Jesus pregou o Evangelho — não as “Quatro Leis Espirituais”

Rembrandt

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.” (Marcos 1:14,15)

Jesus pregou o Evangelho. Não apenas a Bíblia diz que Jesus e seus discípulos pregaram o Evangelho (Mt. 4:23; 9:35; 11:5; Mc. 1:14,15; 14:9; Lc. 4:43; 7:22; 8:1; 9:6; 20:1), mas os livros que narram a da vida, morte e ressurreição de Jesus são conhecidos como “Evangelhos”. Talvez o título de três deles seja posterior, mas o Evangelho de Marcos começa com a linha: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo” (Mc. 1:1).

Quando o apóstolo Paulo fala sobre “o Evangelho”, isso inclui a ascendência davídica (Messias/Cristo/Senhor), filiação divina, crucificação pelos pecados humanos, ressurreição dentre os mortos (Rm. 1:1-14; 1Co. 15:1-11; 2Tm. 2:8), mas também a mensagem escatológica futura (Rm. 2:16; Cl. 1:5) e ética (Fp. 1:27), mensagem que o próprio Jesus pregou. A mensagem de Jesus e a de Paulo é a mesma.

De fato, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, o livro de Atos registra a mensagem pregada pelos apóstolos, e ela inclui todas esses assuntos tocados pelo apóstolo Paulo, tendo como eixo o messiado e ressurreição de Jesus, assim como conseqüência imediata: a mensagem de arrependimento e o batismo. Note-se que aquilo que Jesus pregou em Mc. 1:15,16 já era o Evangelho, embora ele ainda não tenha dito coisa alguma sobre sua morte e ressurreição, coisas que só depois ele “começou a ensinar-lhes” (Mc. 8:31). Esse é o próximo episódio, que os seus seguidores incorporaram à mensagem.

Eventualmente, essa mensagem é chamada de Evangelho do Reino, Evangelho da Graça, Evangelho de Deus, Evangelho de Jesus Cristo. Era a mensagem de conversão que se pregava: a história de Jesus, o modo como Deus Pai consumou nele seu plano para Israel, pregando o Reino de Deus, morrendo pelos pecados humanos nas mãos de Israel e dos gentios, ressuscitando vitoriosamente, enviando o Espírito Santo, reinando como Messias e vindo futuramente para julgar os vivos e os mortos. O Credo Apostólico, no seu segundo artigo, é um resquício dessa mensagem original, chamada pelos teólogos de Querigma (gr. “o tema pregado”), embora a dimensão judaica (a descendência davídica e o messiado) esteja ausente.

No século XX, o evangelista americano Bill Bright inventou o que se chamou “As Quatro Leis Espirituais”. O propósito dessas “leis” seria o de fornecer uma abordagem rápida visando a conversão de outras pessoas. Uma forma dessas quatro leis seria:

1. Deus ama você e tem um plano maravilhoso para sua vida.
2. O homem é pecador e está separado de Deus; por isso não pode conhecer nem experimentar o amor e o plano de Deus para sua vida.
3. Jesus Cristo é a única solução de Deus para o homem pecador. Por meio dele você pode conhecer e experimentar o amor e o plano de Deus para sua vida.
4. Precisamos receber a Jesus Cristo como Salvador e Senhor, por meio de um convite pessoal. Só então poderemos conhecer e experimentar o amor e o plano de Deus para nossa vida.

A proposta é apresentar um problema, uma solução e o modo como a recebemos. Em termos gerais e cum grano salis, as Quatro Leis estão corretas, mas há um grande problema em usá-las como abordagem de evangelismo: se lermos a pregação de Jesus e dos apóstolos, jamais encontraremos algo que se pareça remotamente com as Quatro Leis Espirituais.

Essas leis têm vários problemas doutrinários, como ausência do poder salvífico da ressurreição de Jesus (Rm. 4:25) e o apelo individualista (o que motiva a conversão é o plano de Deus para a minha vida). Mas o que mais escandaliza é que temas que foram centrais na pregação de Jesus e dos apóstolos estão totalmente ausentes: o Batismo como selo do arrependimento, geralmente substituído pela oração do pecador (leia aqui); Israel; o Reino de Deus e o messiado de Jesus; a vida de discípulo.

As Quatro Leis Espirituais são uma organização arbitrária de temas com vistas a arrancar uma “confissão de Jesus”. A estratégia básica é apresentar os pecados com o problema a ser resolvido por Jesus; é verdade que Jesus é a “solução” para o problema do pecado, mas nem Jesus nem os apóstolos pregaram isso como o tema do Evangelho.

É claro que esse método de evangelismo não tem qualquer poder de converter ninguém. A mensagem dos apóstolos nunca foi a de como podemos desfrutar do plano de Deus para as nossas vidas; a mensagem deles foi de que Deus enviou seu Filho como Senhor, vitorioso sobre a cruz e sobre a morte, e toda a humanidade deve se submeter ao seu Reino, submissão conhecida como “obediência da fé” (Rm. 1:5; 16:26); aqueles que não se submetem são “rebeldes” (15:31).

A minha salvação é importante, e por isso o Evangelho é chamado de Evangelho da Graça; nele se acha o poder para a salvação pela fé (Rm. 1:16,17). Mas Jesus é mais importante que a minha salvação. Uma coisa é dizer que a mensagem do Evangelho salva; outra coisa é achar que a minha salvação é o tema principal do Evangelho. Não é de estranhar que pessoas evangelizadas por esse método se tornem “convertidos”, mas dificilmente discípulos de Jesus. É apenas uma oferta da “graça barata” criticada por Bonhoeffer. Um evangelho pela metade não é evangelho.

G. M. Brasilino

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