Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas

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“Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14:10-12)

Embora as Sagradas Escrituras, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, repetidas vezes mencione o juízo escatológico, no qual os vivos e os mortos comparecerão ante o tribunal de Deus para serem julgados segundo as suas obras (cf. Mt. 16:24-27; Rm. 2:4-10; Ap. 20:12-15), recebendo por elas o seu destino eterno, esse tema perdeu vigor na linguagem teológica protestante no século XX, recuperando-se apenas através dos esforços renovados de biblistas.

Esse desaparecimento se deve, talvez, a um racionalismo simplista no que tange à doutrina da Justificação pela Graça por meio da Fé em Cristo, mas tenho a impressão de que o avanço do dispensacionalismo na teologia americana tenha tido um grande papel. A doutrina dispensacionalista atribui às obras, no juízo vindouro, o papel de “galardões”, prêmios menores sem qualquer relação com a salvação. Ora, se a mensagem cristã é mensagem de salvação, naturalmente um juízo vindouro que diga respeito a algo inferior à salvação naturalmente cairia fora. No lugar do “vir a julgar os vivos e os mortos” se coloca um “arrebatamento secreto” com função semelhante.

Aos interessados que possam ler em inglês, recomendo o artigo de Rich Lusk, o qual mostra como os primeiros teólogos da tradição reformada/calvinista pregavam, além da Justificação pela Fé Somente (a justificação presente do pecador), uma segunda Justificação Final (a justificação futura do justo), pelas obras (leia aqui). Mas não é preciso ir tão longe, pois os documentos de fé das primeiras igrejas protestantes atestamconfessam o juízo vindouro segundo as obras.

1. O Credo Atanasiano (Luteranismo, Anglicanismo)

O Credo de Atanásio — mais corretamente chamado Credo Atanasiano, posto não ter sido elaborado por Atanásio —, cuja função é explicar a “fé católica” a quem quiser (quicunque vult) ser salvo, gasta-se quase todo na afirmação dos dogmas da Trindade e da União Hipostática, incorporando a história de Cristo e, portanto, o juízo vindouro. Embora tanto o Símbolo Apostólico (Credo Apostólico) e o Credo de Nicéia nos digam que Cristo virá para julgar os vivos e os mortos, eles não nos dizem nada sobre como se dará esse julgamento, o Credo Atanasiano diz o suficiente em seu final:

40. Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
41. Em cuja vinda todos os homens ressuscitarão com os seus corpos,
42. Para prestar conta dos próprios atos.
43. E os que fizeram o bem irão para a vida eterna; e os que fizeram o mal, para o fogo eterno.

Nesse momento, o credo alude a João 5:27-29: “E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem. Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação.”

O Credo Atanasiano é reconhecido como documento normativo nas tradições luterana e anglicana. No luteranismo, ele é parte do Livro de Concórdia, uma seleção de textos de fé normativos para essa tradição protestante; o art. XVII da Confissão de Augsburgo se refere ao retorno para julgamento, mas não é tão explícito ao modo de julgamento quanto o Credo Atanasiano.

No anglicanismo, por sua vez, ele é explicitamente nomeado nos 39 Artigos de Religião, especificamente no art. VIII, que diz (com minha ênfase): “THE Three Creeds, Nicene Creed, Athanasius’s Creed, and that which is commonly called the Apostles’ Creed, ought thoroughly to be received and believed: for they may be proved by most certain warrants of holy Scripture.” (fonte aqui)

2. Confissão Belga (Igreja reformada continental)

O Art. 37 da Confissão Belga chama-se “O Juízo Final” (leia aqui). Em um dos seus parágrafos, nos diz como ocorrerá esse julgamento na vinda de Cristo (com minha ênfase):

“Então, se abrirão os livros e os mortos serão julgados (Apocalipse 20:12), segundo o que tiverem feito neste mundo, seja o bem ou o mal (2Coríntios 5:10). Sim, “de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta” (Mateus 12:36), mesmo que o mundo a considere apenas brincadeira e passatempo. Assim será trazido à luz diante de todos o que os homens praticaram às escondidas, inclusive sua hipocrisia.”

