Regnum gratiae: Sobre a santidade da Igreja

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“Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao SENHOR.” (Oséias 2:19,20)

Segundo o livro de Gênesis, quando Deus celebrou sua aliança com Abraão e sua descendência, ele lhes conferiu como sinal a marca da circuncisão, de maneira que todos os circuncisos e somente os circuncisos estariam em aliança com Deus (Gn. 17:10-14). As novas gerações já nasciam dentro da aliança de Deus antes mesmo de serem capazes de compreendê-la.

É bastante óbvio que essa marca da aliança não era suficiente para garantir uma vida nos termos da aliança; Deus exigia fé e santidade de acordo com sua Lei. Por isso, Deus chama o povo israelita, que tinha o “selo da justiça da fé” (Rm. 4:11) na carne e mostrava um “coração ircircunciso” (Lv. 26:41; Ez. 44:9), a circuncidar também o coração (Dt. 10:16; Jr. 4:4). De fato, pode-se dizer que quase toda a literatura profética é um chamado à circuncisão do coração, ao arrependimento, à conversão.

Não obstante, essa conversão não constituía a entrada na aliança: eram as pessoas dentro da aliança que necessitavam de conversão. O fato de que por vezes os israelitas se arrogassem das marcas da aliança (circuncisão, sábado, templo, etc.) como garantias de fidelidade só os tornava mais culpados ainda. Daqueles a quem muito foi dado, muito seria cobrado.

Essa mesma realidade do Antigo Testamento é vivida pela Igreja no Novo Testamento. Mesmo os coríntios, aos quais Paulo considera chamar “carnais” (1Co. 3:1-3), são também santos e santificados em Cristo (1Co. 1:2; 6:10,11), pois, afinal, a santidade designa, em primeiro plano, o fato de que cada uma dessas pessoas passa a pertencer a Cristo. Somente em sentido derivado a santidade da Igreja se refere à moralidade individual.

Semelhante se dá com a Igreja de Laodicéia, a qual, a despeito de seus pecados, é chamada de Igreja tanto quanto todas as outras seis igrejas da Ásia no Apocalipse. Isso porque as fronteiras da Igreja não são demarcadas pelo rigor e pelo moralismo, mas pelos sinais visíveis e sacramentos estabelecidos por Cristo, pela pregação da Palavra, e acima de tudo, pelo perdão.

Reconhecendo essa realidade, Lutero designava a Igreja como regnum gratie — o reino da graça. Abusos da distinção luterana entre “igreja visível” e “igreja invisível” ajudaram a apagar a concepção da Igreja como reino da graça, no momento em que, por influência de diversos movimentos (anabatismo, pietismo, puritanismo), evangélicos passaram a ver a Igreja como o conjunto dos que “realmente seguem Jesus”, isto é, no momento em que a disciplina passou a ser vista como marca da Igreja. No momento em que se estabelece uma eclesiologia moralista, cada um se torna juiz, e não guardião, do seu irmão.

É claro que uma eclesiologia moralista não funciona. Ela só existe no mundo do discurso e, embora incentive julgamento e paranóia, na prática a Igreja só é capaz de sobreviver, uma semana sequer, através eclesiologia da graça, aquela em que recebemos os nossos irmãos pela fé (2Te. 3:14,15). A comunhão dos “realmente seguem Jesus” é feita de hipócritas, pois qualquer cristão sabe, olhando para si mesmo, que ainda lhe falta muito para “realmente seguir Jesus”. Quem usa esse critério para julgar os outros sabe que ele não vale para si mesmo.

“Assim como a certeza da fé com respeito à comunhão com Deus se baseia totalmente no seu amor perdoador, assim também a certeza que se refere à santidade da Igreja não se pode fundamentar em outra coisa que não seja o poder salvador do amor divino, isto é, o ato de perdão de Deus.” (Gustaf Aulén, A Fé Cristã, p. 278)

O perdão é mais fundamental que a santidade. A Igreja é santa, mas toda santidade é santidade a partir do perdão e no perdão. Santidade não significa perfeição moral. Significa pertencimento. A declaração da santidade da Igreja é uma declaração escatológica.

G. M. Brasilino

 

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