A irrelevância dos debates sobre a Ceia do Senhor

Lutero na dieta de Worms

“E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.” (Marcos 14:22)

A experiência de ver duas pessoas brigarem por palavras — pessoas que na realidade pensam do mesmo modo, mas não se dão conta disso — é bastante comum. Só quem está fora do debate percebe a frivolidade da discussão. A incompreensão se dá quando os principais termos da discussão são usados analogamente — quando as duas pessoas usam as mesmas palavras para falarem duas línguas diferentes, mas com alguma semelhança.

As tradições teológicas são marcadas não apenas pelo que afirmam. Parte fundamental da tradição teológica está nas incompreensões passadas adiante. Sempre que uma incompreensão é vencida, dois passos podem ser dados adiante — um passo em relação a Cristo e um passo em relação ao próximo. Afinal, essas incompreensões costumam ser empecilhos à unidade real. Uma das contribuições da teologia histórica no século XX é a percepção de como o debate cristológico histórico está viciado — Nestório, diz-se, nunca ensinou o nestorianismo, e as igrejas orientais acusadas de monofisitismo nunca abraçaram essa heresia.

Talvez por isso a Escritura condene as “contendas de palavras” (2Tm. 2:14). O universo das palavras pode ser uma prisão, e a compreensão exige sempre uma Hermenêutica do Amor, uma abertura ao outro, que não procura o erro e sim o acerto, e sobretudo a verdade além das palavras e das fórmulas verbais. Devemos ao outro a compreensão amorosa que queremos receber.

Transubstanciação, Consubstanciação, União Sacramental, Empanação, Presença Espiritual, Transignificação, Transfinalização — penso que todas essas expressões dizem a mesma coisa. Todas essas doutrinas tratam, no dizer de Irineu de Lião, de uma realidade “terrena” e uma realidade “celestial” (Contra as Heresias, IV, 18, 5). A realidade espiritual é a presença de Cristo no sacramento. A realidade terrena é aquilo que os olhos vêem, a mão toca e que está sujeito às leis da física do mesmo modo que qualquer pão.

Normalmente os defensores de uma dessas doutrinas atacam as demais, mas parece que o fazem sem razão. Que diferença há entre a Transubstanciação (tradição romana) e a Presença Espiritual (tradição calvinista)? Transubstanciação quer dizer que o pão e o vinho, depois de consagrados, têm suas substâncias inteiramente mudadas no  corpo e do sangue de Cristo. Os “acidentes”, aquilo que apela aos sentidos (cor, formato, sabor, consistência etc.) e mesmo suas propriedades físico-químicas, não mudamJá a doutrina da Presença Espiritual diz que que Cristo está presente de modo “não material, mas espiritual”.

Os defensores dessas doutrinas talvez apontem como diferença uma mudança nos elementos: na primeira o pão e o vinho deixam de ser pão e vinho, enquanto na segunda, não. Mas quem disse que essas duas doutrinas se referem à mesma coisa quando quando falam de pão e de vinho? A doutrina da Presença Real não usa a palavra “pão” para se referir a uma “substância” por trás dos “acidentes”, mas apenas àquilo que vemos com nossos olhos, que alimenta nossa digestão, etc. Portanto, chama-se pão justamente às propriedades fisico-químicas e nutricionais que os dois lados dizem que permanecem lá!

O que “vemos” é pão e vinho; o que não “vemos”, mas está lá de fato, é Cristo. Que diferença há entre a “Substância Invisível” de Cristo e a “Presença Espiritual” de Cristo? No fim das contas, o debate se resume a discutir se é válido ou não usar as palavras “pão” e “vinho” para se referir aos elementos consagrados — uma contenda de palavras!

Mas dirão também: na doutrina da Presença Real, Cristo não “desce” à terra, mas nós “subimos” ao céu; na Transubstanciação, Cristo “desce” à terra. Sinceramente, não faço a mínima idéia do que as pessoas querem dizer com isso, e tenho quase certeza de que elas mesmas não sabem. A diferença é ininteligível. Os indiscerníveis são idênticos.

A coisa fica ainda mais complicada quando outras doutrinas são comparadas, como a Transubstanciação e a Consubstanciação. Mas se na doutrina é muito difícil dizer a diferença, a prática que se associa a essas doutrinas é muito diferente. Os defensores da Transubstanciação praticam a Adoração Eucarística, por exemplo, enquanto os defensores da Consubstanciação e da Presença Real não, geralmente associando essa prática à idolatria (adoração de pão e vinho). Mas mesmo a justificativa dessa prática pressupõe a doutrina.

Penso, aliás, que a doutrina eucarística da Transubstanciação não explica suficientemente a Adoração Eucarística. Não é nem um pouco claro por que um adorador do “Cristo Eucarístico” não poderia, inadvertidamente, acabar adorando a aparência de pão e a aparência de vinho independentemente da Presença de Cristo; mas se adora apenas a Cristo, e não as aparências de pão e vinho, que diferença há entre isso e o que fazem os defensores da Consubstanciação e da Presença Espiritual, que também adoram a Cristo presente enquanto celebram o sacramento?

Não digo que não exista nenhum debate sacramental relevante. É importante  saber se Cristo está presente — se, como o próprio Jesus disse, “Isto é o meu corpo” (Mc. 14:22), de maneira que peca aquele que “come e bebe indignamente” (1Co. 11:29) —; é importante também saber se aquele que recebe em fé os elementos recebe a “comunhão do sangue de Cristo” e a “comunhão do corpo de Cristo” (1Co. 10:16) — se o sacramento é um meio de graça. Noutras palavras: trata-se de um teatrinho, ou algo real está acontecendo? Por isso, penso que a única alternativa é entre a Presença Real e o Memorialismo (negação da Presença Real). Todo o resto é a mesma coisa, ou não é coisa nenhuma.

G. M. Brasilino

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