São Paulo, o eclesiólogo

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“Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao navio.” (Atos 20:37,38)

Desde a Reforma Protestante, o apóstolo Paulo de Tarso é lembrado como defensor do “evangelho da graça de Deus” (At. 20:24) e como grande missionário, um dos responsáveis pela pregação do Evangelho e fundação de comunidades cristãs na Europa. O impacto de Paulo na formação do cristianismo e na sua teologia é incalculável.

O Paulo de que At. 20:37,38 testemunha é um líder amado pela Igreja; seu zelo incansável pela Igreja tinha como motivação a de a “apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber, a Cristo” (2Co. 11:2), e embora o ministério paulino não esteja isento de conflitos e decepções, choques de liderança e orações não respondidas, crises e perseguições, traições sofridas e esperanças não correspondidas, Paulo poderia falar do orgulho (“coroa de glória”) que teria de apresentar a Igreja a Cristo na sua vinda (1Ts. 2:19). Suas orações pela Igreja são sempre cheias de alegria e gratidão (Rm. 1:8-10; 15:30-33; 1Co. 1:4-9; Efésios 1:15-23; 3:14-21; Fp. 1:3-11; Cl. 1:3-14; 1Te. 1:2,3; 2:13-16; 3:9-13; 2Te. 1:3-5,11,12; Fm. 4-7).

Embora as epístolas paulinas já tenham sido utilizadas para todo tipo de reflexão teológica, e embora elas disponham de propostas teológicas inovadoras sobre outros temas (como a relação Adão-Cristo, a ressurreição etc.), todas as fontes da teologia paulina de que dispomos têm como preocupação primária a Igreja. O Paulo canônico é um Paulo eclesiástico. Mesmos as cartas da tradição paulina dirigidas a indivíduos (Cartas Pastorais) apresentam soluções para problemas eclesiásticos e comunitários. Embora os quatro evangelhos tratem do como viver, pode-se dizer as epístolas paulinas tratam do como viver juntos. O labor teológico de Paulo está inteiramente vinculado à sua vocação.

Paulo compartilha muito das eclesiologias do restante do Novo Testamento: a importância da unidade, a autoridade divina do apostolado, o cuidado com a disciplina eclesiástica, a noção da Igreja como habitação santa (Templo) do Espírito Santo  na qual se compartilhava uma mesma experiência espiritual, o pertencimento a uma Nova Aliança, o espírito de fraternidade e o fato de que essa comunidade é marcada pela invocação do Senhor Jesus Cristo, sendo, por isso, perseguida, rejeitada e peregrina. É a partir desse fundo comum que Paulo erige fornece respostas teológicas aos problemas que seu ministério lhe impôs.

1. Corpo e Carisma. Das diversas imagens atribuídas à Igreja no Novo Testamento, a da Igreja como “Corpo de Cristo” é uma das mais frutíferas. Ao mesmo tempo ela expressa o caráter orgânico da comunidade redimida, na qual diferenças assumem uma identidade, e a centralidade de Cristo. A alegoria da videira (João 15) expressa a unidade, organicidade, cristocentricidade, mas não realça a diversidade. Para Paulo, a diferença entre os cristãos era fundamental, e se manifestava no valor (“honra”, 1Co. 12:24) atribuído por Cristo e em Cristo individualmente.

Como James Dunn observou na Teologia do Apóstolo Paulo (p. 625), foi Paulo quem deu à palavra grega charisma (dom) o sentido técnico que ela tem na teologia cristã. A Igreja é um corpo formado por uma diversidade de dons e atividades, concedidos conforme a vontade do Espírito Santo, visando a um bem comum, a uma edificação mútua.

2. Fé e Identidade. A justificação pela fé não é uma doutrina de invenção do apóstolo Paulo. Ela era uma premissa compartilhada tanto por Paulo quanto pelos seus opositores (cf. Gl. 2:15,16). Mas Paulo foi talvez o primeiro a extrair dessa doutrina o corolário prático de que a justificação pela fé faz com que todos os convertidos ao evangelho (judeus e gentios) sejam irmãos (Rm. 3:28-30; Gl. 3:26-28). Não poderia haver duas comunidades, dois povos de Deus, mas apenas um povo, uma comunidade. Pedro, Barnabé e todos os que se opunham a isso eram hipócritas (Gl. 2:11-13); conheciam a verdade do evangelho, mas vivam como se a antiga separação entre judeus e gentios ainda fosse válida, anulando na prática o evangelho que pregavam. Aqueles que creram em Cristo, a despeito de sua ascendência, eram a verdadeira circuncisão, os judeus interiores, Israel de Deus (Rm 2:28,29; 9:6; Gl. 6:16; Fp. 3:3).

