O Mistério de Deus

Paradiso

La gloria di colui che tutto move
Per l’universo penetra, e risplende
in una parte più e meno altrove.
(Paradiso, Canto Primo)

Deus é o mistério maior. Não há qualquer mistério que não encontre em Deus sua resposta — assim como sua pergunta —, mas que resposta misteriosa! A Escritura nos diz que [o]s céus declaram a glória de Deus” (Sl. 19:1), mas nós os compreendemos?

Mistério significa segredo, e a luz da revelação divina — luz provisória (2Pe. 1:19; cf. 1Co. 13:8-10) —, à medida que mostra algo sobre Deus, que “brilha em lugar tenebroso”, não apenas mostra o que não sabíamos, mas também o que não podemos saber, mostra a vastidão daquilo que não conhecemos e que só esperamos poder conhecer. Deus é luz, sem dúvida, mas “habita na luz inacessível” (1Tm. 6:16).

“A revelação não faz desaparecer o mistério. Ao contrário, a fé se defronta com um paradoxo: quanto mais Deus se revela e quanto mais compreensível é sua vontade e o seu coração, maior é a consciência de que Ele é o Deus insondável.”  (Gustaf Aulén, A Fé Cristã)

Por isso, o conhecimento sobre Deus é sempre marcado por uma tensão entre o conhecido e o desconhecido, entre a inteligência humana incapaz do infinito e o desvelamento divino capaz do finito. A época em que os pais da Igreja formularam os dogmas trinitários e cristológicos é a mesma época em que se escreveu sobre a incompreensibilidade de Deus (João Crisóstomo, Pseudo-Dionísio etc). De fato, esses mesmos dogmas, cuja inteligibilidade desafia qualquer analogia que se lhes proponha, mostram em si mesmos a marca de nossa própria ignorância, são sempre pro nobis. A implicação imediata é a relativa fragilidade de toda linguagem doutrinária e a falência de todo doutrinarismo (definido aqui).

Esse reconhecimento de ignorância não é uma invenção dos pais da Igreja. A própria Escritura repetidamente reconhece os nossos limites: “Se alguém julga saber alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber.” (1Co. 8:2) O dom de Deus é “inefável” (2Co. 9:15). Sua luz é “inacessível” (1Tm. 6:16). Deus é “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos” (Ef. 3:20). Seus juízos são insondáveis e seus caminhos são inescrutáveis (Rm. 11:33). Sua paz “excede todo o entendimento” (Fp. 4:7).

Essa linguagem, do inefável, do inacessível, do infinito, é a que se veio a chamar de teologia apofática ou teologia negativa — um falar sobre Deus que expressa-se em termos negativos, em termos do que não sabemos, do que não podemos expressar, da superioridade de Deus em relação a qualquer linguagem que se queira usar para falar dele, ao ponto de se chegar a dizer não apenas que Deus é o Ser, mas que Deus está acima do Ser. Nessa linguagem, Deus não existe nem inexiste; Deus está acima da existência, como colocaria o protestante Tillich, mas também, noutra linguagem, o católico romano Jean-Luc Marion. O culto à ininteligibilidade acaba por se tornar ininteligível, por pura extravagância.

É claro que a teologia negativa tem seus limites, e todo limite tem seus transgressores. Se nada se pudesse inteligir de verdadeiro sobre Deus, sua ininteligibilidade inevitavelmente teria seu lado positivo: se converteria em grandeza imensa, em bondade imensa etc. Ainda assim,se fôssemos capazes de compreender tudo o que há de verdadeiro sobre Deus, ele não seria Deus.

Nessa linha, alguns teólogos, entre eles Karl Barth, defenderam chamar Deus de Totalmente Outro. Totalmente Outro significa que Deus não pode ser comparado. Em qualquer comparação imaginável, Deus será sempre inteiramente diferente, inteiramente outro. Isso nega não apenas uma identidade de Deus com a criatura (panteísmo), mas mesmo qualquer semelhança. Entre Deus e a criatura, só há diferença. No Esboço de uma Dogmática, ao falar da paternidade de Deus, Barth escreve: “Não há, pois, que começar uma paternidade humana e, em seguida, por analogia, uma pretensa paternidade divina. O contrário é que é correto: a verdadeira paternidade, a paternidade autêntica e primeira, está em Deus e é ela que funda todas as nossas paternidades humanas.” 

Barth acerta em que qualquer paternidade se funda na paternidade de Deus, e por isso a paternidade divina deve ser o critério para a paternidade humana — essa é a ordo essendi, a ordem do ser. Mas na ordo cognoscendi, nós nos deparamos primeiro com a paternidade humana, e só depois com a paternidade divina; pense em quantos séculos, quantos milênios!, a humanidade conviveu com a paternidade humana sem jamais atribuir a Deus uma paternidade em relação a nós. A paternidade de Deus, que  tem primazia ontológica, foi conhecida através da paternidade humana como assíntota, como aquilo para que a paternidade humana aponta sem jamais poder ser. Barth despreza esse fato porque raciocina a partir da revelação, ignorando que a compreensibilidade da revelação se dá a partir de um meio lingüístico que a antecede, ainda que a revelação modifique criativamente esse meio. Corta o galho em que está sentado.

Barth reage justamente contra toda tentativa idolátrica de transformar Deus em algo que nossas mãos possam controlar, mas essa preocupação puritana coloca a Deus além do que podemos sequer abraçar. Nas Cartas a Malcolm, C. S. Lewis propõe falar não em Totalmente Outro, mas em Outro Inimaginável ou Outro Insustentável: “Temos de estar (…) simultaneamente conscientes da proximidade que beira a intimidade e da distância infinita.” Falar em Totalmente Outro é sacrificar a imanência pela transcendência, sacrificar a proximidade pela distância. Uma ênfase desmedida na transcendência à custa da imanência nos encaminha ao nestorianismo.

Esse contraste entre a imanência e a transcendência se mostra de várias formas, como na reverência e intimidade de culto (leia aqui), na imprevisibilidade da providência (leia aqui) e na compreensão escatológica dos sacramentos (leia aqui).

Assim como Lewis podia ver no amor a continuidade entre o natural e o espiritual (leia aqui), também no conhecimento (acerca de Deus) ele podia ver continuidade entre o natural e o espiritual (revelado) segundo o princípio gratia supponit et perfecit naturam. O Quarto Concílio de Latrão (1215) consagraria esse paradoxo, expresso como maior dissimilitudo in tanta similitudine — qualquer que seja a semelhança entre o Criador e a criatura, entre o Absoluto e os relativos, ela sempre revelará ainda mais diferença.

G. M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s