A Maldição da Lei

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“Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da lei, para praticá-las.” (Gálatas 3:10)

Uma das maiores dificuldades na leitura das Sagradas Escrituras é a falsa identificação entre o sentido do texto e as crenças do leitor contemporâneo. Quando as palavras do texto têm algo em comum com aquilo em que o leitor pensa ser verdadeiro, ele é levado a presumir que o escritor pensa exatamente como ele. Parte do trabalho de interpretação é tornar conscientes as suposições do leitor. Na leitura de Gl. 3:10, uma premissa que freqüentemente se oculta na interpretação é a de que é impossível obedecer a lei. O raciocínio (simplificado) é mais ou menos este:

São amaldiçoados os que não obedecem a lei inteiramente;
É impossível obedecer a lei inteiramente;
Portanto, ninguém obedece a lei inteiramente;
Portanto, todos estão amaldiçoados.

O leitor que absorveu esse raciocínio pensa que Paulo quer dizer exatamente isso, embora Paulo não fale, nesse contexto, de uma “impossibilidade”; seria, supõe-se, uma premissa compartilhada entre Paulo e seus leitores. Às vezes, como na exposição homilética que João Crisóstomo faz desse texto, não se declara a impossibilidade da guarda da Lei, mas apenas se constata a transgressão: “todos pecaram” (Rm. 3:23). Assim:

São amaldiçoados os que não obedecem a lei inteiramente;
Ninguém obedece a lei inteiramente; [= todos pecaram]
Portanto, todos estão amaldiçoados.

O mérito desse segundo raciocínio é o da simplicidade, além de se utilizar de uma premissa que é afirmada em outro texto pelo mesmo autor de Gl. 3:10. Ocorre que a premissa maior é falsa. O apóstolo Paulo está tratando, na realidade, de outra coisa, mas o leitor facilmente identifica a sua premissa (“São amaldiçoados os que não obedecem a lei inteiramente”) com a premissa usada por Paulo, que vem de Dt. 27:26.

Note-se que Paulo não diz que todos os seres humanos são amaldiçoados — como ele escreve em Rm. 3:23, que todos pecaram e (portanto) estão destituídos da glória de Deus —; essa seria a conclusão do raciocínio, se suas premissas fossem aquelas que se supõe. Ele diz que são amaldiçoados “aqueles que são das obras da lei” (hosoi ex ergōn nomou). Que os cristãos não estejam debaixo dessa maldição, sabemos por Gl. 3:13, mas por que Paulo não diz que os gentios não convertidos não estão, também, debaixo da maldição? Paulo ataca, contextualmente, um grupo específico, e em nenhuma parte de seus escritos ele fala de uma maldição pesando sobre toda a humanidade.

O contexto da carta, na verdade, explica tudo. Como mostrei em um texto anterior (leia aqui), o problema entre os cristãos da Galácia era a hipocrisia de falsos mestres que, embora não guardassem a Lei de Moisés (Gl. 6:12,13), fingiam guardar a Lei para evitarem perseguição e censura por parte dos judeus. Foi a mesma hipocrisia de Pedro, anos antes; embora vivendo como gentio, fingiu viver como judeu para evitar perseguição (Gl. 2:11-14). Os cristãos gálatas foram iludidos por esse judaísmo fingido, e alguns passaram a querer viver de fato de acordo com as “obras da lei” (circuncisão, guarda do sábado, leis alimentares etc.), regras que separavam o judeu e o gentio, de maneira que aquele que as descumpre está ipso facto excluído do povo de Deus (cf. Gn. 17:14; Lv. 7:27; Ex. 31:12-17). Esses gálatas iludidos queriam “estar debaixo da lei” (Gl. 4:21).

Em Gl. 5:3, Paulo diz algo muito revelador de como ele vê a Lei Mosaica: “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei.” Note: Paulo não pressupõe que o ser humano incircunciso tenha a obrigação de guardar toda a Lei! A obrigação de guardar toda a Lei recai sobre aqueles que estão “debaixo da Lei”; os gentios em geral e os cristãos (tanto faz se de origem gentílica ou judaica) não estão debaixo da Lei (1Co. 9:20,21; Gl. 3:23). A Lei fala apenas aos que estão debaixo dela (Rm. 3:19).

Ou seja: o problema com os falsos mestres não era o de que para eles era impossível guardar a Lei, ou de que eles eram pecadores. O problema era de que eles estavam fingindo, e o que Dt. 27:26 proíbe é justamente esse fingimento. O significado da maldição deuteronômica não é de que todo pecador está amaldiçoado, mas sim que está amaldiçoado aquele que não se compromete em cumprir toda a Lei. A maldição não versa sobre a prática, mas sobre o compromisso inexistente. Assim:

Estão amaldiçoados todos os israelitas que não se comprometem em guardar toda a Lei;
Os falsos mestres (“os que são das obras da lei”) não se comprometem em guardar toda a Lei;
Os falsos mestres (“os que são das obras da lei”) estão amaldiçoados.

O mérito dessa leitura é que ela se enquadra muito melhor na moldura criada pela própria carta entre a hipocrisia de Pedro (Gl. 2:11-14) e a hipocrisia dos falsos mestres (Gl. 6:12,13), além de evitar a contradição de dizer que são amaldiçoados justamente aqueles que querem guardar a Lei.

G. M. Brasilino

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