Pecado para a morte

Descamps O SuicídioSe alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue. Toda injustiça é pecado, e há pecado não para morte.
(I João 5:16,17)

O que é o pecado para a morte? Por que não rogar pelo que comete esse pecado? Esse é um dos mistérios da Primeira Epístola de João. Há elementos ao longo da carta que, se lidos com atenção e dentro do contexto da tradição joanina, permitem identificar, com razoável probabilidade, o que seja esse pecado. Parece-me até que o “pecado para a morte” seja uma face do tema central da carta, ainda que a referência à intercessão seja uma digressão.

A “tradição joanina” refere-se, literariamente, ao Evangelho de João e às três epístolas de João, os quais apresentam entre si muita proximidade de simbolismo e temática. Essa tradição depende intensamente do testemunho do Discípulo Amado acerca de Jesus; por isso, sua linguagem não pode ser confundida com a da tradição sinótica ou da tradição paulina. Pressuponho a dependência das epístolas joaninas em relação ao Quarto Evangelho.

Ignorando-se os elementos distintivos da tradição joanina, freqüentemente o pecado para a morte é identificado com a blasfêmia contra o Espírito Santo, que é, na tradição sinótica, o pecado imperdoável. Essa identificação não tem qualquer garantia textual. Há traços comuns entre o pecado para a morte e a blasfêmia contra o Espírito Santo. Mas o pecado para a morte parece-se muito mais com outro pecado identificado na tradição sinótica.

Luz e Trevas

O início da carta alude a dois níveis de vida de pecado. Por um lado, existe o “andar em trevas” (1:6) e por outro existe o “te[r] pecado” (1:8). Não é possível ter comunhão com Jesus e seus apóstolos e, ao mesmo tempo, andar em trevas. Mas também não é possível que não tenhamos nenhum pecado. Aquele que pensa que pode ter comunhão com Jesus e “andar em trevas”, assim como aquele que pensa que não tem nenhum pecado, estão igualmente errados. João escreve contra o pecado, mas sabe que ele é uma realidade (1Jo. 2:1,12).

Embora essas expressões não sejam explicadas conceitualmente, “andar em trevas” parece indicar a vida marcada pelo pecado, a vida em que o pecado é o norte e o centro. “Andar” é a metonímia semítica comum para “comportamento”. Assim, os dois níveis indicados em 1Jo. 1 parecem ser o da vida movida pelo pecado e o da vida tocada pelo pecado. Na primeira o pecado é o centro; na segunda, Cristo é o centro, mesmo que ainda haja pecado.

O perdão de pecados é possível, mas o texto impõe uma condição: “Se, porém, andarmos na luz, (…) o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1Jo. 1:7) Lido como condição necessária, esse “se” quer dizer: não há perdão para os que andam em trevas. Observado por esse ângulo, o “andar nas trevas” mostra-se como algo que faz parte da identidade daquele que o pratica.

Quem anda em trevas? Essa expressão pode ser remetida ao Evangelho: o Jesus joanino diz que aquele que o segue “não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. 8:12), e que “quem anda nas trevas não sabe para onde vai” (Jo. 12:35). A tradição joanina, mais que o restante do Novo Testamento, faz uso intenso do simbolismo natural da luz, em oposição às trevas, para indicar a vida e a sabedoria espirituais.

Amor e Ódio

Sobre o seguir Jesus, o Quarto Evangelho e as epístolas joaninas apontam na direção do chamado Novo Mandamento: amai-vos uns aos outros (Jo. 13:34,35; 1Jo. 2:7,8; 2 Jo. 5). O texto faz repetidas referências ao amor (1Jo. 2:3-11; 3:10-18; 4:7-21; 5:1-3), que se entrelaçam a declarações sobre a centralidade e encarnação de Jesus (1Jo. 2:18-26; 4:1-6; 5:6-13,20). Esses dois temas, os mais freqüentes em toda a carta, se encontram em 1Jo. 3:23: “Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.” Contra a tendência docética e imaterialista combatida pela tradição joanina, crer em Jesus significa crer que ele “veio em carne” (1Jo. 4:2,3; 2Jo. 7; cf. Jo. 1:14).

