrituras, e por isso deveriam ser deixadas de fora da liturgia matrimonial.

Esteticamente, o Princípio Regulador empobrece a beleza do culto, na medida em que não permite uma tradução cultural não-verbal daquilo que a Escritura ensina. A aliança de casamento pode ser um sinal do tipo de aliança permanente a que os nubentes se comprometem. Seguindo-se o Princípio Regulador, tudo se torna verbal, e o culto deixa de ser adoração e se transforma em aula. Os regulativistas não têm qualquer problema em utilizar a língua portuguesa para traduzir o hebraico, o aramaico e o grego das Escrituras durante o culto, mas têm problemas com qualquer outro simbolismo (especialmente visual) que se prestem ao mesmo tipo de tradução.

Os regulativistas se alimentam muito do instinto puritano de proibir o que está antes do pecado. Esse instinto está igualmente por trás do tabu em torno da pronúncia do nome de Deus entre os judeus (para não tomar o nome de Deus em vão, não o tomaremos de jeito nenhum), e do abstencionismo teórico e proibicionismo prático das denominações de origem americana (para evitar qualquer risco associado ao álcool ou tabaco, não os consumiremos de jeito nenhum). Mas o temor puritano da idolatria e da superstição, se aplicado coerentemente, paralisa o culto  — não há nenhum elemento cultual que não possa ser objeto de idolatria ou tratamento supersticioso.

Com sua preocupação em fazer apenas o que a Escritura ordena ou mostra, o regulativista parece (ou se pensa) mais fiel ao princípio Sola Scriptura — somente a Escritura. Mas seria necessário perguntar: a Escritura ensina o Princípio Regulador? Que devamos obedecer à Sagrada Escritura e não lhe contradizer com nossas práticas, como ensina o Princípio Normativo, é evidente e todos concordam; mas que possamos fazer no culto apenas aquilo que a Escritura manda ou mostra, é um princípio tão radical e tão difícil de ser seguir que ele não pode se passar apenas por um “parece”, sem claro ensino das Escrituras.

Mas nenhum texto bíblico ensina o Princípio Regulador. Há muitos textos bíblicos que aos quais os regulativistas apelam, mas todos eles se amoldam ao Princípio Normativo, mais humilde. Desses textos, somente Lv. 10:1,2 exige uma explicação.

Levítico 10:1,2
E os filhos de Arão, Nadabe e Abiú, tomaram cada um o seu incensário e puseram neles fogo, e colocaram incenso sobre ele, e ofereceram fogo estranho perante o Senhor, o que não lhes ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu; e morreram perante o Senhor.

Nessa expressão “o que não lhes ordenara”, os puritanos foram capazes de ver todo o seu princípio: jamais se deve fazer qualquer coisa no culto que não seja expressamente ordenada por Deus. Afinal, anteriormente jamais Deus é mostrado proibindo Nadabe e Abiú de oferecer “fogo estranho” perante o Senhor. Os regulativistas então aplicam a punição de Deus a Nadabe e Abiú, por analogia, a todo o culto.

Essa interpretação está inteiramente equivocada! Deus proibiu o oferecimento de fogo estranho sobre o altar. “Não ordenar” significa proibir. Várias vezes no Antigo Testamento é dito que Deus “não ordenou”, mas o contexto mostra claramente tratar-se de algo que Deus proibiu expressamente, não implicitamente: a idolatria (cf. Dt. 17:3; Jr. 7:31; 19:5; 32:35). Provavelmente a referência seja Êx. 30:1,9.

Êxodo 30:1,9
E farás um altar para queimar o incenso; de madeira de acácia o farás. Não oferecereis sobre ele incenso estranho, nem holocausto, nem oferta; nem tampouco derramareis sobre ele libações.

Além disso, o texto de Lv. 10:1,2 se refere a elementos do culto ou circunstâncias do culto? O regulativista precisa introduzir uma distinção arbitrária, meramente humana, se não quiser que instrumentos musicais ou corais, microfones ou bancos de igreja, sejam banidos pelo Princípio Regulador.

De fato, a Escritura está cheia de exemplos de culto sem prescrição — e sem condenação. A construção do Templo foi imaginada por Davi e levada a cabo por Salomão. A Tissot_Solomon_Dedicates_the_Temple_at_Jerusalemprescrição divina era a da liturgia do Tabernáculo, não um Templo. Deus autorizou essa construção, mas nunca estabeleceu os elementos para ela; foram criações de Davi e Salomão, cheios de arte humana e beleza. De fato, segundo as Sagradas Escrituras, Davi inseriu a música no culto, que era silencioso até aquele momento, o que Peter Leithart chamou de “revolução litúrgica”. Deus jamais ordenou isso!

