Sobre Hipocrisia

Cranach

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 18:31)

Mude o seu coração, essa é a mensagem de Ezequiel. Os cristãos de nossa época têm tido particular dificuldade em levar a sério a necessidade — a obrigação —  de mudarem os seus corações, em razão de uma “compreensão” bastante equivocada sobre o lugar dos sentimentos na identidade pessoal.

Como fruto do romantismo e do existencialismo, em suas versões mais populares e mais diluídas, nossa cultura é fortemente sentimentalista: a identidade pessoal é identificada com baste principalmente nos sentimentos, naquilo que se deseja, em oposição àquilo que não se deseja. É natural, assim, que as pessoas forjem identidades pessoais (e sociais) com base em suas preferências alimentares, lúdicas, sexuais; é natural que elas busquem se afirmar, frente às outras pessoas, com base no caráter exótico daquilo que lhes entretêm. É uma eterna adolescência.

Nessa construção identitária, se eu não desejo fazer algo e faço, eu transgrido minha própria identidade. Vejo freqüentemente as pessoas usarem a palavra “hipocrisia” para descrever essa situação. Noutras palavras: a pessoa é “autêntica” quando faz exatamente aquilo que seus desejos lhe mandam fazer. Quando ela decide tomar as rédeas dos seus desejos, decide controlar-se, é hipócrita.

É claro que esse tipo de mentalidade favorece a todo mundo que queira lhe controlar, do tirano político à última propaganda: ninguém domina quem se domina, mas se tiramos os nossos sentimentos de debaixo do nosso controle, eles acabarão sob o controle de outra pessoa. Favorece sobretudo ao pai da mentira, que é especialista em usar os desejos mais vis e mais baixos das pessoas, suas maiores fraquezas, para controlá-las como a cães.

Essa mentalidade acha apoio, inclusive, na intuição agostiniana de que Deus é o responsável por mudar nossos sentimentos, desejos, emoções, etc. Essa intuição é correta! Não obstante, nós somos os responsáveis por nossa própria desgraça e por alimentar desejos baixos, por continuar uma vida carnal. A palavra da Escritura é clara: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós.” (Tg. 4:8a)

Hipocrisia significa fingimento. Jesus condena a hipocrisia, o fermento dos fariseus,  muitas vezes. De fato, Jesus era um grande especialista em expor a hipocrisia das pessoas que se lhe opunham. Mas quando lemos a Escritura, vemos que Jesus jamais associa a hipocrisia aos sentimentos ou desejos, mas sempre às intenções e ações.

LUCAS 12
1 Ajuntando-se entretanto muitos milhares de pessoas, de sorte que se atropelavam uns aos outros, começou a dizer aos seus discípulos:
Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia.

2 Mas nada há encoberto que não haja de ser descoberto;
nem oculto, que não haja de ser sabido.

3 Porquanto tudo o que em trevas dissestes, à luz será ouvido;
e o que falastes ao ouvido no gabinete, sobre os telhados será apregoado.

Noutras palavras:  hipócrita é aquele que elogia Jesus quando diante da multidão, mas por trás planeja matá-lo (Mc. 12:15); aquele que cobra dos outros uma guarda zelosa do sábado, mas descumpre em casa (Lc. 13:15); aquilo que finge ser espiritual, mas está interessado apenas no dinheiro (Mt. 23:14); aquele que sabe que a salvação é para todas as nações, mas continua vivendo um favoritismo (Gl. 2:11-16). A hipocrisia envolve sempre uma mentira pública. Se não há uma mentira, se não há um propósito de enganar outras pessoas, não há hipocrisia.

No momento em que as pessoas acreditaram que sua identidade é definida por seus sentimentos, no momento em que elas acreditaram que os sentimentos são o que há de mais interior, elas passaram a ver como hipócrita aquele que luta para reformar seus sentimentos. Por isso, a Igreja de Cristo será sempre acusada de hipocrisia, porque todos os que dela fazem parte estão, em princípio, comprometidos com a reforma de si mesmos, porque sabem que sua identidade mais profunda não é a dos seus sentimentos, mas aquela que receberam em Cristo.

Na realidade, os sentimentos são uma parte bastante exterior e volátil daquilo que somos, e a hipocrisia não tem nada a ver com eles especificamente. Por isso, aquele que alega que não fará alguma coisa para não ser hipócrita — não perdoará uma pessoa para não ser hipócrita, por exemplo —, é, ele mesmo, um hipócrita, no sentido correto da palavra. Está fingindo que é cristão para, no momento certo, agir como um filho do diabo, e não como um cristão.

G. M. Brasilino

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