3. Batismo e Incorporação. No Novo Testamento, com exceção de 1Pe. 3:21, as mais fortes declarações sobre o sacramento do batismo estão nas cartas paulinas (Rm. 6:3-7; 1Co. 1:12,13; 12:13; Gl. 3:26-28; Ef. 4:5; Cl. 2:12). Há uma identidade fundamental entre “estar em Cristo” e “Corpo de Cristo” — identidade que permite a Paulo nomear a Igreja como “Cristo” (1Co. 12:12) e “plenitude [de Cristo]” (Ef. 1:23); aquele que é incorporado a Cristo torna-se eo ipso Igreja, e vice versa.

4. Corpo e Pão. No sacramento da comunhão, Paulo vê realizada a unidade da Igreja: “somos um só pão e um só corpo, porque todos participamos do mesmo pão” (1Co. 10:17). Paulo une a imagem da Igreja como Corpo (talvez criação sua) e a imagem do pão compartilhado como Corpo (que ele “recebeu” da tradição cristã) em um vínculo sacramental: os que são o mesmo pão, por isso, devem participar do mesmo pão. A bagunça e divisão vivenciada pelos coríntios no partir do pão era, por isso, inaceitável, trazendo condenação e morte àquela Igreja (1Co. 11:20-22,29-34). Uma expressão mais forte do sacramento da Mesa do Senhor só apareceria na tradição joanina.

5. Liberdade e Amor. Paulo prega uma forte mensagem de aceitação mútua entre os membros da Igreja, uma conseqüência da justificação pela fé. Isso valia não apenas para diferenças prévias (judeu/gentio, senhor/servo, homem/mulher), mas também para diferenças que tendiam a surgir no seio da comunidade, entre os mais maduros (“fortes”) e os imaturos (“fracos”). Seja na questão da abstenção dos alimentos sacrificados aos ídolos (e conseqüente “vegetarianismo pragmático”), seja na guarda do sábado, Paulo advogou uma posição que os cristãos teriam bastante dificuldade de seguir, aquela que não nega nem a liberdade nem o amor. Por amor, os maduros não deveriam desprezar os imaturos, mas os imaturos não deveriam julgar os maduros e sua liberdade (Rm. 14:3). Como em outro contexto, a liberdade deve ser guiada pelo amor (Gl. 5:13).

Esse tipo de solução faz com que, inevitavelmente, o problema desapareça dentro de poucas gerações; se qualquer dos dois lados (não julgar/não desprezar) faltar, o problema se perpetua e estimula reação. Em épocas mais puritanas, os cristãos teriam bastante dificuldade com a resposta paulina de que os cristãos maduros poderiam comer carne sacrificada aos ídolos em algumas situações (1Co. 10:25-27). Sendo o número de ignorantes em todas as épocas sempre maior, como sinal da eleição divina (1Co. 1:16-19), uma dificuldade sempre será não julgar a liberdade alheia. Mas Paulo não podia ver duas igrejas, uma dos fracos sem liberdade e outra dos fortes sem amor. Cristo não está dividido.

6. Espírito e Ordem. A preocupação com o culto cristão também se vê em Paulo, e, embora provavelmente suas concepções históricas não distem muito das dos demais apóstolos (em razão do fundo judaico comum e em razão da tradição/paradosis compartilhada), certamente eram diferentes do tipo de entusiamos espiritual que Paulo combateu nos coríntios. As liturgias cristãs posteriores certamente dariam voz à preocupação de Paulo  em que a Igreja ofereça a Deus um “culto racional” (Rm. 12:1), “decentemente e com ordem” (1Co. 14:40), uma adoração em que haja “entendimento” (1Co. 14:14,15). Infelizmente, várias traduções em português têm insistido em traduzir euschemonōs em 1Co. 14:40 como “decentemente” ou “com decência”, uma tradução pobre que não expressa a totalidade do sentido da palavra grega: para Paulo, o culto deve ser formoso, bem ordenado, bem organizado, bem apresentável. Por outro lado, nessa boa ordenação do culto, Paulo vê lugar para a profecia e para as línguas interpretadas, e pensa na participação de toda a Igreja (1Co. 14:26).

7. Igreja e Mundo. Embora as diversas igrejas locais pudessem ser vistas como igrejas no sentido pleno da palavra (Rm. 16:4; 1Co. 16:1,19; 2Co. 8:1; Gl. 1:2; Cl. 4:16; 1Te. 1:1; 2:14), Paulo vê, em Efésios e Colossenses, a Igreja como uma só comunidade internacional: há um só corpo (Ef. 4:4), o que permite falar da Igreja sem qualquer ligação local (Ef. 5:23-32; Cl. 1:18,24), e por vezes em termos cósmicos (Ef. 1:22; 3:10). O plano divino é a “recapitulação” (anakephalaiōsis) de toda a criação em Cristo (Ef. 1:9-11), na qual a Igreja desempenha um papel segundo o mistério da eleição, sendo desde já o vínculo e símbolo de unidade que se cumprirá na eternidade. Paulo vê nessa comunidade internacional o cumprimento do propósito de Deus em Cristo: sujeitar todas as coisas ao seu Filho.

G. M. Brasilino

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