Gênesis e o fundamentalismo

O Grande Dilúvio

“Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.”
(Salmos 19:4b-6)

Um dos usos da Hermenêutica é nos mostrar o quão freqüentemente certas leituras seletivas da Escritura se fazem passar por corretas por ignorância do leitor — ora ignorância das premissas de sua interpretação (aquilo que o leitor insere no texto sem saber), ora ignorância de detalhes e elementos do texto que, por lhe serem estranhos, não são tomados em conta.

A leitura fundamentalista de Gn. 1 costuma ser assim. Os criacionistas dizem que interpretam o texto literalmente, mas fogem de certos elementos que são estranhos. O criacionista é um um grande alegorista, mas é capaz de jurar-se defensor da literalidade do texto, pois não está consciente das alegorias que precisa cometer para sustentar uma interpretação supostamente literal.

Talvez seja importante uma distinção prévia. Qualquer empreendimento interpretativo funciona em ao menos dois eixos: histórico/ficcional e literal/alegórico. A leitura que fazemos do incidente em Antioquia (leia aqui) é histórica, isto é, trata-se de um relato de vivências, presumido verdadeiro. Já a leitura que fazemos da Parábola do Semeador (Mc. 4:11-20; par.) é ficcional: trata-se de uma história inventada por Jesus — o texto não depende de historicidade.

No outro eixo, literal é a interpretação que se atém ao que está escrito, enquanto a alegoria é a que se atém ao que não está escrito, mas talvez implícito no escrito. A interpretação alegórica busca, para as palavras, sentidos diferentes dos da linguagem convencional; por vezes, ela é usada quando o sentido literal, por motivo textual ou não, é inaceitável. Nos exemplos acima, interpretamos literalmente o relato do incidente em Antioquia e alegoricamente a Parábola do Semeador.

Mas não há qualquer vínculo rígido do tipo literal-histórico e ficcional-alegórico. Há muitos casos óbvios na Escritura de relatos não literais (histórico-alegórico) e de criações literais (ficcional-literal). A Parábola do profeta Natã (2Sm. 12:1-9) é um relato histórico, uma narrativa de eventos que de fato ocorreram, mas a linguagem utilizada por Natã é propositalmente alegórica e irônica; não significa o que parece, embora nada dentro da própria parábola indique ser alegórica. Já a Parábola do Bom Samaritano (Lc. 10:25-37) é uma criação literal: a história contada por Jesus nunca aconteceu, mas sua interpretação é literal; o samaritano é realmente um samaritano, Jerusalém é realmente Jerusalém, etc. Quem procurar sentidos ocultos por trás desta parábola jamais vai entender sua lição como exemplo ficcional de amor.

Dizer que a Parábola de Natã é alegórica não é o mesmo que dizer que ela não aconteceu, assim como dizer que a Parábola do Bom Samaritano é literal não é o mesmo que dizer que aconteceu.

Quando lemos, devemos notar as indicações sutis de alegoria e de ficcionalidade. Quando João vê o céu no Apocalipse, vê muitas coisas bastante humanas, entre elas livros (Ap. 20:12) — invenção humana, uma cultura humana. Será que Deus copiou essa invenção humana? O mesmo livro do Apocalipse, aos nos contar da Jerusalém Celeste, nos diz que sua praça era de ouro transparente (Ap. 21:21). É evidente que ouro transparente só pode ser uma alegoria aguardando tradução, e um contágio alegórico se estende ao restante da cidade. As folhas da árvore são “para saúde das nações” (Ap. 22:2), o que não é compatível com a vida eterna. Além disso, no Novo Testamento a vida eterna é descrita em termos de banquete. Não obstante, Paulo diz que os alimentos serão “aniquilados” (1Co. 6:13) por Deus, de modo que a única forma aceitável de tratar esses banquetes é alegórica.

O mesmo ocorre com certas concepções que os escritores bíblicos herdam de sua cultura e que repetem sem lhes conceder peso dogmático, mas que são importantes no seu raciocínio — como o de que os descendentes estão “nos lombos” dos ascendentes (Hb. 7:10) ou de que a menor semente da terra é a da mostarda (Mc. 4:31). Embora hoje possamos encarar esses textos cum grano salis, o escritor e o leitor do século I jamais fariam assim — eles encarariam esses textos de maneira bastante literal. Não obstante, essas informações são irrelevantes para a mensagem que esses textos transmitem: que Jesus é superior a Levi, que o Reino cresce misteriosamente e assustadoramente. São lições teológicas, não de embriologia ou botânica.

