Três eclesiologias: Westminster, Savoy, Londres

igreja-invisivel

“Assim também, enquanto ela é uma estranha no mundo, a cidade de Deus tem em sua comunhão, e vinculados a ela pelos sacramentos, alguns que não habitarão eternamente no destino dos santos.” (Agostinho, Cidade de Deus)

Eu não considero a distinção entre Igreja visível e Igreja invisível útil. Afinal, é uma distinção que a própria Escritura não faz, uma distinção que foi desnecessária por séculos e, parece-me, gera mais confusão do que compreensão sobre o papel e a importância da Igreja, especialmente em um contexto de cristandade dividida. Mas há maneiras diferentes de encarar essa distinção, e parece-me que as confissões reformadas deixam transparecer essas diferenças teológicas.

A comparação entre as confissões de Westminster, Savoy e Londres é útil porque, como já dito em um texto anterior (leia aqui), elas se copiaram: Savoy copiou Westminster, e Londres copiou ambas. Como era de se esperar, as confissões trazem os traços das três principais tradições dissidentes inglesas: presbiterianos, congregacionais e batistas. Entretanto, a doutrina da Igreja — a eclesiologia —, apresentada nessas confissões traz algumas surpresas interessantes, e uma delas é o modo como essas confissões tratam a distinção visível-invisível.

Embora Westminster e Savoy carreguem o traço claro do puritanismo, a distinção aparece talvez de modo muito mais “conservador” em Westminster, com maior identidade com a eclesiologia pré-Reforma, certamente mais “realista” ou “objetiva”.

O artigo/capítulo sobre a Igreja é o XXV em Westminster, XXVI em Savoy e em Londres. As três confissões identificam a “Igreja católica ou universal” com os eleitos, cujo número é conhecido apenas por Deus, e é a partir dessa noção que a distinção visível-invisível se torna possível; afinal, sabe-se que nem todos os que estão visivelmente vinculados à Igreja são eleitos de Deus. A Igreja invisível são os eleitos; a Igreja visível inclui também outros que estão de algum modo vinculadas à Igreja, mas acabarão por se perder.

Em seguida, as coisas começam a ficar diferentes.

Para a confissão de Westminster, a “Igreja católica ou universal” também é a Igreja visível: todos aqueles, em todo o mundo, que professam a religião cristã, juntamente com seus filhos. Essa Igreja visível é o Reino de Jesus Cristo, e fora dela não há “possibilidade ordinária de salvação” (extra ecclesiam nulla salus, qualificado). A essa Igreja visível Deus confiou o ministério, os oráculos e ordenanças, que se tornam eficazes por sua presença e Espírito. Essa Igreja tem sido mais ou menos visível, mais ou menos pura, em épocas e lugares diferentes, havendo sempre mistura e erro; às vezes o erro é tão grande que essas igrejas particulares podem aparentemente deixar de ser igrejas. Não obstante, haverá sempre uma Igreja na terra, cujo cabeça é Jesus. Assim confessam os teólogos de Westminster.

A Declaração de Savoy acrescenta bastante coisa. É notável que no texto deste capítulo a palavra “igreja” apareça com “i” minúsculo, diferentemente de Westminster. Embora ela de certo modo concorde com Westminster que são membros dessa Igreja visível todos os que, em todo o mundo, professam fé e obediência, uma qualificação é posta: apenas se esses homens não destroem sua própria profissão por erros ou impiedade de conversação. Enquanto Westminster é objetiva, englobando todos os cristãos professos na Igreja visível (com graus distintos de pureza), Savoy abre a porta para que grupos distintos, considerados heréticos pelos congregacionais, não sejam considerados parte da Igreja visível de maneira alguma.

Mas a maior diferença vem em seguida, ainda no segundo parágrafo: para a Declaração de Savoy, essa Igreja visível não recebe de Cristo nenhuma ordenança, nem tem quaisquer oficiais governantes; toda autoridade dos ministros particulares se dá no contexto das congregações individuais. Igrejas particulares (congregações) têm autoridade, mas não a igreja como um todo. A Declaração de Savoy elimina da Confissão de Westminster a palavra “aparentemente”: as igrejas particulares podem se tornar tão impuras a ponto de deixarem de ser igrejas. Onde Westminster disse que Deus teria sempre uma Igreja na terra, Savoy nos diz que haveria sempre um “reino visível” na terra, evitando qualquer conotação de uma instituição unificada.

Assim, enquanto em Westminster a tendência é a da identificação entre a Igreja visível e a invisível, sendo de fato dois aspectos de uma mesma coisa (a Igreja católica), em Savoy a tendência é separar esses dois conceitos. Não há menção, portanto, a à necessidade da Igreja visível para a salvação, como se diz em Westminster.

A Confissão de Londres apenas continua essa tendência de pulverização: nela não aparece qualquer  “igreja visível”, mas apenas “santos visíveis” — cristãos professos que não destruam suas profissões, como em Savoy — e suas congregações. Ao invés de um “reino visível”, o 3º parágrafo do cap. XXVI da Confissão de Londres diz que Cristo terá sempre “um reino” na terra, isto é, “santos visíveis”, mas não uma Igreja ou igrejas.

Um detalhe importante sobre a confissão batista é que, em vários momentos, ela substitui a palavra “Igreja” por “igrejas”. A eliminação da “igreja visível”, o modo como o primeiro parágrafo atenua a “igreja invisível”, mostra como essa distinção, levada ao extremo, toma uma forma totalmente distinta, afeita a um certo donatismo latente: parece que a Igreja de Cristo, visível, são apenas os santos que visivelmente se mostram santos, e esses mesmos são a Igreja invisível. A crítica aos “falsos” cristãos (ou falsas igrejas) constitui agora sua excomunhão ipso facto, ou ao menos sua desconsideração.

Parece-me — arrisco o palpite — que o propósito da distinção visível-invisível na Confissão de Westminster é apenas sublinhar a diferença espiritual entre o joio e o trigo (conhecidos apenas a Deus) dentro do reino de Cristo. No paradigma de Savoy e Londres, o propósito parece ser o de justificar o tipo de governo eclesiástico das tradições que as produziram, que é visivelmente fragmentário e que, por isso, necessita de uma unidade eclesiástica subjacente invisível. No paradigma de Westminster, é possível advogar a necessidade de maior unidade visível entre os cristãos; no paradigma de Savoy e Londres, essa unidade já existe, e não é possível buscar mais do que uma fraternidade visível. As três confissões surgiram em um contexto de cristandade dividida, mas parece que enquanto o espírito por trás de Westminster é, em princípio, aberto ao mea culpa, para Savoy e Londres parece dominar muito mais o nulla culpa.

G. M. Brasilino

Um comentário em “Três eclesiologias: Westminster, Savoy, Londres

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s