Como título confissão de fé da tradição calvinista, ela garante que esses “tiverem feito o bem” foram “eleitos”, e em um artigo anterior (23) esclarece que jamais deve haver qualquer confiança nos próprios méritos ou obras, mas apenas na justiça recebida de Cristo, de modo que “se tivéssemos que comparecer perante Deus, apoiando-nos, por pouco que fosse, em nós mesmos ou em qualquer outra criatura – ai de nós -, pereceríamos”. As boas obras são realizadas não para termos um merecimento, mas porque somos devedores, de maneira que “nelas não fundamentamos nossa salvação”. Portanto, o juízo final pressupõe o perdão recebido em Cristo, de maneira que nenhum “bem” feito é considerado fora de Cristo.

3. Confissão de Fé de Westminster e derivadas (Igreja reformada inglesa: presbiterianos, congregacionais e batistas)

A Confissão de Fé de Westminster (1646), inicialmente elaborada para ser uma confissão de fé da Igreja Anglicana, foi abraçada pela Igreja da Escócia (presbiteriana) e, com várias modificações, foi adotada também pelos congregacionais (Declaração de Savoy, 1658) e batistas (Confissão de Fé Batista de Londres, 1689). Uma tabela comparativa do texto em língua inglesa de cada confissão, muito útil, pode ser vista aqui.

O último capítulo de cada uma dessas confissões é dedicado ao Juízo Final. Embora haja várias diferenças teológicas nessas confissões, especialmente em eclesiologia e sacramentologia, como seria de se esperar, as diferenças no último artigo (CFW XXXIII / DS XXXII / CFBL XXXII). O capítulo inteiro na CFW é este (com ênfase minha):

I. Deus já determinou um dia em que, segundo a justiça, há de julgar o mundo por Jesus Cristo, a quem foram pelo Pai entregues o poder e o juízo. Nesse dia não somente serão julgados os anjos apóstatas, mas também todas as pessoas que tiverem vivido sobre a terra comparecerão ante o tribunal de Cristo, a fim de darem conta dos seus pensamentos, palavras e obras, e receberem o galardão segundo o que tiverem feito, bom ou mau, estando no corpo.
II. O fim que Deus tem em vista, determinando esse dia, é manifestar a sua glória – a glória da sua misericórdia na salvação dos eleitos e a glória da sua justiça na condenação dos réprobos, que são injustos e desobedientes. Os justos irão então para a vida eterna e receberão aquela plenitude de gozo e alegria procedente da presença do Senhor; mas os ímpios, que não conhecem a Deus nem obedecem ao Evangelho de Jesus Cristo, serão lançados nos eternos tormentos e punidos com a destruição eterna proveniente da presença do Senhor e da glória do seu poder.
III. Assim como Cristo, para afastar os homens do pecado e para maior consolação dos justos nas suas adversidades, quer que estejamos firmemente convencidos de que haverá um dia de juízo, assim também quer que esse dia não seja conhecido dos homens, a fim de que eles se despojem de toda confiança carnal, sejam sempre vigilantes, não sabendo a que hora virá o Senhor, e estejam prontos para dizer – “Vem logo, Senhor Jesus”. Amém.

Assim como a Confissão Belga, os salvos estão de antemão predestinados, de maneira que o poder de realizar boas obras “provém inteiramente do Espírito de Cristo” (cap. XVI). Ademais, não podemos “merecer da mão de Deus perdão de pecado ou a vida eterna”, afinal, enquanto são nossas, essas obras não podem jamais “suportar a severidade do juízo de Deus”.

Se é assim, como pode essa mesma confissão dizer que haverá um juízo segundo as obras, visto que, sendo incapazes de suportar a severidade do juízo divino, as obras dos “eleitos” e dos “condenados” seriam a mesma coisa? A própria confissão responde (com minha ênfase):

“Não obstante o que havemos dito, sendo aceitas por meio de Cristo as pessoas dos crentes, também são aceitas nele as boas obras deles, não como se fossem, nesta vida, inteiramente puras e irrepreensíveis à vista de Deus, mas porque Deus considerando-as em seu Filho, é servido aceitar e recompensar aquilo que é sincero, embora seja acompanhado de muitas fraquezas e imperfeições.”

Em outras palavras, a Confissão, embora rejeite a noção de mérito em si mesma, endossa o princípio subjacente à noção católica romana de mérito condigno, ou seja, a idéia de que as nossas obras, não consideradas em si mesmas (ou em nós), mas consideradas em Cristo, têm um valor que Deus leva em conta. Noutras palavras: Deus julgará o mundo, mas somente aqueles que estão em Cristo (os eleitos) poderão ter suas obras aceitas e cobertas, em suas imperfeições, pelo perdão divino, enquanto as obras dos réprobos receberão inteiramente uma severidade implacável. O Juízo Final segundo as obras só faz sentido à luz da misericórdia divina.

