A Voz de Cristo nos Evangelhos

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“Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” (Marcos 13:31)

As palavras de Jesus são o tema de permanente reflexão da Igreja. Com razão a pregação da Igreja acentua os atos salvíficos de Jesus, especialmente sua Encarnação, Crucificação e Ressurreição, mas tudo isso permaneceria sem sentido, se não o recebesse da voz do próprio Senhor. As palavra do rabi da Galiléia alegram e entristecem, escandalizam e atraem, consolam e ameaçam,  condenam e salvam.

Elas também deixam perplexo o leitor de nossa época, ainda que por motivos diferentes. Afinal, quando lemos os evangelhos e os comparamos, não podemos ignorar as diferenças, por vezes agudas, no modo como o ditos e feitos de Jesus são contados. As diferenças desafiam qualquer harmonização vulgar.

A primeira bem-aventurança é “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;” (Mt. 5:3) ou “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lc. 6:20)? Pode-se argumentar que as duas frases dizem, na essência, a mesma coisa, e eu concordaria. “Reino dos céus” é uma expressão exclusiva de Mateus, e ele a usa nos mesmos acontecimentos em que Marcos e Lucas registram “Reino de Deus”; além disso “pobre”, em Lucas, é um semiticismo que poderia significar o mesmo que “pobre de espírito” em Mateus. Mas não é possível que Jesus tenha dito, ao mesmo tempo, as duas coisas; ou uma, ou outra, ou nenhuma das duas.

No Gólgota, Jesus exclamou “Eli, Eli” (Mt. 27:46) ou “Eloí, Eloí” (Mc. 15:34)? As duas expressões significam a mesma coisa — “Deus meu, Deus meu” —, mas Jesus não pode ter dito ambas ao mesmo tempo. Ou disse Eli (hebraico), ou Eloí (aramaico). Um dos dois evangelistas não registrou exatamente o que Jesus disse — ou ambos!

Muitos outros exemplos poderiam ser citados, se comparássemos os diversos relatos de eventos específicos da vida de Jesus repetidos em ao menos dois dos Evangelhos: a confissão de Pedro em Cesaréia de Filipe, o Sermão Apocalíptico, a instituição da Ceia do Senhor, suas aparições após a Ressurreição etc. Como no caso da cura do servo do um centurião (Mt. 8:5-13 // Lc. 7:1-10), por vezes não apenas as palavras de Jesus são diferentes, mas também os acontecimentos da história são contados de maneira bastante diferente, impossibilitando tratar os todos os textos sinóticos de maneira igualmente literal.

Além disso, acontecimentos inteiros aparecem em momentos diferentes. Os evangelhos sinóticos colocam a Purificação do Templo — o acontecimento em que Jesus expulsa os vendilhões e cambistas — no final do ministério de Jesus (Mc. 11:15-18), na última semana,  o que, após alguns confrontos com as lideranças locais (especialmente a Parábola dos Lavradores Maus, Mc. 12:1-12), ocasionaria a sua morte. O Evangelho de João, por outro lado, coloca a Purificação do Templo  no início do ministério de Jesus (Jo. 2:13-22), alguns anos antes da última semana. Neste evangelho, a morte de Jesus não está ligada à Purificação do Templo, mas aos sinais que Jesus realizava (leia aqui).

Outra ação de Jesus que mostra divergência entre os evangelhos é a datação da Ceia do Senhor e da Crucificação. Segundo os Evangelhos Sinóticos, a Ceia do Senhor foi instituída logo após a celebração da Ceia Pascal com os discípulos (Mc. 14:12-25), sendo Jesus preso na mesma noite (14:43-50), interrogado e condenado por Pilatos na manhã seguinte (Mc. 15:11-15) e crucificado ainda naquela manhã, por volta das 9h (Mc 15:25), vindo a falecer por volta das 15h daquele mesmo dia (Mc. 15:34-41). Ou seja, Jesus comeu a Páscoa com seus discípulos; o sacrifício da Páscoa é feito à tarde, perto do por do Sol (Dt. 16:4-7), de maneira que, coerentemente, a Ceia teria sido na noite em que Jesus foi traído.

No Evangelho de João, os acontecimentos são mais ou menos os mesmos: após uma Ceia (Jo. 13:1-4), e um longo discurso e oração (14-17), Jesus é preso (18:1-27); na manhã seguinte é interrogado e condenado por Pilatos (18:28:19-16), sendo mostrado a eles por volta do meio dia (19:14) e crucificado em seguida (19:17-30). A diferença de horário na Crucificação de Jesus já é uma questão relevante, mas mais importante  é o fato de que, no Evangelho de João, Jesus não come a Ceia Pascal com os discípulos. Aquela Ceia que ele realiza com eles não é a Páscoa, embora estivesse já próxima dela, por um motivo simples: na manhã da Crucificação, os fariseus ainda iriam comer a Páscoa: “não entraram no pretório para não se contaminarem, mas poderem comer a Páscoa.” (18:28), a qual não pode ser deixada para o dia seguinte (Êx. 12:11; Dt. 16:4). Era ainda a preparação para a Páscoa (Jo. 19:14).

Assim, nos evangelhos sinóticos, a Ceia do Senhor coincide com a Ceia da Páscoa. No Evangelho de João, a morte de Jesus coincide com o momento em que o cordeiro pascal era sacrificado no Templo. Os exegetas debatem qual das duas é motivada por preocupações teológicas (em oposição a preocupações históricas). Fato é que, interpretadas literalmente, as duas narrativas não são conjuntamente aceitáveis.

De volta aos ditos de Jesus: em poucos textos a concordância entre os evangelhos é “palavra por palavra”. Geralmente o sentido é o mesmo, mas cada evangelista deu às palavras de Jesus a ênfase ou esclarecimento que considerou importante, mas não existe concordância na ordem dos acontecimentos; ditos de Jesus que não estão ligados a um acontecimento determinado podem aparecem em contextos diferentes e com sentidos diferentes: o que Jesus diz em Mt. 10:26-33 no contexto do comissionamento dos apóstolos para a missão aparece em Lc. 12:2-9 no contexto do ensinamento de Jesus contra a hipocrisia. Mas o contexto diferente exige um remodelamento daquilo que Jesus disse: em Mt. 10:27, os discípulos devem trazer à luz (pregar) aquilo que Jesus disse na escuridão; em Lc. 12:3, o que eles disseram na escuridão será trazido (por Deus), à luz.

Em suma, os quatro evangelhos não apresentam as palavras exatas de Jesus (ipsissima Verba), aquilo que ele literalmente disse, mesmo quando citam Jesus em sua língua original, mas aquilo que os exegetas passaram a chamar ipsissima Vox, a voz de Cristo, o que Jesus de Nazaré de fato ensinou, resumidamente, mas adaptado às circunstâncias didáticas, litúrgicas e querigmáticas da Igreja nascente. Por isso, ditos de Jesus podem aparecer em contextos diferentes, fornecidos pelos evangelistas.

Como aprendemos no prólogo de Lucas (1:1-4), os evangelhos foram escritos a partir daquilo que as “testemunhas oculares e ministros da palavra” (apóstolos, mas também outras pessoas) transmitiram. As diferenças entre os evangelhos refletem a diferença de testemunho entre as pessoas que viram e andaram com Jesus, assim como as diferentes situações em que as testemunhas de Jesus o transmitiram, assim como no modo como isso que foi dito foi repetido pela Igreja.

G. M. Brasilino

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