Isso nos traz à cosmologia antiga. Não é segredo que os escritores bíblicos, como todos de sua época, acreditavam que o sol se move em torno da terra; eles dizem isso (Sl 19:4-6; Ec. 1:5), assim como falam muitas vezes da imobilidade da terra (1Cr. 16:30; Sl. 93:1; 96:10; 104:5), a qual provem de pilares sólidos (1Sm. 2:8; 2Sm. 22:16; Jó 9:6; 38:4-6; Sl. 18:15; Sl. 102:25; Pv. 8:29; Is. 48:13). O pequeno apocalipse de Isaías descreve o caos como um abalo desses pilares (Is. 24:18). Nessa cosmologia, a terra é plana (Dn. 4:10,11 e Mt. 4:8) e tem “cantos” (Is. 11:12; Ez. 7:2; Ap. 7:1; 20:8) que são, efetivamente, as “extremidades” do plano (Dt. 28:64; 33:17; 1Sm. 2:19; Jó 28:24; 38:13; Sl. 19:4; 22:27; 46:9; 48:10; 59:13; 61:2; 65:5; Is. 41:9; Jr. 51:16; Dn. 4:10,11; Mc. 13:27). As extremidades da terra tocam as extremidades dos céus (Dt. 4:32) e o próprio céu é segurado por colunas (Jó 26:11).

A Escritura consistentemente descreve o universo em três níveis: céus, terra e abismo (Gn. 49:25; Ex 20:4; Dt. 4:17,18; 5:8; Dt. 33:13;  Fp. 2:10; Ap. 5:3,13). A terra foi criada sobre as águas, como que boiando nas águas (Sl. 24:1,2; 136:6). Essas águas, conhecidas como abismo (təhôm), são o destino dos mortos, o Šə’ôl (Nm. 16:30,33; Jó 26:5,6; Sl. 28:1; 30:3; 88:4,6; 104:6; Is. 14:15; Ez. 31:15; Rm. 10:7). O mar são as águas do abismo (Jó 28:14; 38:16; Is. 51:10; Ez. 26:19; 31:4; Jn. 2:5; Mq. 1:4; Ap. 11:7; 13:3) e o horizonte é a separação entre o céu e as águas do abismo (Pv. 8:27,28). A literatura poética descreve a luta e vitória de Deus contra as águas do abismo (Sl. 69:1,2; 74:13; 77:16). Essa descrição que a Escritura oferece não é muito diferente da dos outros povos semíticos.

O Apocalipse, recapturando essa cosmologia com outros propósitos, fala do abismo como um lugar de monstros e da besta (Ap. 9:1-11; 11:7). Satanás e demônios são aprisionados no abismo (Ap. 20:1-3; Lc. 8:31).

Isso nos leva diretamente ao primeiro relato da Criação, em Gn. 1. Os leitores desse capítulo sempre se depararam com dificuldades. No primeiro dia da criação (1:3-5), Deus cria a luz (dia) e a separa das trevas (noite), com o propósito de que haja separação entre luz e trevas. No quarto dia (1:14-19), lemos que Deus cria luminares (sol, lua, estrelas) para governar o dia e a noite, com propósito de que haja separação entre luz e trevas. De fato, é incompreensível a existência de dia e noite sem os astros, e é exatamente isso que o texto de Gênesis está nos dizendo. O primeiro e o quarto dia são idênticos. Um tipo mais precário de correspondência ocorre também entre os outros dias da criação. Parece que o próprio texto está nos induzindo a tomar cuidado com literalismos espúrios.

Mas o problema real, geralmente ignorado pelos fundamentalistas, está no segundo e terceiro dias:

GÊNESIS 1:6-10
6 E disse Deus: Haja firmamento no meio das águas e separação entre águas e águas.
7 Fez, pois, Deus o firmamento e separação entre as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. E assim se fez.
8 E chamou Deus ao firmamento Céus. Houve tarde e manhã, o segundo dia.
9 Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez.
10 À porção seca chamou Deus Terra e ao ajuntamento das águas, Mares. E viu Deus que isso era bom.

Deus cria o céu/firmamento com o propósito de que haja águas e águas (v.6): as águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento. As águas debaixo do firmamento são as águas do abismo, já comentadas. Inicialmente, não havia separação entre água e terra; o mesmo ocorre na descrição da Criação no Salmo 104:

SALMOS 104:5-10
5 Lançou os fundamentos da terra;
ela não vacilará em tempo algum.
6 Tu a cobriste com o abismo, como com um vestido;
as águas estavam sobre os montes.
7 À tua repreensão fugiram;
à voz do teu trovão se apressaram.
8 Subiram aos montes,
desceram aos vales, até ao lugar que para elas fundaste.
9 Termo lhes puseste, que não ultrapassarão,
para que não tornem mais a cobrir a terra.
10 Tu, que fazes sair as fontes nos vales,
as quais correm entre os montes.

O Salmo 104 pressupõe a cosmologia já tratada: fundamentos da terra (v.5), abismo (v.6), um limite que não pode ser ultrapassado (v.9). As águas, que cobriam todas as coisas, foram separadas por Deus. O céu cobre a terra como uma abóbada, separando águas acima e águas abaixo numa bolha que permite a vida. Essas águas acima do firmamento não são nuvens; elas estão acima do sol, da lua e das estrelas, porque estão acima do firmamento, enquanto os astros estão no firmamento (Gn. 1:17).