G. M. Brasilino

15 comentários em “Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas

  1. Bom dia, irmão.

    Eu sempre recebo seus artigos em meu e-mail e sempre que posso o leio todos. No entanto, até porque eu não sou tão avançado nas letras ou ainda mais no conhecimento, encontro dificuldades para entender no que o senhor acredita quando expõe os pensamentos de vários autores. Para mim, se houvesse tal distinção (ou talvez, como eu já disse antes por minha falta de tino com as letras e dificuldade para distinguir no que o senhor acredita diante do que expõe) eu poderia compreender melhor. Ah, irmão, a respeito desse estudo, espero ter compreendido, pela graça do Eterno Pai, que a última confissão exposta sobre o julgamento das obras seja aquela que é vista pela misericórdia de Deus em Cristo aplicada aos crentes. Pois, enquanto lia desde o inicio os argumentos usados pelas outras confissões, em mim mesmo sentia a condenação de Deus, pois não encontro em minhas obras nenhuma sequer que se sustentaria diante Dele naquele Dia. No entanto, quando li que “Deus julgará o mundo, mas somente aqueles que estão em Cristo (os eleitos) poderão ter suas obras aceitas e cobertas, em suas imperfeições, pelo perdão divino, enquanto as obras dos réprobos receberão inteiramente uma severidade implacável. O Juízo Final segundo as obras só faz sentido à luz da misericórdia divina”, minh’alma se aquietou e repousou na fé em Cristo, pois quero crer (e creio) que só Nele eu vou conseguir a justificação, mesmo no dia que terei que prestar contas de todas as minhas ações, pensamentos e palavras.

    Peço compreensão e compaixão e que, se lhe aprouver, me exponha ainda mais essas verdades. Agradeço muito a Deus pela sua vida.

    Desde já,
    Graça e Paz no Senhor Jesus.

    Curtido por 1 pessoa

    1. O correto sentimento cristão é aquele de Sl. 143:2: “E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente.”

      Por isso, a única esperança para a vida eterna é a misericórdia divina, como se lê em Jd. 21.
      Compare Mt. 5:7; Tg. 2:13.

      Em Cristo,
      Gyordano

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    1. A vontade de Deus é a salvação através da pregação do Evangelho (1Co. 1:21). Não obstante, pessoas de todos os povos, tribos, línguas e nações serão salvas em Cristo (Ap. 5:9,10; 7:9), e parece que nem todas elas ouviram o anúncio do Evangelho. Alguns povos deixaram de existir sem que o Evangelho penetrasse neles, a menos que tenha havido alguma revelação direta de Cristo a eles.

      Tendo em vista que (1) a salvação se dá unicamente pela graça de Cristo e (2) a tese do inclusivismo não pode ser provada definitivamente pela Revelação, ela deve permanecer apenas como uma hipótese com a qual não podemos contar.

      Ademais, existem várias versões do inclusivismo, algumas mais próximas do exclusivismo, outras mais próximas do pluralismo.

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  2. Desculpe minha ignorância, então esses galardões pelas boas obras não tem efeito nenhum? Esses galardões são o quê, pra quê? Agora me enrolou.

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  3. Cada texto seu que leio com a bíblia procurando entender, fico preocupado o quanto débil estou sendo por causa que o que ouço na igreja tinha como certo. Aprendi que no julgamento dos crentes, será galardoado aqueles que fizeram mais boas obras para o reino então, quem fez mais, um galardão melhor, esse galardão seria talvez uma autoridade para julgar as nações, pessoas, que não foram arrebatadas passaram pela tribulação aceitaram Cristo e tiveram essa chance. Agora vejo que é uma confusão, então Gyordano existe esses galardões? Pra que serve?

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  4. Qual sua opinião acerca das orações feitas pelos falecidos ofertada durante a Eucaristia, no âmbito da temática do seu texto?

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      1. Ah sim. Obrigado pela resposta. Outra pergunta se não for muito incômodo:

        O sr. acha plausível que Paulo tenha orado por Onesíforo, estando este já falecido?

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      2. É plausível, sim, mas a oração do apóstolo Paulo torna a morte de Onesíforo irrelevante. Ele ora para que haja misericórdia “naquele dia” (o dia escatológico, o juízo final), ou seja, para que algo aconteça num futuro em que a maioria de nós já terá morrido. Se Onesíforo estava morto, é irrelevante, pois ele estará morto quando o dia chegar.

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