O Matrimônio é um dom

casamento

“Gostaria que todos os homens fossem como eu;
mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus;
um de um modo, outro de outro.”
(1 Coríntios 7:7)

Freqüentemente se olha para 1 Coríntios 7 na perspectiva do celibato “por causa do reino dos céus” (Mt. 19:12). É mais incomum que se deixe de observar as conseqüências fascinantes da declaração paulina de que o casamento também é um dom da parte de Deus. Ao contrário do que ocorre na ordem civil moderna, o matrimônio cristão não é um direito, mas algo recebido gratuitamente. Afinal, ninguém pode exigir coisa alguma de Deus. É uma vocação.

É claro que o casamento implica no que alguém poderia chamar de “direitos” — Paulo fala em “poder” (exousiazein, 1Co. 7:3,4) —, mas isso é muito diferente do que um mero contrato no direito civil. Pois, afinal, se o matrimônio é algo recebido de Deus, é ele quem une aqueles que se unem (Mc. 10:9). O casamento não é apenas uma aliança que os noivos fazem entre si, mas uma aliança que eles fazem com Deus. O casamento é uma forma de mordomia cristã: nele os cônjuges se recebem de Deus em Deus, mas também para Deus.  Tudo vem dele, e para ele devolvemos (1Cr. 29:14).

Por isso, o casamento cristão é uma forma de oferta a Deus. Ofertamos a Deus aquilo que ele nos dá. Como tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus (1Co. 10:31), também o deve o casamento. Os cônjuges se oferecem mutuamente a Deus como ofertas vivas no seu cuidado e no seu amor, e conjuntamente oferecem os seus filhos a Deus como primícias.

Viver com um dom é viver em gratidão. Diferentemente do casamento moderno, em que os cônjuges buscam alguém que os complemente, que os complete, alguém que os satisfaça, no casamento cristão simboliza-se o amor divino, que é eminentemente auto-doador, auto-entregue. O casamento cristão é sacrificial (Ef. 5:25), mas não no sentido que a palavra sacrifício passou a ter, a do sacrifício como perda. O sacrifício cristão não é perda, mas ganho, na medida em que vê no outro e com o outro sua própria realização. O casamento é um símbolo dessa felicidade que é compartilhada, não divisiva, não competitiva. “Há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos 20:35).

Como o verdadeiro amor é aquele que se compromete a tudo vencer, a suportar tudo, todo amor vivido na graça é símbolo do amor divino, o “elo perfeito” (Cl. 3:14) que jamais se rompe e jamais acaba, e o casamento é o mais perfeito desses símbolos, uma comunhão humana na comunhão divina. Os votos matrimoniais em essência envolvem o mesmo compromisso imutável que a oração de Habacuque: ainda que a figueira não floresça… eu me alegrarei no Senhor” (Hc. 3:17,18). Quando os noivos se deparavam com os votos, não se lhes conferia alternativa, não se lhes facultava inventar um voto próprio: o único compromisso aceitável é o compromisso até que a morte nos separe. O matrimônio é radical.

Paradoxalmente, a época em que mais se fala em casamento por amor é aquela em que o amor se tornou o mais incompreendido, vivido não como uma fonte pulsante de vida e de permanência, mas como um sentimento passageiro, “enquanto dure”. Casamentos vividos como dádiva — em sacrifício, em honra, em gratidão, em oferta — fazem mais pela transformação da cultura do que qualquer discurso de púlpito.

G. M. Brasilino

 

4 comentários em “O Matrimônio é um dom

  1. Gyordano o meu primeiro casamento teve fim mas dessa relação Deus me concedeu ser pai, agora esse meu atual casamento não está nada bem, pela bíblia como fica minha situação tendo passado pelo divórcio e já se aproximando outro?

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  2. Gyordano se minhas dúvidas estiverem atrapalhando os seus artigos pois sei que minhas perguntas não tem nada haver com seus textos, pode falar que eu não posto mais e fico só apreciando. Não consigo entender muito bem para fazer perguntas melhores mas já agradeço pelas que me deu.Tem milhares de textos na internet mas quase todos com as mesmas firulas com respostas evasivas.

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