Os Sete Sinais do Quarto Evangelho

A Ressurreição de Lázaro, Leon Bonnat [cortada]

E acontecerá que, se eles não te crerem, nem ouvirem a voz do primeiro sinal, crerão à voz do derradeiro sinal;” (Êxodo 4:8)

O Evangelho de João tem, além do famoso prólogo (1:1-18) e do epílogo (21), duas grandes partes, conhecidas pelos teólogos como o Livro dos Sinais (1:19-12:50) e o Livro da Glória (13:1-20:31). Embora os títulos não indiquem tudo que há em cada “metade” do Livro, eles nos apontam para um tema importante no Evangelho de João, que é como os sinais de Jesus apontam para a sua glória; como tudo aquilo que Jesus fez, de algum modo, aponta para sua crucificação e ressurreição.

“Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (Jo. 20:30,31)

Sinais (sēmeia) é como são conhecidos os sete milagres especiais que Jesus realiza no Quarto Evangelho. Um sinal indica sempre algo; ele tem sempre um “sentido”, e, por isso, uma leitura rica dessas narrativas envolve a apreensão do sentido daquilo que Jesus fez.

Assim como Moisés foi enviado a realizar sinais que autenticassem sua autoridade profética perante o povo israelita (Êx. 4:1-9), Jesus foi enviado a fazer as “obras” do Pai que lhe enviou, as quais testificam do seu anúncio (Jo. 5:36). Há, de fato, consistente conexão, ao longo do Quarto Evangelho, entre ver os sinaiscrer no Filho (2:11,23; 4:48; 6:2,30; 10:24,25,37,38; 11:47,48; 12:10,11; 20:25,30,31). Se Jesus não realizar sinais, eles não crerão (4:48; cf. 10:37,38). Mas assim como na narrativa do deserto (Nm. 14:11), a reação de fé perante os sinais não é automática (7:5; 12:37); afinal, nem todos são ovelhas (Jo. 10:26). Mas isso torna mais culpados aqueles que não creram (15:22,24).

Em 2:18, sinal é o que confere ou confirma a autoridade profética (mas veja Dt. 13:1-3; Mc. 13:22 par); autoridade é, no sinóticos, a questão levantada pelos fariseus após a purificação do templo (Mc. 11:27,28 par.).

A comparação entre Moisés e Jesus (leia aqui), explícita em Jo. 1:17, percorre o restante do Evangelho; de fato, Jesus é aquele que liberta os escravos (8:31-36), aquele que dá o verdadeiro maná (6:29-33) e água (4:10-14; 7:37), e é erguido como serpente no deserto (3:14,15). A tipologia entre Moisés e Jesus tende, é claro, para a superioridade deste, pois faz obras que nenhum outro fez (15:24).

O primeiro sinal é a transformação da água em vinho na festa de Caná (2:1-11). Sua mãe, seus irmãos e seus primeiros discípulos estão presentes (2:12), e é sob instigação de sua mãe que Jesus realiza aquele que é textualmente identificado como o primeiro sinal: “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (2:11). A Páscoa estava próxima (2:13). Esse primeiro sinal relembra o último sinal a ser realizado por Moisés para que o povo de Israel acreditasse em sua vocação profética: tornar água em sangue (Êx. 4:8,9).

As talhas nas quais se colocou água estavam ali para a purificação dos judeus (Mc. 7:3,4), expressão ligada no Quarto Evangelho ao batismo joanino (Jo. 3:25,26). A água é especificamente posta nessas talhas sob ordem de Jesus, e não em qualquer outro recipiente — inclusive aquele que já havia sido usado para vinho, e que poderia ser usado em conjunto com as talhas. Ainda que esteja em vista, nesse detalhe, a abundância do milagre (600 litros de vinho!), a comparação com o sinal mosaico e a referência à purificação convidam a ler nesse primeiro sinal de Jesus aquilo que já foi visto em 1:17: a relação entre aquilo que Jesus iria fazer (o Evangelho) e aquilo que o antecedeu (a Lei e o judaísmo) era de transformação, não uma simples rejeição, substituição ou adição.

Outro detalhe, notado com maior freqüência, é a quase recusa de Jesus em realizar o milagre por não haver ainda chegado a sua “hora” (2:4). O sinal e a hora estavam ligados. Com isso, Jesus se refere à hora de ser preso e morrer (7:1-9,30; 8:20). O texto parece pressupor que a morte de Jesus seria o momento para mostrar sua glória e realizar o seu sinal.

Como o primeiro, o segundo sinal foi realizado em Caná (onde Jesus o concedeu), mas também em Cafarnaum (onde se cumpriu). Jesus voltava para a Galiléia depois de ter sido rejeitado na Judéia, e é recebido pelos galileus (4:43-46). O milagre é a cura do filho de um oficial de Herodes, que estava à beira da morte e que Jesus cura à distância (4:46-54). É explicitamente chamado de “segundo sinal (4:54) e foi realizado na proximidade da Páscoa (4:43-45; cf. 2:13ss). Provavelmente não é à toa que o Quarto Evangelho coloque esse milagre em um contexto galileu, e isso fortalece a temática aberta em 1:17; dada a rejeição, Jesus não iria seguir os protocolos do judaísmo.

