A Serpente não é Satanás (e outras alegorias)

Leão e Serpente

A interpretação literalista da Bíblia é um fenômeno essencialmente moderno. Toda interpretação séria da Sagrada Escritura leva em conta o sentido literal do texto. Que o sentido literal deva ser preferido sempre que possível, é algo com que qualquer hermenêutica pode concordar. Orígenes, grande campeão da interpretação alegórica, podia perfeitamente concordar com essa tese. A diferença é a extensão do “sempre que possível”, havendo quem o queria alargar ou limitar. Para o mesmo Orígenes (De principiis), uma interpretação que fosse contraditória ou incompatível com o que se sabe sobre o mundo deveria ser descartada; ela não seria “possível”. Por isso, nosso conhecimento do mundo real independente do texto seria uma medida de literalidade.

A interpretação literalista busca estender o “sempre que possível” o máximo que puder, ainda que nem sempre cumpra o que promete. A despeito de que Gn. 3:1 diga que a serpente do Éden é um animal inteligente, literalistas costumam identificá-la com Satanás: ou a serpente é Satanás, ou um animal possuído por Satanás. Ambas as interpretações são refutadas por uma leitura estritamente literal de Gn. 3:1; não é Satanás, porque é um animal; não é um animal possuído, porque o que explica sua conversa com o primeiro casal é sua inteligência natural.

Diante do fato de que as serpentes não são animais inteligentes no mundo real, uma conclusão possível — e possível para nós tanto quanto para os leitores originais, que sabiam perfeitamente bem que serpentes não falam — seria a de que o texto não deve ser lido como relato histórico, mas a leitura literalista não aceita essa possibilidade, porque quer maximizar não apenas a literalidade do texto, mas também sua historicidade. Então o literalista, para manter a historicidade do texto, sacrifica sua literalidade. Curiosamente, uma leitura comprometida com a literalidade alegoriza o texto. Essas alegorizações buscam encontrar apoio em Ap. 12:9; 20:2, textos que chamam Satanás de “a antiga serpente”.

Os apóstolos usam a Sagrada Escritura de maneiras que perturbariam qualquer literalista dos nossos dias, e os pais da Igreja, como Orígenes, herdaram essa tradição, a qual, por um lado, tinha suas raízes nos modos rabínicos de interpretação, mas também encontrava ressonância nas leituras que a tradição intelectual grega fazia dos mitos. Agostinho, que escreveu um livro chamado Genesi ad litteram (“Gênesis ao pé da letra”), nega que Deus tenha criado o universo em sete dias; essa não era uma leitura aceitável do texto.

No “sínodo” de Jerusalém em At. 15, Tiago faz um uso alegórico da profecia de Amós 9:11,12. O contexto de Atos é a conversão dos gentios, e Tiago vê nesse texto uma indicação profética dessa conversão, que estava ocorrendo naqueles dias.

ATOS 15
13 Depois que eles terminaram, falou Tiago, dizendo: Irmãos, atentai nas minhas palavras:
14 expôs Simão como Deus, primeiramente, visitou os gentios, a fim de constituir dentre eles um povo para o seu nome.
15 Conferem com isto as palavras dos profetas, como está escrito:
16 Cumpridas estas coisas, voltarei e reedificarei o tabernáculo caído de Davi; e, levantando-o de suas ruínas, restaurá-lo-ei.
17 Para que os demais homens busquem o Senhor, e também todos os gentios sobre os quais tem sido invocado o meu nome,
18 diz o Senhor, que faz estas coisas conhecidas desde séculos.

 Não é o único texto profético tratando desse tema,  mas foi escolhido justamente um texto que fala da reedificação do “tabernáculo caído de Davi”. Ao que parece, numa linguagem não muito diferente daquela que vê na Igreja a “casa” ou “templo” de Deus, Tiago vê na Igreja a restauração do “tabernáculo caído de Davi”. Essa leitura seria impossível considerando apenas o texto de Amós, isto é, interpretado literalmente.

Um especialista na interpretação alegórica do Antigo Testamento é o apóstolo Paulo. Ele alegoriza a história de Sara e Agar no Gênesis (Gl. 4:21-31). O v. 24 diz literalmente hatina estin allēgoroumena — “que são alegorizadas” ou “que são ditas alegoricamente” (hatina exigindo o singular, como em Gl. 5:19), uma alegoria que Paulo esperava, retoricamente, que os seus ouvintes identificassem no texto (4:21).