A radicalidade do Princípio Regulador é tão grande que seus defensores foram obrigados a fazer uma distinção entre “elementos” e “circunstâncias” do culto. Elementos são o culto propriamente dito (pregue), enquanto circunstâncias são fatos de importância menor (use um púlpito). A partir dessa distinção, o Princípio Regulador passa a se referir apenas aos elementos; as circunstâncias podem ser modificadas conforme a necessidade. Mas é claro que isso bagunça inteiramente o princípio. Afinal de contas, por que a aliança de casamento teria que ser eliminada, enquanto o púlpito não? Essa distinção arbitrária não nos dá nenhum critério para reconhecer o que é elemento e o que não é.

A própria Bíblia nunca faz essa distinção, nem dá qualquer critério prático para distingüir. Um exemplo disso é o ofertório. Embora a reunião de ofertas esteja eventualmente ligada ao dia do culto dominical (1Co. 16:2) e embora seja uma forma de adoração, nunca a Bíblia coloca o ofertório como um “elemento” da liturgia, algo que deva ser feito durante a adoração. Mas é claro que os defensores do Princípio Regulador o incluem como elemento de culto; mas nesse momento violam o princípio que defendem. Os motivos para inclusão do ofertório no culto são de ordem pragmática (o culto comum é o melhor momento para o ofertório) e tradicional (sempre se fez assim), não regulativa.

Nem mesmo atos como o batismo ocorrem associados ao momento do culto, na Bíblia. Há mais fundamento para a introdução da dança litúrgica (“Louvem o seu nome com danças;” Sl. 149:3a) do que para a realização de um batismo durante o culto comum. E é claro que os regulativistas batizam durante o culto.

As letras das músicas cantadas no culto são elementos ou circunstâncias? O Princípio Regulador não ajuda a responder. É óbvio que as letras não podem contradizer a Escritura e aquilo que ela ensina, mas isso o Princípio Normativo já nos diz, o que nos dá bastante liberdade, especialmente considerando a flexibilidade com a qual as letras das músicas podem ser interpretadas. Uma conseqüência natural do Princípio Regulador é que somente se deveria cantar músicas presentes na Escritura, o que puritanos chamam Salmodia Exclusiva. Mas a coerência com o Princípio Regulador exige que também que se ore apenas o que está na Escritura, visto que a própria música é uma forma de oração, e a oração, uma letra sem melodia. Mas isso nenhum neo-puritano estaria disposto a fazer, ainda que os primeiros puritanos estivessem dispostos a isso.

Celebração de casamento é prescrita por Deus? Isso claramente não se trata de uma “circunstância”. Na cerimônia de casamento, faz-se algo que não se faz em nenhum outra celebração. Não há nada, em toda a Escritura, que se pareça com prescrições de uma liturgia matrimonial. Existem princípios para a vida casada — monogamia, fidelidade, heterossexualidade, amor, autoridade, vitaliciedade —, e obviamente uma cerimônia cristã de casamento não pode contradizer esses princípios (Princípio Normativo). Mas a existência de uma cerimônia cristã de casamento só é concebível violando-se o Princípio Regulador.

Com a instabilidade do Princípio Regulador, os seus proponentes serão necessariamente arbitrários — eles o usarão como instrumento de crítica da liturgia de outras tradições (especialmente tradições mais sacramentais ou mais carismáticas) ou inovações propostas à sua própria liturgia, mas terão dificuldade de usá-lo para tirar o argueiro do próprio olho, isto é, para purificar sua própria tradição. Porque o argueiro é o próprio Princípio Regulador. Muitos elementos são inseridos no culto apenas porque são “coerentes com o momento”, e não porque a Escritura expressamente ordene que se faça na liturgia (e.g. bênção, avisos, etc.).

Diante de elementos novos, a pergunta “posso colocar isso no culto?” deve ser contra-balanceada (e talvez respondida) pela pergunta “podemos cultuar através disso?”, ou seja, “isso pode ser um instrumento da glória de Deus, ou é um impedimento?”.

G. M. Brasilino

5 comentários em “Contra o Princípio Regulador do Culto

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