Andar na luz, amor ao próximo, essa é a direção que a tradição joanina como um todo nos aponta, e o mútuo pertencimento desses dois conceitos aparece em 1Jo. 2:9-11, o qual, penso, é a chave para compreender o pecado para a morte: Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos.”

Se aquele que odeia o seu irmão está em trevas, para ele não há perdão, pois não há perdão para quem está em trevas. Por outro lado, aquele que ama o seu irmão está na luz. Ao longo de toda a carta esse se torna, ao lado de crer em Jesus, o critério entre a luz e as trevas. Segundo 1Jo. 5:1, esse amor entre os irmãos é conseqüência do crer em Jesus, cumprindo-se, assim o mandamento.

Vida e Morte

A antítese entre “luz e trevas” facilmente se converte na antítese entre “vida e morte”. Aquele que crê “passou da morte para a vida” (Jo. 5:24). Por outro lado: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama a seu irmão permanece na morte.” (1Jo. 3:14) Assim:

(1) Crê em Jesus, ama o irmão — anda na luz, está vivo — tem perdão para os seus pecados.
(2) Nega a Jesus, não ama o irmão — anda em trevas, está morto — não tem perdão para os seus pecados.

O paralelo com o que 1Jo. 5:16,17 declara sobre o pecado para a morte é perceptível. Se o irmão peca, eu posso orar, e Deus lhe dará vida, isto é, ele será perdoado — assim como se ele próprio tivesse orado. A intercessão pelo perdão do irmão se torna supérflua se há necessidade da confissão consciente de 1Jo. 1:9. Embora a confissão e o arrependimento sejam em geral exigidos nas Escrituras para o perdão, é fato que ninguém pode conhecer todos os seus próprios pecados (Sl 19:12), e, portanto, não pode confessar e arrepender-se de todos, ainda que possa melhorar inconscientemente em relação a eles; por isso, a situação pressuposta pela tradição joanina é, provavelmente, a da confissão vicária.

Para os que estão na luz, o perdão pode ser concedido através da oração intercessória; mas os que estão em trevas estão perdidos. Se, porém, o irmão peca para a morte, isto é, caminha na direção da morte, pros thanaton —  odiando o seu irmão (1Jo. 3:14) —, minha oração provavelmente não terá nenhum efeito. Aquele que está nas trevas precisa ser trazido para a luz, e só então encontrará o perdão.

Tudo indica que o pecado para a morte é o ódio ao irmão. Aquele que odeia o irmão nega a Deus (1Jo. 4:20; 5:1), e portanto não pode pedir perdão a Deus. Assim com o idólatra em Jr. 7:16; 11:14, ao qual é negado o perdão intercedido, embora, crê-se, seja aceito o arrependimento pessoal. Algo não muito diferente é dito na tradição sinótica: “Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mt. 6:15)

G. M. Brasilino

8 comentários em “Pecado para a morte

  1. Brasilino, ótimo texto.
    Já cheguei a acreditar que o “pecado para morte” ocorresse com o cristão que deixasse de crer em Jesus como Verbo Encarnado (coisa que vinha ocorrendo nos tempos de João, já que a pregação anticristã já existia em seu tempo (1 Jo 4).
    Entretanto, nos últimos tempos tenho compreendido que pecado para morte significa viver no pecado – isto é, andar em trevas e odiar o irmão. Esse estilo de vida mostra perdição.

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  2. Essa blasfêmia contra o Espírito Santo no outro texto não é imperdoável? O que seria essa blasfêmia? Dizem ser negar a ação do Espírito Santo até as manifestações de línguas estranhas, as profecias as revelações, não é nada disso?

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