Um só Batismo

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“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Efésios 4:1-6)

Um só Batismo. São três palavras (duas em grego) com um potencial incrível. Considerando Efésios como carta paulina, esse texto aponta para perspectiva interpretativa correta acerca dos diversos outros textos paulinos sobre o Batismo e os sacramentos.

Sempre que a Bíblia explica o que é o Batismo cristão, ela o associa de algum modo a alguma promessa divina, como perdão de pecados ou união com Cristo (veja exemplos aqui). Chama-se realismo sacramental a postura teológica que encara esses diversos textos com literalidade, entendendo que Deus realmente confere através do Batismo todas essas coisas — perdão de pecados, união com a morte e sepultamento de Cristo, incorporação em Cristo, adoção. Realismo sacramental é um modo contemporâneo de dizer aquilo que as teologias patrística, escolástica e reformada confessional diziam: que os sacramentos são meios visíveis (sinais e selos), instituídos por Cristo, no qual Deus comunica a graça invisível.

Em oposição a essa interpração está quem nega haver qualquer vínculo entre o Batismo e essas promessas divinas; os sacramentos não seriam meios de graça. O que essa interpretação faz com textos como At. 2:38, Rm 6:3-7, 1Co. 12:13, Gl: 3:26-28, Cl. 2:11,12 ou 1Pe. 3:20,21? A estratégia “anti-sacramental” é fazer uma distinção de “batismos”: existiria o “batismo em águas” e o “batismo no Espírito Santo” (ou “batismo em Cristo”). O batismo em águas seria o sacramento do Batismo, que não teria nenhuma eficácia própria; o outro seria um batismo invisível, recebido na “conversão” (ou em algum momento posterior), o qual teria poderosa eficácia espiritual, mas nenhuma ligação com a água.

Essa estratégia é em si mesma problemática para um protestante, pois leva à conclusão de que a Bíblia não ensina coisa alguma acerca do significado do Batismo; deixa apenas a ordem de batizar em Mt. 28:19, e exemplos de batismos, mas não haveria um ensino explicito sobre o sentido do rito. Nessa perspectiva, é natural que o Batismo acabe sendo chamado de “ordenança”, visto que, feito este corte, somente resta a “ordem” de batizar e situações onde ela é obedecida. Nem uma palavra sobre por que batizar.

O apóstolo Paulo jamais qualifica a palavra “batismo” em suas cartas; jamais se refere a um “tipo” de batismo diferente. Em 1Co. 12:13, quando ele diz que todos foram batizados, através do Espírito Santo, para formarem um corpo, ele usa a mesma raiz que em 1Co. 1:12-16, quando diz ter batizado algumas pessoas, e que todos estão ligados àquele no nome de quem foram batizados (Cristo). Já vi tentarem ver um “batismo em Cristo” diferente do sacramento do batismo em Rm 6:3, mas isso é apenas ignorância da expressão grega: “fomos batizados em Cristo” significa simplesmente “fomos batizados para dentro de [eis] Cristo”. Não indica um outro batismo, mas o resultado do Batismo.

Mas creio que, ao menos com respeito às cartas paulinas, o texto de Ef. 4:5 é decisivo: há tão somente um Batismo. Qualquer outra coisa que se queira chamar de batismo, não é batismo na linguagem paulina.

É óbvio que o propósito do apóstolo Paulo não é discutir com alguém que afirmasse haver dois ou mais batismos — não havia tal pessoa. A intenção do texto é explicitar o fato de que todo os cristãos receberam o mesmo Batismo; não há o “batismo desse grupo” contra “o batismo daquele grupo”, a mesma idéia que em 1Co. 1:12-16. Mas o ponto é que “um só Batismo” não é uma linguagem que alguém que acredita haver dois ou mais batismos usaria — principalmente sem especificar “qual” batismo!

Portanto, Paulo não poderia acreditar haver dois batismos, mas apenas um. Se acreditava haver apenas um, todas as referências paulinas ao Batismo o associam, de algum modo, à graça divina (perdão, justificação, união, incorporação, adoção). Isso significa que o realismo sacramental é a única forma exegeticamente válida (não impositiva) de interpretar os textos paulinos sobre o Batismo.

Isso naturalmente levanta algumas perguntas sobre textos não-paulinos, como At. 19:1-6 ou Hb. 6:2, mas esses textos são facilmente explicáveis pelo fato de que os batismos judaicos — os da lei (baptismois segundo Hb. 9:10) e o de João Batista — não eram ritos cristãos, e por isso estão ipso facto excluídos da realidade eclesial de Ef. 4:1-6.

G. M. Brasilino

5 comentários em “Um só Batismo

  1. Muito interessante. Realmente não há como desacreditar o batismo como meio de graça e interpretar a posição de Paulo sobre o batismo adequadamente.

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    1. Ainda assim há quem tente. Eu sou um grande fã da “Teologia do Apóstolo Paulo” de James Dunn, ele acerta muito onde outros erram, mas nesse ponto ele fracassa miseravelmente. Nesse ponto, críticos dele como Peter Stuhlmacher, por quem eu não tenho nenhuma admiração, acertam.

      É engraçado que muitos reformados não prestem atenção nesse ponto tão claro na Confissão e nos Catecismos de Westminster.

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  2. Brasilino, nasci em uma igreja pentecostal que conhece pouco da Bíblia e valoriza mais as “revelações” dos pregadores do que a própria Escritura.
    Uma das características dessa igreja é a crença no Batismo como realmente uma realidade sacramental: eles creem que o indivíduo ao imergir na água, recebe de fato o perdão dos pecados e nasce de novo.
    Aos 13 anos eu me batizei. Porém não entendia nada de Evangelho. Não sabia nem de fato a importância da morte e ressurreição de Jesus, nem a realidade da minha pecaminosidade. Apenas sabia que precisava “fazer um concerto com Deus”.
    No dia em que me batizei, parecia que de fato algo sobrenatural havia acontecido. Aquele ato parecia que realmente tinha me conferido algo vindo do próprio Deus.Curioso é que eu só vim entender de fato a morte e ressurreição de Cristo e a perdição humana depois de uns 3 anos do meu batismo.
    Hoje eu entendo o Batismo como um rito que simboliza o novo nascimento, não um realismo sacramental. Mas confesso que isso entra em choque com minha experiência própria.
    Abraço.

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    1. Não apenas entra em choque com a sua experiência. Entra em choque com o ensinamento das Sagradas Escrituras.

      A algumas pessoas, como a você, Deus pode conceder a graça de perceber o Batismo como uma experiência especial. A maioria das pessoas não sente coisa alguma durante o Batismo, e não precisa sentir nada. O que realmente importa é o perdão dos pecados e a incorporação a Cristo.

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