Romanos 7:7-25 não é sobre você (eu espero)

Rembrandt - Apóstolo Paulo

“Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto.” (Romanos 7:15)

No tempo presente, a vida cristã é de constante combate contra os diversos pecados e tentações. Mesmo que saibamos que a vitória sobre o pecado se é realizada por Cristo em nós, a experiência cristã comum é a de que o pecado ainda é uma realidade poderosa, mesmo que não seja a realidade dominante. No sentimento correto e muito justo de buscar, na Sagrada Escritura, voz para as próprias tensões, frequentemente os intérpretes de Rm. 7:7-25 vêem nas palavras de Paulo um eco dessa experiência comum: boas intenções que não conseguem vencer o pecado, não conseguem produzir boas ações.

Essa experiência é especialmente agravada pelo que se pode chamar de introspecção puritana: o auto-exame permanente, ainda que não muito consciente, em busca de más intenções — na raiz das ações, dos pensamentos e dos sentimentos — a serem vencidas, depois de descobertas, assim como em busca de verdadeiras evidências da fé cristã. Se a má leitura de Rm. 7:7-25 é generalizada, ela será mais facilmente encontrada naqueles que praticam esse tipo de introspecção. Uma introspecção estereotipada é mera introjeção, assim como projeção dos estereótipos sobre o texto sagrado.

Embora a luta contra o pecado seja constante e real (Gl. 5:17), o que Rm. 7:14-25 descreve não é a situação do cristão — no capítulo 8, a situação do capítulo 7 é, efetivamente, vencida! Rm. 7 descreve o indivíduo debaixo da Lei; Rm. 8, o indivíduo no poder do Espírito Santo.  De fato, a passagem em questão é explicada pelos seis primeiros versículos do capítulo, os quais, por sua vez, são explicados pelo capítulo anterior. Note:

ROMANOS 7:1-6
1 Porventura, ignorais, irmãos (pois falo aos que conhecem a lei), que a lei tem domínio sobre o homem toda a sua vida?
2 Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal.
3 De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.
4 Assim, meus irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do corpo de Cristo, para pertencerdes a outro, a saber, aquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que frutifiquemos para Deus.
5 Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte.
6 Agora, porém, libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra.

Assim como a mulher pode ter outro marido, morto o primeiro, nós morremos para a Lei para sermos de Cristo; e porque morremos para a Lei, temos uma vida nova. Isso é reflexo daquilo que Paulo escreve em Rm. 6:1-14 sobre o batismo, no qual morremos para o pecado para desfrutarmos de novidade de vida/de espírito; morremos pela lei “por meio do corpo de Cristo” (v. 4), isto é, por meio de sua crucificação, como é explicado mais compactamente em Cl. 2:12-17 (cf. Ef. 2:15). A conversão é marcada pelo contraste entre o “quando” (Rm. 7:5) e o “agora” (7:6).

Isso levanta naturalmente o questionamento: afinal, se a “novidade de espírito” (7:6) é conseqüente ao ser “livre da lei” (7:3), o culpado pelo pecado é a Lei? Os versículos seguintes, até o fim do capítulo, explicam justamente que não; o culpado é a carne, que se utilizou da Lei. Paulo descreve essa situação usando um “eu” presente, mas isso é apenas identificação com um sujeito que não é ele, como ele já deixara bem claro nos primeiros seis versículos; Paulo encarna um personagem que tem “prazer na lei de Deus”  (7:22) — para a qual o Paulo real já morreu! —, que é a lei que está em sua mente (7:23), e, no entanto, vive debaixo da “lei do pecado” (7:23). Conhecendo a lei de Deus em sua mente, mas vivendo sob o poder do pecado em suas obras, esse homem é miserável e está condenado á morte.

No entanto, em Rm. 8:2, Paulo diz que: “a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” O cristão não está debaixo da lei do pecado. Aquilo que há em Rm. 7:7-25 é passado! Esse passado não é o passado humano em geral, mas o passado judaico em particular; trata-se de alguém que conhece especificamente o mandamento “Não cobiçarás” (7:7) e vive debaixo dessa Lei; para Paulo, somente os judeus têm a Lei (2:12-14; 1Co. 9:19-21). Quando se falha em notar que a “Lei” à qual Paulo se refere é a Torá, a Lei indivisa do Antigo Testamento — não a “lei moral”, não os “mandamentos” em geral — e que o cristão está livre dessa Lei, conforme Paulo diz no começo do capítulo (mas também em diversos outros lugares), o resultado é que a interpretação do restante do capítulo fica bastante confusa.

Assim, o que Paulo descreve em Rm. 7:7-25 não é uma luta; é uma derrota. Não descreve ocasiões de pecado, mas a vida perdida. Ele descreve alguém que está vendido debaixo do pecado, que não tem qualquer poder para enfrentá-lo, que fracassa inevitavelmente. O argumento Paulo é de que o conhecimento da Torá, que foi confiado ao judeu, não lhe permitia viver de acordo com o preceito divino. Somente o poder do Espírito Santo capacita à vida nova. Linguagem semelhante é empregada em Rm. 6:15-23: éramos outrora “escravos do pecado” (6:17,20) ou “vendido[s] à escravidão do pecado” (7:14); agora, “transformados em servos de Deus” (6:22), “não andamos segundo a carne” (8:4).

O argumento paulino é, na verdade, uma bomba! Ele não agrada aos moralistas, que acham que o conhecimento da Lei basta para a obediência; não agrada aos pregadores da graça barata, que acham que a obediência é impossível (sim, ela é impossível, mas não para o Espírito Santo!); não agrada aos legalistas, que não suportam a idéia de que o mandamento divino (“Não cobiçarás”) seja usado como instrumento de morte e condenação; não agrada aos anti-sacramentalistas, que não suportam a idéia de que o batismo seja o meio pelo qual a morte de Cristo (para a Lei e para o pecado) se torna morte do cristão (para a Lei e para o pecado).

G. M. Brasilino

2 comentários em “Romanos 7:7-25 não é sobre você (eu espero)

  1. Muito boa a inversão do entendimento, mas ao final ele ao fazer a “introspecção” diz:

    Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
    Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim.
    Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus;
    mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros.
    Miserável homem eu que sou!…
    Romanos 7:20-24

    Esse trecho, salvo enagno, que parece que você não analisou no seu texto

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    1. O texto demonstra que a situação aí citada não se refere ao cristão. A figura personificada por Paulo é o judeu (sujeito à lei do pecado), não o cristão (que vence pela lei do Espírito). Eu analisei, sim, o trecho citado.

      Curtido por 1 pessoa

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