Torna-te o que tu és

luthertotle“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”  (Colossenses 3:3)

É famosa a polêmica de Lutero contra Aristóteles. Se, por um lado, Lutero representava uma reação agostiniana extremada (até disparatada) à absorção da filosofia aristotélica pelos escolásticos, ele estava bem consciente da incompatibilidade entre diversos elementos da Ética de Aristóteles e a teologia da graça. Muito de Aristóteles precisava morrer para que ele fosse batizado.

Na Disputatio contra scholasticam theologiam, anterior às 95 teses, ele deixa claro que “Quase toda a Ética de Aristóteles é a pior inimiga da graça” (tese 41). Lutero leva a sério a tese agostiniana de que a graça sempre precede e causa qualquer coisa boa que possa haver no homem (fé, obras, esforço, boa vontade, mérito), de modo que não havia lugar para a tese escolástica do facere quod in se est — fazer o que há em si, dar o melhor de si — como preparação para a graça, tese defendida por Gabriel Biel, mas rejeitada na Suma Teológica (ST, Ia-IIae, q. 122, a. 2).

Curiosamente, o inventor da noção de facere quod in se est, embora não da expressão, foi o próprio Agostinho (De correp. et grat., X, 27), mas se aplicava ao destino eterno dos anjos, não dos homens, o que Pedro Lombardo depois exportou para toda a escolástica.

De fato, no livro II da Ética a Nicômaco, Aristóteles deixa claro que o ser humano tem uma potência natural para a virtude, atualizada pela prática. Hábito torna-se uma segunda natureza, de maneira que o homem torna-se justo (adquire essa virtude) praticando atos justos. Esforço, educação, costumes — essas coisas produziriam o homem justo. Lutero se opunha: “Não nos tornamos justos por realizarmos coisas justas; é tendo sido feitos justos que realizamos coisas justas.” (tese 40)

Como em todo a Disputatio, Lutero afirmava a precedência da ação divina. Mas se há verdades na ética aristotélica, uma delas é uma noção mais fundamental, de que a virtude consiste em uma plena realização (atualização) daquilo que se pode ser (potência). Nas palavras de Píndaro: Torna-te o que tu és. Mas aqui os gregos precisam ser batizados, algo precisa morrer — e a explicação está justamente no batismo.

Os estudos da teologia paulina têm indicado, já há bastante tempo, que no centro da ética paulina — ou ao menos o que se poderia chamar de exortação pastoral paulina — está a continuidade entre um indicativo e um imperativo, este fundado naquele. Devemos ser (imperativo) aquilo que somos (indicativo): “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” (Gl. 5:25). Nossa identidade mais profunda fornece nossa regra de vida. Outros exemplos podem ser vistos também em Gl. 5:1; 1Co. 5:7; Fp. 2:12,13.

Feqüentemente o Apóstolo exorta os cristãos a viverem a liberdade que eles desfrutam em Cristo, e não se prenderem ao mundo que eles deixam para trás (Gl. 4:1-11; Cl. 2:12-13). As expressões “velho homem” e “novo homem” designam os dois polos da existência humana: o velho homem é a identidade adâmica, é Adão, o novo homem é a identidade crística, é Cristo. Os cristãos já se revestiram do novo homem, isto é, de Cristo (Rm. 6:6,11; Cl. 3:9,10), o que ocorreu no batismo (Gl. 3:27), mas ainda assim são exortados a se revestirem do novo homem (Ef. 4:22-24). A identidade recebida deve ser uma identidade vivida.

A diferença fundamental está naquilo que somos. Aquilo que somos é uma intrusão do futuro, e não uma potência dada no passado. Não é de nossa natureza herdada que recebemos a potência para a virtude, mas da sobrenatureza herdada. Não é a identidade adâmica (o velho homem), mas a identidade crística (o novo homem, “criado em verdadeira justiça“, Ef. 4:24) que encontra o poder para a virtude. O indicativo e o imperativo são conseqüências éticas do “já” e do “ainda não”.adameve

O batismo, como sepultamento de Adão (Cl. 2:12), inaugura escatologicamente uma nova identidade, mas que recapitula — feliz teologúmeno de Irineu de Lião! — a missão da anterior. O Segundo Adão restaura a vocação fundamental do Primeiro Adão.

O romantismo e o existencialismo (somados ao zwinglianismo) deram ao “torna-te o que és” um sentido anticristão, anti-escatológico. Não se trata de assumir uma identidade inventada “em liberdade pura”, um eu inventado ante outros eus, uma autenticidade (autonomia) que se afirma ante “eles” (heteronomia), uma existência pura que dá livremente a si sua própria essência. Trata-se, antes, de honrar a nova identidade que recebemos em Cristo. Se não pertencemos a nós mesmos (1Co. 6:19), a única autenticidade possível é aquela que é encontrada no Senhor.

O batismo nos diz que nossa verdadeira identidade, a identidade para os que vivem por fé e não por vista, acha-se não na circunstância em que viemos a ser, nem no que fazemos do nosso presente — mas em um futuro além do nosso controle, que buscamos entre gemidos. Para nós, torna-te o que és é sempre torna-te mais do que já és, pois aponta para o futuro que irrompe no presente.

G. M. Brasilino

Um comentário em “Torna-te o que tu és

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s