Sem Eternidade, sem Amor

triscel

“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus,
e Deus, nele.” (I João. 4:16b)

Deus é amor. Sem Deus, sem amor. Sem amor, sem Deus. Uma ética do amor não é possível sem Deus, isto é, sem o Deus de Jesus de Nazaré, o Deus que é amor sacrificial. Sem Ele, não há qualquer motivo pelo qual o amor deva ser o princípio fundamental e triunfante no universo.

Às vezes isso é mal compreendido, e acaba recebendo a linguagem horrível do voluntarismo: sem Deus, não haveria ninguém para ordenar o amor ao próximo.  É claro que sem Deus, não haveria ninguém — mas a parte sobre “ordenar” estraga tudo, porque induz a pensar que os mandamentos divinos se constituem de ordens que alguém precisa legislar, e não antes, muito mais fundamentalmente, revelações do caráter divino, luz para nosso caminho.

Não é segredo que Torá, a Lei, na verdade significa “instrução”. Os mandamentos são ordenados, são mandados, mas isso diz respeito não à sua própria constituição, mas sim a nossa cognição de sua bondade. Por circularidade, um juízo como “a lei é boa” (Rm. 7:16) se torna inútil se a lei é o próprio critério de bondade. Noutras palavras: quando Deus promulga seu mandamento, torna conhecida sua própria bondade inerente e chama o ser humano a viver nela.

Creio que o problema seja mais profundo do que a linguagem voluntarista permite ver, e não diz respeito especificamente à promulgação do amor como mandamento, mas sim em sua realização plena. Não é possível o triunfo do amor sem a eternidade e sem um juiz divino.

Se toda a vida que temos é “esta vida”, se a morte põe termo a toda nossa existência, é natural que o niilismo bata à nossa porta cedo ou tarde — talvez na hora do almoço —, mesmo que para ser enxotado. Todo sofrimento, todo amor, todo sacrifício, todo bem realizado cedo ou tarde morrerão sem ter quem conte sua história. Cedo ou tarde o tempo escorrerá pelas mãos da humanidade e triunfará sobre o bem. É essencialmente uma vitória da morte sobre a vida a que todos os valores estão condenados.

Isso significa que qualquer ética materialista está essencialmente limitada pelo “medo da morte” (Hb. 2:15). Todos os planos humanos estarão fatalmente limitados pela morte. Por causa disso, quem apostar pela vitória de qualquer valor eterno, como bondade, justiça, compaixão ou amor, está fadado a perder, porque todos esses valores serão finalmente derrotados — se não ao fim de uma vida humana, ao menos no fim da raça humana. Por isso, um materialista pode até tentar praticar o amor, mas não é capaz, em termos realistas, de acreditar na vitória do amor, e por isso terá que fazer alguma outra aposta.

O cristianismo interpreta as coisas de uma maneira muito diferente. Se a ressurreição e a vida eterna entram em jogo, se há um juiz perfeito que colocará as coisas em ordem (essa é a função do juiz na Bíblia, e não simplesmente proferir sentenças), o amor finalmente triunfará — se não ao fim de uma vida humana, com toda certeza no início da eternidade. A existência desse juiz divino coloca todos os valores em uma perspectiva muito diferente.

Ser capazes de acreditar na vitória do amor é o que nos torna capazes de realizar os maiores sacrifícios de amor. O caso extremo é o amor pelo inimigo, que é justamente o tipo de amor que Deus teve por nós quando nós nos fizemos seus inimigos (Rm. 5:8) e que ele quer que tenhamos pelos que se fazem nossos inimigos (Lc. 6:35). Se acreditamos que o amor triunfará e que eventualmente toda inimizade terá um fim, se acreditamos na vitória do amor, somos capazes de nos sacrificar pelos nossos inimigos. Todo nosso sacrifício durará eternamente, não terá um fim, enquanto a inimizade um dia terá.

Por outro lado, se todo nosso sacrifício está destinado a morrer, se a morte é o dado fundamental, o amor se torna apenas mais um valor entre outros; não pode ser o traço dominante do nosso comportamento, da nossa ética. A inimizade está destinada a triunfar sobre o amor. Uma ética materialista só pode ver o amor triunfar neste mundo a partir da eliminação ou subjugação do inimigo, esse grande empecilho para o amor, nel mezzo del camin di nostra vita. Por isso, o amor sacrificial só é possível à luz da eternidade. A ética do amor requer a escatologia do amor.

G. M. Brasilino

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2 comentários em “Sem Eternidade, sem Amor

  1. Por ter essa ética materialista, vemos a sociedade por diferentes tipos de amores no lugar do Ágape, procuram por um norte, na qual usará como forma de espantar o niilismo. E estas novas possibilidades de amar, devem ser aceitas, seja pela eliminação ou pela subjugação, muito bem apontadas pelo autor. Tudo isso é fomentado pela vontade do poder, ter a coragem de cadeias impostas por uma determinada moralidade. Porém, tudo isso destinados ao fracasso, estão condenados.

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    1. A luta entre autonomia e a heteronomia é interminável (posto que ambas são vontade de poder) enquanto ambas não forem vencidas pela teonomia (usando a palavra aqui no sentido etimológico e não teológico).

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