Por que Jesus foi batizado por João?

baptism-of-jesus

“Por esse tempo, dirigiu-se Jesus da Galiléia para o Jordão, a fim de que João o batizasse.” (Mateus 3:13)

O batismo de Jesus por João Batista é bastante embaraçoso. O profeta pregou “o batismo de arrependimento, para o perdão dos pecados” (Lc. 3:3) e as pessoas eram batizadas “confessando os seus pecados” (Mt. 3:6). Ora, os primeiros cristãos, assim como os atuais, acreditavam que Jesus jamais cometeu qualquer pecado, mas que era o santo Filho de Deus. Os quatro evangelhos mencionam o batismo de Jesus por João Batista (o Evangelho de João o menciona apenas indiretamente), mas somente Mateus dá uma explicação parcial.

MATEUS 3
14
Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?
15 Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.

Jesus, embora não tivesse pecado a — e isso está implícito tanto na pergunta de João quanto na resposta de Jesus —, deveria cumprir “toda a justiça”. O significado mais óbvio seria o de que ser batizado era uma forma de obediência que deveria ser praticada por Jesus. A ligação entre a justiça e a obediência aos mandamentos é vista, nesse mesmo Evangelho, em Mt. 5:19,20 (cf. 6:33; 21:32), e tem certas raízes no Antigo Testamento.

Mas isso não responde muitas coisa. Afinal, não havia um comando na Lei de Moisés que implicasse na necessidade de um batismo, muito menos para um santo. A resposta de Jesus, talvez compreensível para João Batista ou para os primeiros leitores de Mateus, não é inteiramente clara para o leitor contemporâneo.

Eu penso que a resposta para essa questão aparece quando consideramos o papel do batismo no judaísmo da época de Jesus e entre os discípulos de João Batista. É fato que o Novo Testamento usa a palavra grega baptismos (dat. baptismois) com referência às abluções e purificações rituais praticadas pelos judeus  (Hb. 9:10). Do mesmo modo, o batismo de João Batista é ligado em Jo. 3:25,26 ao ritual judaico de purificação. É natural que o ritual de João Batista fosse imediatamente compreendido pelos judeus, não apenas por conta do simbolismo natural da água, mas principalmente porque de certo modo eles também batizavam (mikveh), embora no batismo de João uma certa nota importante fosse adicionada: era um batismo “de arrependimento”. Não era uma simples purificação de uma “imundícia” contraída; o que estava em jogo era uma mudança de vida.

Esse batismo era uma preparação para a chegada do Senhor, conforme os quatro evangelhos atestam. Os judeus precisavam de arrependimento e de perdão para se encontrarem com o seu Senhor. Assim como João Batista, os judeus praticavam (e praticam) o batismo de conversão, mas ele era restrito aos não judeus que aderiam à religião judaica; judeus de nascimento não precisavam passar por esse tipo de ritual de conversão. O que havia de bastante escandaloso no batismo de João, quando comparado a esse batismo judaico, era que ele era voltado para os judeus. Era natural que a reação deles fosse “Temos por pai a Abraão” (Mt. 3:9; Lc. 3:8), pois os filhos de Abraão —  os judeus — não precisavam passar pelo batismo judaico. De certo modo, João como que lhes dizia: “Não são os gentios —  goyim —, mas vocês, que precisam de arrependimento”. Era um insulto às prerrogativas étnicas e religiosas dos seus irmãos judeus!

Algo mais pode ser dito sobre a compreensão do Batista sobre seu batismo. Sabe-se que, como parte do seu rigor quase fanático (Mt. 11:38; Lc. 7:33), João e seus discípulos praticavam o jejum (Mc. 2:18); Lucas acrescenta a nota de que eles jejuavam “muitas vezes” (Lc. 5:33). No Antigo Testamento e na tradição profética da qual João Batista era herdeiro, o jejum, ligado a outros símbolos (vestes de saco, cinzas, pranto etc.), era uma forma coletiva de demonstração de penitência, com raras exceções (cf. Et. 4:16). Israel pedia perdão a Deus através do jejum. O caso mais famoso, penso, é o do arrependimento de Nínive no livro de Jonas. Esses jejuns não eram disciplinas espirituais de “mortificação” individual; eram proclamados para serem seguidos por todo o povo como modo coletivo de invocar o perdão de Deus para Israel.

Essa ligação entre o jejum e a ausência de Deus está presente inclusive na parábola de Jesus na qual explica por que seus seguidores não jejuavam: ele estava presente (Mc. 2:19,20); tratava-se, portanto, de um tempo de alegria, não de tristeza.

Como sabemos por livros pós-exílicos, como Neemias ou Daniel, tornou-se a prática dos judeus confessar e pedir perdão pelos pecados “dos nossos pais”, pois fora em razão desses pecados que Israel havia sido punido com Exílio, do qual se recuperaria geograficamente, mas não espiritualmente. O jejum seguia basicamente essa mesma lógica, participando dele mesmo aqueles que não haviam pecado diretamente.

Se João e os seus discípulos praticavam o jejum como parte dessa mesma penitência contra o pecado de Israel, contra o Exílio espiritual vivido, e como preparação para a presença do Senhor, é natural que o batismo fosse entendido do mesmo modo, como uma forma de arrependimento e purificação de toda a nação, ainda que houvesse confissão de pecados particulares. Por isso, ao se batizar, Jesus confessava implicitamente não os seus pecados, mas os de Israel.

G. M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s