O Salmo 51 foi realmente escrito por Davi?

Rei Davi Tocando Harpa (cortado)

“Então, disse Davi a Natã: Pequei contra o SENHOR. Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás.” (II Samuel 12:13)

O livro bíblico de cânticos e orações é conhecido como Salmos de Davi, mas não é segredo para o leitor atento que grande número deles indica outra autoria no seu título próprio. Muitos Salmos são acompanhados por títulos com alguma informação — o autor, ou a situação em que teria sido escrito, ou algo da melodia e instrumentação. O Novo Testamento acolhe essa tradição hebréia da autoria davídica dos Salmos.

É assim com o Salmo 51: “Ao mestre de canto. Salmo de Davi, quando o profeta Natã veio ter com ele, depois de haver ele possuído Bate-Seba.” (ARA) Natã repreende Davi, e o salmo é visto como uma oração de Davi pelo perdão divino para esse pecado.

Ocorre que essas indicações de autoria são meramente tradicionais — como a indicação, em algumas bíblias mais antigas, de que o autor da Carta aos Hebreus teria sido Paulo, embora se possa provar que não foi. Uma das conquistas mais importantes da exegese moderna é a observação do modo como os autores bíblicos revelam algo sobre si mesmos ou sobre a situação à qual sua transmissão visa responder (Sitz im Leben).

Eventualmente essas indicações contrariam as autorias tradicionais. No caso de Hebreus, o autor indica (Hb. 2:3) que foi evangelizado pelas testemunhas oculares de Jesus, ou ao menos por alguém que teve contato com elas, o que não se enquadra na vida do apóstolo Paulo como conhecida em suas cartas ou nos Atos. Negada essa autoria tradicional — mas não tão tradicional, já que desde sempre houve quem a questionasse —, só é possível supor quem teria sido o autor.

Ao contrário das epígrafes (em negrito) que lemos ao longo dos capítulos das bíblias modernas, adicionadas na tradução/edição, os títulos dos Salmos são parte do texto hebraico tradicional. No entanto, por comparação com a Septuaginta, sabe-se que era prática dos judeus acrescentar essas indicações aos Salmos; afinal, estão em terceira pessoa (“ele”, no Sl. 51), e só teriam utilidade quando os Salmos fossem reunidos numa coletânea. São parte do texto tradicional, mas provavelmente não do texto original. Nós ocidentais estamos tão acostumados a ter títulos em textos que nos parece estranho o modo como os hebreus mais antigos (e outros povos da mesma época e região) escreviam.

A melhor indicação de que o Sl. 51 não foi escrito por Davi são os dois últimos versos:

SALMO 51
18 “Faze bem a Sião, segundo a tua boa vontade;
edifica os muros de Jerusalém.
19 Então, te agradarás dos sacrifícios de justiça,
dos holocaustos e das ofertas queimadas;
e sobre o teu altar se oferecerão novilhos.”

Quando o Salmo foi escrito (ou editado), os muros de Jerusalém haviam sido destruídos e os sacrifícios não eram mais feitos. É mais ou menos a mesma situação do Sl. 137 e de tantos outros: o Exílio, que ocorreu uns cinco séculos depois de Davi. Note:

2 REIS 25
8 No sétimo dia do quinto mês, do ano décimo nono de Nabucodonosor, rei da Babilônia, Nebuzaradã, chefe da guarda e servidor do rei da Babilônia, veio a Jerusalém.
9 E queimou a Casa do SENHOR e a casa do rei, como também todas as casas de Jerusalém; também entregou às chamas todos os edifícios importantes.
10 Todo o exército dos caldeus que estava com o chefe da guarda derribou os muros em redor de Jerusalém.
11 O mais do povo que havia ficado na cidade, e os desertores que se entregaram ao rei da Babilônia, e o mais da multidão, Nebuzaradã, o chefe da guarda, levou cativos.
12 Porém dos mais pobres da terra deixou o chefe da guarda ficar alguns para vinheiros e para lavradores.

Assim, o Salmo deve ser datado para o séc. VI a.C. ou pouco depois (Exílio/Pós-Exílio). Como em muitos outros livros ou textos bíblicos, a autoria tradicional é impugnada pela presença de elementos no texto que indicam outra datação. Se o autor dos dois últimos versos é o mesmo de todos os anteriores, o Salmo não é de Davi, e, por isso, a indicação no título teria sido acrescentada posteriormente.

Houve quem dissesse, tentando salvar o título, que esses dois últimos versos foram acrescentados durante o período exílico, sabe-se lá por quem. O título seria original e histórico, e os dois versos finais seriam um acréscimo exílico. Mas esse tipo de alegação é uma petição de princípio: não há qualquer evidência manuscrita de um Sl. 51 sem essa parte final, e se a integridade editorial do texto é posta em questão, não há como saber até onde, no restante do texto, ela foi, e isso inclui o título. Um Sl. 51 que termine no v. 17 é, portanto, uma especulação sem apoio na crítica textual, em nada diferente das mutilações que Bultmann e outros críticos fizeram ao Evangelho de João (eliminando referências sacramentais e escatológicas).

É claro que, mesmo faltando evidência manuscritológica de edição, às vezes o texto bíblico dá indicações de autoria múltipla. Embora o título seja Provérbios de Salomão, qualquer leitor atento sabe que o livro não foi inteiramente escrito por Salomão: o próprio livro o diz! Vários provérbios, embora atribuídos a Salomão, foram transcritos séculos depois (Pv. 25:1), e há provérbios de outros autores desconhecidos (Pv. 22:17; 24:23) ou quase desconhecidos (Pv. 30:1; 31:1). A própria escritura reconhece o trabalho editorial.

Algo semelhante ocorre com Isaías, embora nesse caso não haja indicação dos autores/editores adicionais. Isaías foi um profeta do século VIII a.C. e a autoria do livro lhe é atribuída indiretamente nos trinta e nove primeiros capítulos, mas se pode ver claramente partes do texto acrescentadas: o Segundo Isaías (caps. 40–55) e o Terceiro Isaías (caps. 56–66) tratam o Exílio Babilônico como uma realidade presente (na qual Deus promete libertação futura) ou realidade evanescente (em cumprimento à promessa), não podendo, portanto, ter sido escrito na época de Isaías, quando o Exílio ainda era realidade futura.

Enquanto em Isaías e Provérbios se acrescentam partes independentes (sem continuidade) ao texto, o Sl. 51 apresenta continuidade de assunto: a confissão de pecados é interiorizada quando não há mais o meio visível e ritual de perdão de pecados, o Templo em Jerusalém.

G. M. Brasilino

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