Também em 1Co. 10, Paulo responde à situação coríntia usando de uma alegoria. Para ele, a história do Êxodo é “típica” (typoi, v. 6;  typikōs, v. 11): é um texto que diz mais do que o que está escrito. Mas a leitura que Paulo faz é mais do que simplesmente dizer que essa história é um “exemplo” ou “instrução” para nós, ou que nós repetimos hoje o que aconteceu naquela época. Paulo diz literalmente que a pedra que verteu água “era Cristo” (v.4). O limite entre tipologia (eventos passados que apontam para realidades futuras) e alegoria (leitura que salta das palavras para realidades mais profundas) é fluido.

Outros exemplos de alegoria em Paulo são também conhecidos: em 1Co. 9:9,10, Paulo alegoriza Dt. 25:4; o “boi” é o trabalhador, não o próprio animal, embora este seja o único sentido possível no texto tomado literalmente. Deus não está preocupado com bois, e, nesse caso, Paulo abandona totalmente o sentido literal original. Também em Rm. 4:11, Paulo nos diz que Abraão seria “herdeiro do mundo”, embora só lhe tenha sido prometida, no Antigo Testamento, a terra de Israel (Gn. 17:7); essa alegorização parece ser pressuposta por Hb. 11, que espiritualiza a promessa feita aos patriarcas, e que faz uso do mesmo conceito de Jerusalém Celeste (12:22,23) que a alegoria de Gl. 4:21-31.

Isso nos leva, por fim, à leitura que Paulo faz de Gn. 3 em Rm. 7, tendo já feito a referência à tipologia Adão-Cristo em Rm. 5. A alegoria é bastante sutil, porque Paulo não fala explicitamente de Adão, Eva ou da Serpente, mas a estrutura é a mesma:

GÊNESIS 2
16 E o SENHOR Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente,
17 mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

GÊNESIS 3
4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis.
5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.
12 Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.
13 Disse o SENHOR Deus à mulher: Que é isso que fizeste? Respondeu a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.

ROMANOS 7
10 E o mandamento que me fora para vida, verifiquei que este mesmo se me tornou para morte.
11 Porque o pecado, prevalecendo-se do mandamento, pelo mesmo mandamento, me enganou e me matou.

Paulo pressupõe a relação intrínseca entre pecado e morte que ele vê em 1Co. 15:56: “O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.” Noutras palavras, o mandamento (“não comerás”, Gn. 2:17; “Não cobiçarás”, Rm. 7:7), que é bom, é utilizado pelo pecado/serpente como instrumento para enganar e, conseqüentemente, matar. Em Rm. 5:12-21, Paulo compara continuamente as conseqüências de viver (ou morrer) em Adão e em Cristo, e nos capítulos 7 e 8 ele trata, em maiores detalhes, sobre estar “em Adão” e “em Cristo”, respectivamente. Assim, Rm. 7 é, entre outras coisas, o capítulo de Adão, ou, melhor dizendo, o capítulo que interpreta Adão.

De fato, de todas as alegorias de Paulo, essa é a mais convincente do ponto de vista da intenção do texto original, visto que a narrativa do Éden e da Queda (Gn. 2-3) é um microcosmo da narrativa da Terra Prometida e do Exílio, ou seja, uma narrativa que busca explicar o pecado e suas conseqüências. Ser expulso do Paraíso (que é um Jardim sobre um Monte Santo) é ser expulso da Terra Prometida, do Templo e de Jerusalém (que é uma Cidade sobre um Monte Santo). Não é à toa que Paulo, Hebreus e Apocalipse falem do Paraíso vindouro como uma Jerusalém Celeste, que traz em si ao mesmo tempo as características reformuladas do Jardim e da Cidade.

G. M. Brasilino

9 comentários em “A Serpente não é Satanás (e outras alegorias)

    1. A escola de Antioquia enfatizava o sentido histórico do texto SEM negar o sentido tipológico e mais profundo. Um exemplo é a leitura dos Salmos, que sempre foi interpretada alegoricamente e tipologicamente, pelo motivo muito simples de que eles são interpretados assim no NT. As canções de Israel sobre sofrimentos israelitas são identificados com o sofrimento de Jesus. Esse é um exemplo de como a interpretação literalista é impossível para um cristão.

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  1. Gostei muito do texto, G. M. Brasilino! Tenho estudado um pouco sobre este assunto e, ao ler seu post, fiquei com algumas dúvidas: 1. Se o relato da Queda não é literal, como conciliar o problema do Pecado Original (se é que há?); 2. Se existe a probabilidade de Adão não ser um personagem histórico real, por qual pecado Jesus veio morrer? Paz!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Não me parece que a Escritura dá respostas diretas a essas perguntas. Mas:

      1. O Pecado Original existe independentemente da literalidade das narrativas dos primeiros capítulos do livro do Gênesis. Basta que um primeiro ser humano tenha pecado para que o Pecado Original seja a mesma coisa.

      2. Jesus morreu para remissão dos pecados de todos nós e para condenar o Pecado Original.

      Curtido por 1 pessoa

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