Vãs repetições? — Um erro de tradução em Mt. 6:7

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“Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras.” (Eclesiastes 5:2)

O que às vezes escandaliza no discurso de muitos evangélicos sobre oração é a falta de realismo. Enquanto se sabe e se afirma o “Orai sem cessar” (1Ts. 5:17), é comum que ele venha acompanhado de uma obrigação que o impossibilita: o dever da oração espontânea. Não é possível a um ser humano ser espontâneo sempre; há quem tenha maior facilidade, outros (como eu mesmo) têm maior dificuldade. Além disso, admita-se ou não, com o passar do tempo as orações ficam todas bastante iguais; você pode perceber que tipos de repetições certas pessoas sempre fazem, quando oram.

Existe também na oração espontânea uma tendência, bastante visível na religião evangélica, de multiplicar palavras, contradizendo o ensino de Ec. 5:2, pois na “multidão de palavras não falta pecado” (Pv. 10:19).

Todos os cristãos são santos em formação. Assim como fluem espontaneamente de nós desejos bons, puros, corretos, também fluem maus desejos, preocupações egoístas, desatenção, ingratidão. Os Salmos nos servem de duplo exemplo: por um lado, os salmistas jamais escondem de Deus suas angústias, ódio, sensação de abandono, saudade, perplexidade; mesmo o apóstolo Paulo podia dizer que não sabemos o que pedir como convém (Rm. 8:26), necessitando do amparo do Espírito Santo. Por outro lado, cada Salmo é uma escola de como fazê-lo: não apenas quando lidos, mas principalmente orados. Quando utilizamos orações feitas por pessoas de outras épocas (e que sabiam melhor do que nós o que estavam fazendo), somos formados na oração.

De fato, a Bíblia jamais ensina a oração espontânea, nem a proíbe. Em diversas situações, os personagens das Escrituras (Jesus, os apóstolos, os profetas) fizeram orações que certamente não tinham sido preparadas de antemão. Por outro lado, usaram o livro dos Salmos como livro de oração, como quando Jesus recitou o Sl. 22 no Calvário. Jesus e os apóstolos também faziam as orações judaicas aprendidas nas sinagogas. Se repetir orações já feitas é pecado, Jesus pecou no Getsêmane (Mt. 26:44).

Por isso mesmo, Jesus nos ensinou a oração diária conhecida como Pai Nosso, que ecoa bastante da espiritualidade judaica da época, mas com uma nova nuance na boca do Senhor. Um erro freqüente no discurso evangélico é o de que o Pai Nosso é apenas um “modelo” ou “exemplo” de oração. Leia-se a Bíblia inteira, e jamais se encontrará qualquer indicação de que o Pai Nosso seja isso. O máximo que Jesus ensina é: “Quando orardes, dizei: Pai Nosso (…)” (Lc. 11:2). Se o texto for encarado literalmente, como os evangélicos gostam de dizer que encaram a Bíblia, na realidade o Pai Nosso deveria ser sempre orado.

O argumento contra a oração preparada ou dirigida (escrita/lida/memorizada) geralmente gira em torno de um erro de tradução em Mt. 6:7. Desconheço uma versão protestante desse versículo que esteja corretamente traduzida. A Almeida traduz como “orando, não useis de vãs repetições”. O texto não condenaria qualquer tipo de repetição, mas apenas “vãs repetições”; mas seria fácil ver no adjetivo apenas uma ênfase do que já estaria no substantivo. As versões contemporâneas, em uma tendência mais interpretativa, pioraram a coisa muito. A NVI diz: “não fiquem sempre repetindo a mesma coisa”; a NTLH: “não fiquem repetindo o que vocês já disseram”. A repetição é condenada tout court.

No texto grego de Mt. 6:7, as palavras “vã” e “repetição” não aparecem em lugar algum. Jesus usa o verbo battologeō, que não tem nenhuma ligação essencial com repetições. A expressão é um hapax legomenon, uma palavra que só aparece uma vez, e por isso seu sentido específico é debatido. Mas não é difícil entender o que é a battologia condenada por Jesus. O contexto de Mateus 6 é explícito: Jesus condena a mesma coisa que Ec. 5:2, ou seja, multiplicar as palavras (polylogia). Os judeus repetiam orações, mas Jesus não é disso que Jesus está falando; ele condena especificamente um erro dos “gentios”.

Por isso, logo em seguida ele ensina o Pai Nosso. Cada petição do Pai Nosso é simples, sem argumentação, sem rodeios. Como o Pai já sabe a necessidade de cada um, não é preciso transformar a oração em uma divagação vazia, uma multidão de palavras. O que Jesus nos ensina é a orar com consciência de que o cuidado do Pai por nós é maior do que qualquer palavra que possamos usar.

É claro que a Escritura nos ensina a orar “com entendimento” (cf. 1Co. 14:14,15), e um dos perigos da oração preparada é o da distração. Mas o abuso não elimina o uso. A distração é eliminada pela disciplina e pelo autocontrole, não pela desistência.

G. M. Brasilino

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