As Armas dos Hipócritas

Os fariseus e os herodianos conspiram contra Jesus

“Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida.” (Marcos 3:6)

Ao contrário do que se costuma pensar, os fariseus e mestres da Lei não eram homens sábios cuja sabedoria era criticada por Jesus. Eram homens tolos que tinham nas mãos a chave do conhecimento, mas não usavam. “Ai de vós, intérpretes da Lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos não entrastes e impedistes os que estavam entrando.” (Lc. 11:52).

Por isso, sempre que os reconhece como “sábios” ou “justos”, Jesus usa de ironia. A ironia tem muita semelhança com a hipocrisia que Jesus condena nos fariseus e mestres da Lei, mas com propósito inverso. A hipocrisia dos fariseus consistia no universo de aparência e verbosidade que eles criavam, uma cobertura de mentiras que fazia com que todos pensassem ser eles o que não eram — sábios e santos. Por isso, são especialistas em falar “com lábios lisonjeiros e coração dobrado” (Sl 12:2).

MARCOS 12
14 Chegando, disseram-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus; é lícito pagar tributo a César ou não? Devemos ou não devemos pagar?
15 Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário para que eu o veja.

Como na consulta acerca do tributo pago a César, a autoridade dos hipócritas depende de serem capazes de convencer a multidão de suas prerrogativas. Seria mais uma oportunidade para, triunfando sobre o mestre galileu, fortalecerem sua posição. Jesus rompe inteiramente com o fingimento: “Por que me experimentais?” —  noutras palavras: parem de fingir. Esse é um exemplo de como eles são capazes até mesmo de fingir o radicalismo (anti-César) perante a multidão.

Os hipócritas dependem da multidão e recebem dela o seu poder. Quando Jesus insulta os fariseus (Mt. 23:ff; Lc. 11:37-54), ele desfaz as aparências dos falsos mestres. Nos evangelhos, os hipócritas jamais ofendem a Jesus diretamente. Demonstram uma polidez exemplar. É Jesus quem os ofende (Lc. 11:45).

O batismo de João é do céu (de Deus) ou dos homens (Lc. 20:1-8)? Com essa simples pergunta, Jesus volta contra os hipócritas sua arma, a autoridade que recebem da multidão, e os desarma quando os silencia. Jesus coloca diante deles uma alternativa: mudar de posição (reconhecer o batismo de João), ou manter sua posição contrária a João, perdendo a autoridade sobre a multidão. Perguntando sobre o batismo, é como se Jesus perguntasse: os fariseus se importam mais com o que vem de Deus, ou o que vem dos homens? Verdade sem aparência ou aparência sem verdade? O que estavam dispostos a sacrificar?

Jesus os chama àquilo que na lógica se chama “consistência” e que na moral se chama “integridade”. São capazes de fingir fidelidade a César (Jo. 19:15) e capazes de dizer que não servem a ninguém (Jo. 8:33). No momento em que Pilatos entrega Jesus ao juízo dos seus inimigos, sua resposta é a de que não podem matar ninguém, porque sua Lei proíbe (Jo. 18:31). Mas quando eles são a multidão a exigir a morte de Jesus, eles a exigem porque a Lei exige (Jo. 19:7). Noutras palavras: Jesus deve morrer, mas não seremos nós a matá-lo! A Lei é apenas um pretexto, nas duas situações.

G. M. Brasilino

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