Um argumento canônico contra o memorialismo

Vinho e Pão

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.” (Atos 2:42)

O memorialismo é a doutrina eucarística segundo a qual o papel da celebração da Ceia do Senhor é o de “memorial”, uma forma de lembrança do sacrifício de Cristo no Calvário. Grande parte dos seus defensores não crê que a Ceia do Senhor seja um meio de graça, um instrumento eficaz no qual Cristo se apresenta a quem o recebe, mas “apenas um símbolo”.

Alguns memorialistas usam uma linguagem mais próxima à de “meio de graça”, mas sempre dão um jeito de inserir a “mente” como um mediador: deve-se lembrar, recordar, pensar, refletir sobre o sacrifício de Cristo, para que a coisa toda seja “válida”. Os elementos teriam o papel apenas de “despertar” ou “ocasionar” essa reflexão e recordação, como um “lembrete”. Essa recordação, não o próprio sacramento, seria um meio de graça. Ao contrário da posição mais reformada, que espera do receptor apenas fé, o memorialismo espera algo mais: uma meditação no sacrifício.

O memorialismo faz um grande caso das palavras ditar por Jesus: “fazei isto em memória de mim” (Lc. 22:19; 1Co. 11:24,25). Segundo a leitura memorialista, essas palavras de Jesus seriam a indicação do sentido da celebração por ele instituída, um tipo de explicação do propósito da coisa toda. Essas palavras seriam lidas como “façam isto para lembrar do meu sacrifício”; seriam a chave hermenêutica da própria celebração.

Pois bem, é justamente nesse ponto que aparece a falha do argumento memorialista. A instituição da Ceia do Senhor aparece em quatro momentos: três vezes nos evangelhos sinóticos e uma vez em 1Coríntios (Mt. 26:26-30; Mc. 14:22-26; Lc. 22:17-23; 1Co. 11:23-25). Quando comparamos essas narrativas, facilmente ajuntamos Mateus e Marcos de um lado, e Lucas e 1Coríntios do outro, dadas as semelhanças e diferenças.

Na versão de Marcos, as palavras de Jesus seriam basicamente “Tomai, isto é meu corpo.” (v. 22) e “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos.” (v. 24). Mateus acrescenta algo, mas não foge disso. O que se nota é que essa tradição não se preocupa imediatamente com a celebração a ser realizada pela Igreja; Jesus não diz “fazei isto”. Mas os leitores desses dois evangelhos — que inicialmente não tiveram acesso a nenhum outro evangelho — sabiam que essas palavras se referiam à instituição, pois celebravam a Eucaristia/Ceia do Senhor.

As palavras da instituição em Lucas e 1Coríntios representam uma tradição diferente. Segundo Lucas, Jesus diz: “Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim.” (v. 19) e “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.” (v. 20). A versão de Paulo uniformiza as duas falas de Jesus, acrescentando à segunda o “fazei isto (…) em memória de mim” (v. 25). Como o memorialismo depende dessa interpretação das palavras “em memória de mim”, o costume das comunidades cristãs de vertente memorialista é fazer a leitura usando a versão paulina, onde essa expressão aparece duas vezes.

Ao contrário da primeira tradição, esta se preocupa com a celebração contínua realizada pelos apóstolos e pela Igreja, mas não diz nada sobre a “recepção”, que aparece implícita na entrega de Jesus. Não há uma ordem como “tomai, comei” ou “bebei”. O modo incidental como Paulo escreve o “todas as vezes que o beberdes” (v. 25) mostra que essa não era a preocupação da tradição preservada por ele (“recebi do Senhor”, parelabon apo tou kyriou, v. 23), ainda que fosse sua própria preocupação, pois o problema em Corinto era o da recepção indigna (manducatio indignorum).

Na tradição lucana/paulina, o cuidado é muito maior com o que os ministros do evangelho deveriam fazer. O “fazei isto” não se refere ao ato de comer e beber, ao “cear”, cujas ordens estão ausentes nessas versões; refere-se aos atos realizados por Jesus: (1) tomar os elementos; (2) dar graças (eucharisteō); (3) partir (o pão); (4) entregar. Os atos de comer e beber anunciam a morte do Senhor (1Co. 11:26), mas o “fazei isto” se refere propriamente ao momento da preparação (“consagração”) dos elementos.

Embora ambos os nomes, Eucaristia (“ação de graças”) e Ceia do Senhor, tenham passado a se aplicar à celebração como um todo, originalmente Eucaristia é o momento em que Jesus (ou o ministro que lhe representa) dá graças pelos alimentos, ou seja, os abençoa. Embora haja distinção quanto à descrição do ato de Jesus — abençoar ou dar graças —, trata-se de uma distinção apenas de palavras, visto que a beracha judaica era, a um só tempo, um modo de bendizer a Deus pelo alimento e um modo de abençoar o próprio alimento, e, por isso, Marcos usa ambas (vv. 22,23). Já a Ceia do Senhor seria o momento em que a Igreja come e bebe os elementos consagrados. É por isso que o modo de recepção (a “Ceia do Senhor”) variou tanto ao longo dos séculos, até no Novo Testamento, mas a consagração dos elementos (a “Eucaristia”) permanece liturgicamente a mesma.

Trata-se de duas tradições da instituição: a tradição marcana/petrina (copiada por Mateus) e a tradição lucana/paulina, com preocupações distintas. No núcleo dessas tradições estão as palavras “Isto é meu corpo” e “meu sangue”, respectivamente ligadas ao pão e ao vinho.

O erro do memorialismo é querer interpretar aquilo que aparece sempre (meu corpo/meu sangue) à luz daquilo que aparece metade das vezes (em memória de mim), e não o inverso; interpretar a tradição comum à luz de tradições particulares, e não o inverso. Isso constitui uma preterição das versões de Mateus e Marcos em face de Lucas e Paulo. Nenhum evangelho deve ser preterido em relação demais, com respeito ao que apresenta; eles são canonicamente iguais. É claro que Jesus só instituiu a Ceia uma vez, e todas as quatro versões apontam para esse único evento, mas tentar forçar as palavras das quatro versões em um texto único é, inevitavelmente, escrever outro evangelho.

Eu chamaria isso de princípio da igualdade canônica, mas talvez seja muito melhor chamar de respeito ao escritor. Esse princípio não foi inventado por mim; ele subjaz a qualquer abordagem canônica dos evangelhos. A igualdade canônica seria o igual direito de cada texto a ser aquilo que é, com todas as suas diferenças, sem precisar uniformizar-se (“harmonizar-se”) aos demais. Isso porque nenhuma dessas narrativas foi escrita para ser lida em conjunto com as demais (“sinoticamente”), mas lida em si mesma e por si mesma, no contexto da vida da Igreja.

Não custa lembrar: na linguagem da Escritura, a “memória” celebrada não indica ausência, mas justamente uma forma de invocação da presença (Êx. 20:24).

G. M. Brasilino

4 comentários em “Um argumento canônico contra o memorialismo

  1. Nós somos lezados não recebemos a comunhão nas duas espécies,se é “tomai todos e bebei” por quê só os celebrantes?

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