O terceiro sinal é a cura do paralítico no tanque de Betesda (Casa da Bondade, ou da Misericórdia), em Jerusalém (5:1-15). Jesus foi a Jerusalém para “uma festa” (5:1). O milagre foi realizado no sábado (5:10), e, por isso, o Quarto Evangelista prefere utilizar uma expressão que, na sua linguagem, é idêntica a “sinal”, mas que ressoa melhor com a situação, que é a expressão “obra” (7:21). Que “sinal” e “obra” sejam o mesmo, e vê em 9:3,16 (cf. 4:48, 10:37,38), mas esta última ressalta o fato de que Jesus violou o descanso sabático ao realizar o milagre, ato que incita os judeus a persegui-lo (5:16-18).

Além disso, Jesus realiza o milagre especificamente sem utilizar águas disponíveis (que eram consideradas curativas pelos judeus), ao contrário do que ocorre no sexto sinal (quando as águas não tem qualquer propriedade especificada).

O quarto sinal é a multiplicação dos pães e peixes para alimentar uma multidão (6:1-15). Jesus está próximo ao mar da Galiléia. O milagre é explicitamente chamado de “sinal” (6:14,26), e aqueles que o viram identificaram Jesus como “o profeta que devia vir ao mundo”, o que, no v. 15, se mostra ser o Messias. Essa multidão claramente vê em Jesus, que os alimenta, o mesmo que seus antepassados teriam recebido de Moisés (cf. Dt. 18:15-18). O milagre de Jesus deixa sobras, enquanto que o de Moisés não. A Páscoa estava próxima (Jo. 6:4).

O quinto sinal, que ocorre logo em seguida, é andar sobre as águas do mar da Galiléia (6:16-21). Há quem dispute a identidade desse feito miraculoso como sinal, visto não ser explicitamente chamado assim, ainda que haja alguma relação com a travessia do Êxodo.

O sexto sinal é a cura de um cego de nascença (9:1-7), no tanque de Siloé (O Enviado). É chamado “sinal” (9:16), e parece ter sido feito na proximidade da Festa dos Tabernáculos (7:2,10). Foi feito no sábado (9:14). O milagre causa uma discussão entre os fariseus sobre a autoridade de Jesus realizar milagres e quebrar mandamentos. Para Jesus, cegos eram aqueles “discípulos de Moisés” (9:28) que se negavam a crer nele (9:39). Enquanto os fariseus argumentavam que um homem pecador (que violava o Sábado) não poderia ser enviado de Deus, o cego de nascença lhes respondia com base naquilo viveu: “havendo sigo cego, agora vejo” (9:25).

O sétimo sinal é a ressurreição de Lázaro em Betânia, perto de Jerusalém (11:1-45), reconhecido como sinal em 12:18, pouco antes da Páscoa (11:55). Jesus aguarda a morte de seu amigo Lázaro, porque, realizando esse sinal, espera que seus discípulos creiam (11:15); de fato, o v. 15 dá a entender que, se Jesus estivesse lá, não teria permitido a morte de Lázaro.

Esse sinal é o que ocasiona a conspiração contra Jesus (11:46-53), dando razão ao que Jesus temeu quando sua mãe lhe pediu para fazer o primeiro sinal: realizar sinais atrairia para si ódio e ele seria morto. A história de Lázaro levava outras pessoas a crerem em Jesus, o que fazia com que o próprio Lázaro fosse perseguido (12:9-11).

A conspiração é política: os fariseus temem que os romanos tirem o seu lugar (11:48) e por isso prestam fidelidade a César (19:15) contra a pretensão popular de coroar Jesus (6:15), pois o povo crê em Jesus por ver que “faz muitos sinais” (11:47,48). Diferentemente de outros momentos em que tentam matar Jesus, neste existe um envolvimento da liderança de Jerusalém e do sumo sacerdote. Não era mais um linchamento espontâneo, mas sim uma decisão calculada. Já estava decidido: “Desde aquele dia, resolveram matá-lo.” (11:53).

Nos Evangelhos sinóticos, a conspiração para matar Jesus é ocasionada pela purificação do Templo e conseqüente confronto entre Jesus e líderes locais (especialmente a Parábola dos Lavradores Maus), que se dão na última semana. Quando entendemos a teologia dos sinais de João, vemos por que ele transfere a purificação para o começo do Evangelho (2:13-22), longe da última semana: os sinais que Jesus realizava radicalizava a reação dos judeus, entre aqueles que o abraçavam e aqueles que o odiavam, e aí se localiza o ódio contra ele.

Então aparece o oitavo sinal, no Livro da Glória, que é aguardado e prenunciado por todo o Evangelho, e já identificado como sinal desde o prenúncio de 2:18-22, mas, indiretamente, também em 20:30,31. Chegou a hora de Jesus: a hora de ser glorificado (12:23,27; 13:1; 16:32; 17:1). O oitavo sinal é a Crucificação, seguida da Ressurreição. Morto, Jesus verte sangue e água (19:33-37), o que faz com que outros creiam nele.

Enquanto a ressurreição recorda o milagre realizado por Jesus em Caná, seu primeiro sinal, sua própria ressurreição recorda o último sinal realizado em Betânia. Jesus foi “levantado” (3:13-15; 8:28), isto é, crucificado, e sendo crucificado ele atrai todos a si (12:32), o que manifesta a glória do oitavo sinal sobre todos os outros sete. Tomé quer ver “o sinal [typon] dos cravos” (20:25), mas bem-aventurados são os que não viram e creram (20:29).

G. M. Brasilino

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