A Lei de Moisés é falsa?

João Evangelista“Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” (João 1:17)

No cristianismo primitivo, assim como havia um partido fortemente judaico, havia uma teologia radicalmente antijudaica, ligada a Marcião de Sinope e a algumas vertentes do gnosticismo, a qual desprezava o Antigo Testamento e a Lei Mosaica, vendo a revelação divina exclusivamente em Jesus Cristo e não nos profetas anteriores. Jo. 1:17 dá razão a essa teolgia, o marcionismo?

Uma conclusão superficial poderia ser essa. Afinal, parece haver um contraste entre a Lei e a Verdade, como se a lei fosse falsa ou mentirosa. É verdade que a tradição joanina não tem muitas coisas boas a dizer sobre a Lei de Moisés. No Novo Testamento, é a única tradição que chega a dizer que Jesus quebrou o sábado (Jo. 5:18), embora a tradição sinótica diga isso indiretamente (Mt. 12:5). Mas essa conclusão sobre Jo. 1:17 é falsa.

Tudo depende, na verdade, do que queremos dizer por verdade, assim como do que se lhe opõe — a mentira, o engano ou outra coisa. Nós costumamos preencher essa palavra com o sentido do que se chamou “verdade lógica”. A verdade lógica implica em uma correspondência entre aquilo que se diz (ou se pensa) e aquilo que “realmente” é — adaequatio intellectus ad rem, adequação do intelecto à coisa. Por outro lado, existe o que se chamou “verdade ontológica”; diz respeito não a algo que dizemos ou pensamos sobre as coisas, mas às próprias coisas; não à veracidade de um conhecimento que tenhamos sobre elas, mas à realidade delas mesmas. Não é difícil ver a relação entre os dois conceitos: a verdade lógica é aquilo que se apreendeu da verdade ontológica.

Embora a Escritura não utilize essa linguagem, a tradição joanina (Evangelho e cartas) utiliza a palavra “verdade” com bastante flexibilidade, ora se referindo à verdade lógica, ora à verdade ontológica. A verdade lógica, verdade como correspondência, aparece em textos como Jo. 19:35; verdade, nesse sentido, se opõe ao erro (1Jo. 4:6). Mas quando se diz que Jesus é a “verdade” (Jo. 14:6) ou que o Espírito é a “verdade” (1Jo. 5:6), o uso é distinto. Jesus ou o Espírito não são “declarações verdadeiras”. Eles são a própria verdade que se coloca diante de nós, a própria realidade.

Se alguém me pergunta sobre a verdade sobre alguma coisa, eu posso simplesmente declarar a verdade, mas posso também mostrar a verdade, sem falar sobre ela. Uma coisa é falar sobre a verdade (Sl. 119:160); outra coisa é estar diante da verdade.

Esse parece ser o uso em Jo. 1:17: enquanto a Lei Mosaica apenas falou da verdade, Jesus é a própria verdade, aquilo que veio a ser. A diferença parece ser não entre a verdade e o erro, mas a verdade e as meras palavras (cf. 1Jo. 3:18). A Lei Mosaica não trouxe a realidade, mas Jesus, sim. De fato, como o próprio Quarto Evangelho deixa claro que a Lei Mosaica anunciava a Jesus (Jo. 5:46), seu autor não poderia acreditar que ela fosse falsa.

Um detalhe importante é que algumas versões antigas (como Pe. Figueiredo, Almeida) traduzem Jo. 1:17 inadequadamente: vertem a preposição grega dia como “por”. Em português, “por” é uma preposição flexível, e Se dizemos que a lei “foi dada por Moisés”, como nessas versões, parece Moisés deu a lei — torna-se o agente da passiva. Mas no grego coinê, o agente da passiva é identificado pela preposição apo. A preposição dia significa “através de”, o que algumas vezes pode ser traduzido como “por” (“eu passei por esta cidade” é o mesmo que “eu passei através desta cidade), mas em Jo. 1:17 a tradução mais adequada é aquela utilizada pela Almeida Revista e Atualizada, pela NVI e outras mais recentes: a Lei foi dada através de Moisés. Dada por quem? Por Deus, é claro; é o “passivo divino” tão comum nos textos bíblicos. Se o autor do Quarto Evangelho foi capaz de supor que Deus deu a Lei através de Moisés, não poderia achar que essa lei fosse falsa ou mentirosa.

Por isso, parece que Jo. 1:17 afirma, noutro contexto, o mesmo que Paulo escreve em Gl. 3:19-25. Embora essa tese pareça inofensiva, o Quarto Evangelho supõe que somente os discípulos de Jesus são capazes de conhecer a verdade (Jo. 8:31,32), assim como Paulo diz que “a fé” veio depois da Lei; a revelação cristã pressupõe a revelação judaica, mas também a desestabiliza hermeneuticamente (cf. Sl. 105:40; Jo. 6:31,32). É uma afirmação bastante radical, mas não implica em dizer que a Lei Mosaica fosse falsa. Apenas que a verdade não foi trazida, “ocasionada” (egeneto), não é algo que ela era capaz de trazer.

Uma paráfrase seria: Pois assim como a Lei foi dada por Deus através de Moisés, a Graça e a Verdade aconteceram através de Jesus Cristo.

G. M. Brasilino

8 comentários em “A Lei de Moisés é falsa?

  1. Cristo é mais que palavras e proposições, não são os preceitos simplesmente cravados na pedra ou vertidos no papel como nesse último caso ficam relegados junto com os pérfidos judeus eternamente anticristãos, os protestantes com seu apego renascentista às letras e línguas humanas. Cristo é um acontecimento da lei divina trazida por Moisés ter sido vivida plenamente por Alguém divino, mas ao mesmo tempo com seu Coração Sagrado humano, demasiado humano, Cristo Jesus nosso grande Deus e Salvador, gente com a gente tão gente que era um proletário obscuro, carpinteiro e não um burguês sonolento e individualista especialista em línguas humanas e propalador de regras que são fáceis de serem vertidas em pedra ou no papel, mas que são sempre um desafio quando efetivamente vividas humanamente e historicamente.

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  2. Não sei onde poderia colocar minha dúvida então, por estar nessa leitura vou usar esse mesmo. Li sobre erros na bíblia e artigos sobre a inspiração da bíblia, até o mais comum argumento é … Deus inspirou ela toda senão ele não teria preservado ela até hoje, isso inclui a afirmação de que os livros apócrifos também Deus tem haver com essa separação da bíblia protestante. Como posso entender essas alegações?

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      1. Do modo como tem se a bíblia hoje, (seja por erros, contradições etc.) com a rejeição dos chamados apócrifo, foi por obra divina? Deus de certa forma orientou para que os livros apócrifos não fosse incorporado nas bíblias protestantes?

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    1. E como você vê de como deveriam ser tratados principalmente na nossa atualidade, nesses 3 primeiros séculos tem alguma contribuição sobre isso?

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      1. Como Jesus e os apóstolos não fazem referência explícita a esses livros como Escritura, não temos como dar a eles a mesma autoridade que tem o primeiro cânon. Mas são livros muito importantes, e às vezes esclarecem trechos do Novo Testamento, pois eram lidos pela Igreja.

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