Reverência

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“A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra.” (Is. 66:2b)

Deus é santo. Como Walter Brueggemann diz em sua Teologia do Antigo Testamento, provavelmente a única expressão literal no A.T. para caracterizar a Deus é essa palavra: santo. Todas as outras palavras aplicam-se a outras coisas; se dissermos que Deus é poderoso, ou que é grande, ou que é pai, dizemos a verdade, mas apenas como semelhança. Deus é poderoso, o rei é poderoso, mas ambos não no mesmo sentido. Deus é grande, a montanha é grande, mas não no mesmo sentido. Há aí uma relação de semelhança.

A linguagem humana se refere a Deus através de semelhanças, pois as palavras não são suficientes para capturar a grandeza de Deus. As palavras emergem da cultura humana, e então são aplicadas a Deus, mas sempre aquém de descrevê-lo.

Mas a palavra “santo” é diferente, pois se origina do relacionamento do homem com Deus, não com outras coisas. Santo significa, sim, separado, mas o que significa separado? Entre a etimologia e o significado existe um salto de sentido. Essa palavra designa a distância entre Deus e o ser humano. Não se trata de uma distância moral, apenas. Não se quer dizer que estamos “separados” de Deus por sermos pecadores. Trata-se de distância pura e simples.

“Deus é santo” significa: Deus é indescritível, intocável, inatingível, inimaginável, inevitável, inigualável, imenso, incompreensível. Dizemos de Deus coisas que são verdadeiras, inclusive essas, mas nelas sempre se imiscui nossa própria ignorância e pequenez. Nas palavras de Rudolf Otto, Deus é mysterium tremendum et fascinans — o mistério tremendo e fascinante.

Aqueles que na Escritura estão mais próximos de Deus, os serafins em volta, são justamente os que repetem continuamente: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.” (Is. 6:3) Deus é tão sublime que o único pensamento possível, diante dele, é o da sua sublimidade.

Esse pensamento, quando transposto para a atitude, recebe o nome de reverência. A Escritura insta a que se adore a Deus com “reverência e temor” (Hb. 12:28). Reverência é primeiramente uma condição de espírito — a condição de quem está diante da sublimidade de Deus e foi surpreendido ou chocado por ela. É o que Is. 11:2 chama de “espírito de temor do Senhor”.

A reverência contrasta com a intimidade. As diferentes formas de culto e adoração cristãs por vezes enfatizam uma dessas duas dimensões. Por vezes, adoramos a Deus com o mistério tremendo que escapa de nossas mãos, com reverência, com silêncio; por vezes, como Abba do qual somos crianças, e com o qual expressamos entusiamos e alegria. É sempre muito problemático quando a adoração passa a se resumir a uma dessas duas dimensões sem a outra.

Num nível mais profundo, essas duas dimensões da adoração são verdadeiras porque se pautam nos dois aspectos de nosso relacionamento com Deus: temor e amor. O Deus que é “terrível” (Dt. 10:17), assustador, é o mesmo Deus a quem devemos amar “de todo [nosso] coração” (Dt.6:5). Por um lado, o amor a Deus lança fora todo o medo do juízo (1Jo. 4:17,18), e, por outro, Jesus nos ensina a temer aquele que “tem poder para lançar no inferno” (Lc. 12:5).

Reverência e intimidade, temor e amor, são sempre duas faces da mesma moeda, porque se fundam no Deus que ao mesmo tempo se mostrase oculta, que assume uma face humana e que toca, mas que também está assentado sobre um alto e sublime trono. Uma intimidade irreverente conduz a uma auto-adoração, preocupada apenas com a própria satisfação. Mas uma reverência sem intimidade não cultua ao Deus que é amor.

G. M. Brasilino

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