O Inferno é separação? — Um erro de tradução em 2Ts. 1:9

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É freqüente na pregação popular a imagem do Inferno como um “afastamento” em relação a Deus. Tanto entre católicos romanos quanto entre protestantes, essa idéia encontra aceitação quase universal no Ocidente. O afresco do Juízo Final, de Michelangelo, captura essa concepção ocidental: o Senhor advindo sobre as nuvens executa seu juízo por meio de anjos, reunindo para a si os salvos e lançando na condenação os perdidos. Os únicos a rir, de fato, são os demônios, no canto inferior direito (a esquerda de Cristo). Eles parecem ser castigadores, não castigados.

Entre os cristãos orientais é comum que se pense o contrário: o Inferno é a própria presença de Deus; os que amam a Deus terão infindável prazer nessa presença, enquanto os que o odeiam terão, nessa mesma presença, a experiência do tormento. Não é o ódio de Deus, mas o seu amor, que incomoda aos perdidos eternamente. O lugar dessa teologia na arte icônica oriental é mais complicado; há ícones ortodoxos do Juízo Final representando mais ou menos o mesmo que Michelangelo, com o dragão a engolir os perdidos, no canto inferior direito inclusive. Talvez seja um desafio, para o artista, representar a Cristo diante dos perdidos. O que é belo em palavras se torna ambíguo em imagens; e também talvez por isso essa concepção foi sempre menos comum.

A Escritura fornece sustentação para ambas imagens do Inferno, a depender do que se decida tomar ao pé da letra: no Juízo Final, Jesus diz aos perdidos: “afastai-vos de mim” (Mt. 7:23; 25:41); ele os lança “nas trevas exteriores” (Mt. 8:12; 22:13; 25:30) ou “na fornalha de fogo” (Mt. 13:42,50). Essas representações talvez se remetam a Is. 66:24, em que os corpos dos ímpios são lançados fora da Jerusalém redimida. Essa mesma imagem se repete nos capítulos finais do livro de Apocalipse, em que os condenados são lançados num lago de fogo e enxofre, enquanto os salvos são arrebanhados na Jerusalém Celestial que desce do céu. Todas essas imagens sugerem fortemente a noção de “separação”.

Por outro lado, a Escritura também sugere o contrário, ainda que menos freqüentemente. Em Is. 33:14-16, como em outros lugares, a presença de Deus é descrita como “fogo devorador” e “chamas eternas” nas quais os justos habitam. Em uma descrição muito mais forte, Ap. 14:9,10 nos conta que os adoradores da Besta serão atormentados “com fogo e enxofre, diante do santos anjos e na presença do Cordeiro”. Um outro caso é 2Ts. 1:9, que descreve a condenação do Juízo Final na vinda de Cristo. O problema é que boa parte das traduções desse texto para o português está errada. Veja-se três traduções mais contemporâneas:

“Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder,” (ARA)

“Eles sofrerão a pena de destruição eterna, a separação da presença do Senhor e da majestade do seu poder.” (NVI)

“Eles serão castigados com a destruição eterna e ficarão longe da presença do Senhor e do seu glorioso poder.” (NTLH)

Em coro, essas traduções colocam os condenados separados de Deus, na “destruição eterna”. Por outro lado:

“Os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder,” (ACF)

“os quais, por castigo, padecerão eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder,” (ARC)

Essas duas traduções (entre outras, como a do Pe. Figueiredo), mais tradicionalistas, colocam os perdidos padecendo diante de Cristo. Como é possível que duas traduções do mesmo texto digam o contrário uma da outra? Alguém está bem errado. Esse é um exemplo de como é relevante o uso do texto grego, do qual se translitera: hoitines dikēn tisousin olethron aiōnion apo prosōpou tou kyriou kai apo tēs doxēs tēs ischyos autou (NA27). Em negrito, a parte mais relevante. Qualquer consulta a uma gramática de língua grega informará que a preposição “apo” com o genitivo indica afastamento, dentre outas coisas. Ao pé da letra, seria “para longe [da] face do Senhor”. Palavra por palavra, a tradução seria essa.

Mas essa tradução está errada, e o erro é a falácia do dedutivismo. As palavras não funcionam como tijolos independentes, encaixados uns aos outros e fornecendo sentido ao todo, deduzido de cada parte. Cada palavra não apenas fornece, mas também recebe sentido das demais, e tanto o sentido recebido quanto fornecido dependem  do uso lingüístico. A língua não é um sistema, mas uma arte vivencial. Embora haja problemas sérios na sentença de Wittgenstein — “Não busque o significado, mas o uso.” —, é certo que o uso (o costume) é determinante para a compreensão da fala.

O uso ao qual o apóstolo Paulo se reporta é o grego da Septuaginta, a tradução do Antigo  Testamento para a língua grega, muito usada na época dos apóstolos, no Novo Testamento e na Igreja primitiva. Os tradutores da Septuaginta praticamente consagraram um dialeto novo, um uso diferente do dialeto Coinê, dando uma direção diferente à língua grega.

Essa mesma expressão de 2Ts. 1:9 aparece em diversos lugares na Septuaginta (Jz. 5:5; 2Rs. 22:19; 2Cr. 16:33; Sl. 97:5; Sl. 114:7; Jr. 4:26; Sf. 1:7. Ag. 1:12; Zc. 2:13), e é traduzida como “perante o Senhor”, ou “ante a face do Senhor”, ou algum equivalente. O mesmo ocorre quando tou kyriou (do Senhor) é trocado por tou theou (de Deus), em Sl. 68:2,8; Ec. 8:13; Dn. 6:26. Os únicos casos em que essa expressão indica “saída” ou “afastamento” são aqueles em que o próprio verbo indica afastamento, verbos em ex– (Gn. 3:8; Nm. 16:46; Nm. 17:9). A expressão por si mesma jamais é traduzida como indicando afastamento.

Por que motivo os tradutores da Septuaginta teriam usado a preposição grega apo para traduzir mipnê (“perante”)? É simples: a área que essas duas preposições cobrem é muito semelhante. Ambas podem ser traduzidas como “por causa de” (causa) e por “para longe de” (origem), a depender do contexto. O grego da Septuaginta forçou a preposição em outra direção.

Curiosamente, as versões em inglês também encontram divergência, mas não é exatamente a mesma. Enquanto as versões em língua inglesa mais recentes (NRSV, NASB, NIV) traduzem do mesmo modo que as versões brasileiras mais recentes, como separação, as versões mais antigas entendem como a origem da punição.

Embora aqui sejam vindicadas as versões tradicionais em língua portuguesa, os fatos impugnam o argumento idólatra colocado por alguns fundamentalistas americanos (KJV only), de que Deus não permitiria que os cristãos usassem uma tradução errada da Bíblia. Ora, ou os cristãos de língua portuguesa, ou os de língua inglesa, alguém usou uma tradução errada. Deus permitiu.

G. M. Brasilino

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