Dois mitos sobre os livros deuterocanônicos

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“Deste modo, raciocinam os maus, mas eles estão enganados; estão cegos por causa da sua maldade” (Sabedoria 2:21)

As pessoas raramente sabem do que estão falando quando opinam sobre algo que escapa a a experiência (imediata). Também acontece de estarem erradas sobre aquilo que é de sua experiência; ainda assim, surpreende o abismo que há entre o desejo de opinar e o interesse de buscar os fatos na sua raiz.

Nos debates entre católicos romanos e protestantes, esse “desinteresse radical” se manifesta na forma de mitos popularizados que tornam inviável qualquer debate e mostram, da pior forma possível, como a falta de qualquer compromisso com a humildade — que é outro nome para o amor à verdade — pode se travestir de defesa da verdade.

Em homenagem ao mês de comemoração aos 499 anos da Reforma Protestante, eu escrevi dois artigos sobre temas que considero relevantes para a compreensão do papel, propósito e fracasso da Reforma proposta para a Igreja Romana: o primeiro deles sobre uma questão em que, se não há identidade dogmática, pode ao menos haver uma convergência de preocupações e intenções — a da dupla justificação (leia aqui); o segundo deles sobre a doutrina da Igreja invisível (leia aqui), freqüentemente usada como instrumento na polêmica de protestantes contra católicos romanos. A maioria das discussões populares entre católicos romanos e protestantes ignora essas sutilezas. Vencer a ignorância obstinada implica em eliminar certos mitos repetidos em cada lado.

O primeiro mito é o de que os livros deuterocânonicos (ou apócrifos) foram incluídos por Roma no cânon bíblico após o Concílio de Trento. Para quem tenha lido os Pais da Igreja ou os Escolásticos, é óbvio que isso seja uma mentira grossa. A freqüência com que esses livros são citados como Sagrada Escritura é grande, especialmente Sabedoria e Eclesiástico, muito antes da Reforma Protestante. Obviamente, esse mito é repetido por protestantes, mas não pelos primeiros protestantes. Certamente não foram os reformadores que inventaram esses mitos, e é muito fácil provar isso — tem a ver com o segundo mito.

Esse segundo mito é o de que Lutero tirou os livros deuterocanônicos da Bíblia. Esse mito é repetido por muitos dos católicos romanos mais ignorantes. Obviamente alguém que repete esse mito nunca abriu a Lutherbibel. Quem a abrir se surpreenderá em encontrar os livros deuterocânonicos lá, sob a alcunha de “Apócrifos” (veja aqui o texto da revisão de 1545).

Lutero não estava isolado. As edições protestantes das Sagradas Escrituras dos séculos XVI e XVII — como Liesveldt (1526), Zurique (1530), Coverdale (1535), Olivetán (1535), Matthew (1537), Great Bible (1539), Genebra (1560), Bíblia dos Bispos (1568), Reina (1569), Reina-Valera (1602), King James (1611), Statenvertaling (1637) — traziam esses livros.

Obviamente esses livros deuterocanônicos passaram ter um espaço próprio, separado, identificados como “apócrifos”. Assim, os protestantes dos dois primeiros séculos da reforma adotaram posições próximas às de Jerônimo (c. 347–420) ou Atanásio (c.296–373), ainda que usassem a palavra “apócrifo” de outra maneira. A Bíblia incluia mais que o cânon; havia uma parte principal, o cânon, mas também outros livros que poderiam ser úteis.

Essa posição é curiosamente distinta da dos católicos romanos e protestantes atuais, que concordam em que a Bíblia é o cânon (para os primeiros, o cânon é protocânondeuterocânon; para os últimos, apenas o protocânon, ou cânon hebreu). Havia divergência sobre a leitura desses livros na Igreja; o lecionário da Igreja da Inglaterra incluia provisão para a leitura litúrgica, enquanto nas igrejas puritanas a tendência era a leitura para edificação pessoal, não litúrgica.

Embora a polêmica tenha levado esses livros ao desuso no protestantismo popular, ele é parte essencial do estudo acadêmico das Escrituras. A exegese do Novo Testamento não é possível sem o estudo dessa literatura intertestamentária importantíssima; provavelmente não se encontrará um manual de Teologia do NT, católico romano ou protestante, que não faça referência a esses livros. Afinal, os autores do Novo Testamento conheciam e aludiam a esses livros.

O que me aprece é que os primeiros reformadores defendiam posturas doutrinais complexas, difíceis de serem articuladas e preservadas, e que sua popularização acabou forçando essas posturas se simplificarem. Isso acontece na teologia reformada do Juízo Final segundo as Obras, nas diferentes tendências da doutrina da Igreja invisível, e acontece também com respeito ao cânon sagrado. Nessa simplificação, essas posturas não poderiam pender para o lado romano, em razão do conflito eclesiástico, e por isso acabaram pendendo na outra direção.

G. M. Brasilino

5 comentários em “Dois mitos sobre os livros deuterocanônicos

  1. Parabéns pelo artigo, sou fã de seus comentários.
    Sugiro duas correções: no 4o.parágrafo colocar “Escolático” no plural devido a concordância nominal com a artigo plural predecessor “os”. E no parágrafo seguinte em relação aos “Apócrifos”, com a locução “sob algunha”, creio que você quis dizer “sob alcunha”…

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  2. Brasilino, excelentes artigos, sempre. Obrigado por contribuir para o Reino.

    As diferenças, às vezes, entre C.R e Protestantes me incomoda. Levantar a bandeira de Paulo ou de Pedro é temerário.

    Logo, procuro estudar, sem hastear bandeira, não por omissão, mas para preservar a minha alma. Afinal, darei conta de cada palavra.

    Uma curiosidade tenho: de onde busca informações tão valiosas. Como é difícil encontrar literatura imparcial, mas tão somente focada na verdade!

    Prossiga. Seus textos são muito edificantes.

    obrigado por tamanha colaboração.

    NEle, para Ele e por Ele!
    Emmanuel

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