Quando o livro de Gênesis fala do Dilúvio, utiliza essa mesma cosmologia: as águas que causam o dilúvio são o retorno à situação primitiva em que as águas do abismo ultrapassam o seu limite e as águas acima do firmamento abrem suas comportas (7:11; 8:2). De fato, o Dilúvio é uma forma de descriação, de desfazimento da Criação; a Escritura é hábil em descrever a punição divina como reversão da Criação (Jr. 4:23-26). Para um esquema visual dessa cosmologia, veja o vídeo abaixo.

É claro que isso traz grandes problemas para os fundamentalistas, pois o primeiro relato da Criação, o relato do Dilúvio, as visões do Apocalipse e até a resposta de Deus a Jó (38:4-11), estão todos escritos na linguagem de uma cosmologia que é empiricamente inaceitável.

A pergunta é: por que os criacionistas não interpretam essa cosmologia primitiva literalmente? Porque eles sabem, através da observação, que essa cosmologia não funciona. Não há águas acima do firmamento; não há um abismo abaixo da terra como habitação de demônios; o céu não é separação entre águas; a terra não tem quatro cantos. Então o criacionista alegoriza tudo isso, abraçando uma cosmologia heliocêntrica ou, às vezes, até geocêntrica. Mas é uma alegorização inconsistente: na narrativa de Gn. 1, não há qualquer motivo para alegorizar parte da cosmologia e não o restante dela.

G. M. Brasilino

6 comentários em “Gênesis e o fundamentalismo

    1. Boa pergunta. Esses textos não contradizem os outros textos bíblicos citados acima, os quais mostram que:
      I- O Sol se move em torno da terra.
      II – O céu é uma abóbada que cobre a terra e que segura águas, para que essas águas não cubram a terra (como no Dilúvio).
      III – A terra bóia sobre as águas do abismo.
      IV – O céu e a terra têm extremidades (o horizonte).

      Nos dois textos, trata-se de um problema de tradução.

      Is. 40:22 não diz que a terra é redonda. A palavra hebraica ḥug designa não o formato da terra, mas o horizonte que separa a terra ou mar (Pv. 8:27) e o céu (Jó 22:14). Ou seja, esse é mais um texto que confirma a cosmologia antiga, que vê o céu como uma cobertura (abóbada) sobre a terra, de modo que as extremidades da terra tocam as extremidades do céu. Não adianta citar apenas metade de Is. 40:22 e ignorar a outra metade, que fala do céu como cobertura. Além disso, “terra” não significa “Planeta Terra”, mas designa a terra seca, em oposição ao mar (abismo) e céu, como lemos em Gn. 1.

      Sobre Jó 26:7, quem está falando é Jó. Em Jó 38:4, Deus diz que a terra tem alicerces. Mas o que Jó diz não é que o planeta Terra está no vácuo. O capítulo 26 de Jó (assim como o 38) usam a mesma cosmologia antiga acima descrita. Os mortos habitam no abismo de águas (26:5,6); as águas são marcadas por um limite, que é o limite das luz e das trevas (26:10); o céu tem colunas que o seguram sobre a terra (Jó 26:11).

      “O norte estende sobre o vazio [tohû];
      e suspende a terra sobre o nada [b’lîmâ].”
      Jó 26:7

      Os diálogos do livro de Jó estão em paralelismo, de maneira que a intenção da primeira metade do versículo (“O norte estende sobre o vazio”) se preserva na segunda (“e suspende a terra sobre o nada”). A palavra tohû designa o caso primordial (Gn. 1:2), que após a Criação é preservado no tehôm (abismo de águas abaixo da terra e sobre o qual a terra bóia). Note que se o NORTE está ESTENDIDO sobre o vazio, o formato da terra é PLANO.

      A expressão b’limâ, na segunda metade, é difícil de traduzir porque não aparece em nenhum lugar no restante do AT (hapax legomenon), mas significa algo como “o que não?”. Seu referente é dado pela primeira metade do versículo (tohû).

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  1. Então como relacionar isso com a pessoa de Adão – não é necessário que ele tenha sido uma figura histórica para que o paralelo entre ele e Cristo faça sentido? E não é evidente que Jesus e Paulo trataram os relatos do princípio como historicamente válidos? Eu pergunto pq, por exemplo, tenho mto interesse por uma visão evolucionista da origem das espécies. Se puder responder esse argumento fico feliz

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    1. Sim, é necessário que Adão tenha sido uma pessoa histórica — até mesmo da perspectiva da biologia –, mas ao mesmo tempo é possível que a história sobre Adão esteja contada nas Escrituras de maneira ao mesmo tempo verdadeira e alegórica.

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