Lutero e Tomás de Aquino de mãos dadas?

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“Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gálatas 5:6)

De todos os debates doutrinários que podem haver entre católicos romanos e protestantes, considero que o mais inútil é o debate sobre justificação. Não que a própria noção de justificação seja inútil, muito pelo contrário. Embora eu não considere, como muitos de tendências reformada, que a doutrina Justificação pela Graça seja o Evangelho — já que ela não se lhe dá proeminência nos Evangelhos —, ela é importante para a compreensão da salvação.

Mas o próprio debate tende a se resumir em uma disputa de palavras, de fórmulas. Um grupo prefere a fórmula “justificação pela fé (somente)”, ao passo que o outro prefere a fórmula “justificação por fé e obras”. A diferença até parece ser grande, mas não quando os partidários do sola fide reconhecem que está fé não é fé sem obras. Como toda disputa de palavras, ela se perde quando o debate foge do campo da adequação (maior ou menor) para o da identidade de grupo (nós ou eles).

A distinção entre “fé com obras” e “fé e obras” deve mesmo ser brutal.

Aliás, as diferenças se tornam ainda mais incompreensíveis quando se atenta para a doutrina reformada confessional do Juízo Final segundo as Obras (leia aqui) — na nossa época obscurecida pela doutrina dispensacionalista dos “galardões”.

Quando debatem, os dois grupos fazem questão de ver muita diferença no palavrório formulaico. Freqüentemente apegam-se a lugares distintos da Sagrada Escritura. Mas quando escrevem dentro de suas próprias comunidades, num ambiente mais pastoral, a tendência é de se minimizar as diferenças, na medida em que haja fidelidade aos dois lados do Livro.

Por isso, resolvi separar citações de Tomás de Aquino e Lutero que, parece-me, querem dizer a mesma coisa. Os comentários de ambos os autores à Carta aos Gálatas são surpreendentes, e merecem leitura e meditação de ambos os lados. São elas:

MARTINHO LUTERO:
A fé é uma obra de Deus de nós que nos muda e nos leva a nascer novamente em Deus (cf. João 1). Ela mata o velho Adão, nos torna pessoas completamente diferentes no coração, mente, sentidos e em todas as nossas capacidades, e traz consigo o Espírito Santo. Que coisa viva, criativa, ativa, poderosa é a fé! É impossível que a fé jamais pare de fazer o bem. A fé não pergunta se as boas obras devem ser feitas, mas, antes que se pergunte, ela já as fez. Ela é sempre ativa. Quem não realize essas obras está sem fé; (…) É tão impossível separar as obras da fé como separar o calor e o brilho do fogo.” (Introdução à Epístola aos Romanos)
“A fé deve, é claro, ser sincera. Deve ser uma fé que realiza boas obras através do amor. Se à fé falta amor, ela não é fé verdadeira.” (Comentário a Gálatas 5:6)

TOMÁS DE AQUINO:
“Pois as obras não são a causa pela qual alguém é justo diante de Deus; antes são execuções e manifestações da justiça. Pois ninguém é feito justo diante de Deus por obras, mas pelo hábito da fé — não adquirido, mas infuso. E portanto todos os que buscam ser justificados por obras estão debaixo de maldição, pois por elas os pecados não são removidos, nem ninguém é justificado perante Deus, senão pelo hábito da fé formado pela caridade. (Comentário a Gálatas 3:10-12)

Julgue o leitor: essas palavras, em atenção ao Texto Sagrado, não querem dizer, no fundo, a mesma coisa? Pode-se muito bem dizer que Tomás de Aquino traz a preocupação luterana de salvaguardar a primazia da fé, da qual as obras são frutos, ao passo que Lutero reserva a salvação à fé ativa, viva, operante, formada por amor, preocupação tomista. Afinal, ambas preocupações são paulinas — uma verdadeira conversão interior que seja fruto do Espírito Santo, não de labor humano, e que, não obstante, leve o homem a um labor espiritual promovido, sustentado e consumado em Cristo.

Penso que eram dois os debates de Lutero, no que tange especificamente à justificação: um debate real contra o veneno da soteriologia nominalista (Occam, Biel, Auriol), que prezava a fórmula  semipelagiana facere quod in se est (dar o seu melhor) como requisito para a graça  — fórmula que, aliás, se encontra em Tomás de Aquino, mas com um papel diferente —, com consequências nefastas para a piedade popular; o outro era o debate obtuso em torno de quais palavras descrevem exatamente a justificação. Havia, é claro, debate real (e mais importante) em torno de outras questões.

Não quero dizer, além disso, que não há diferenças no modo como os dois teólogos explicam a salvação em geral, ou a justificação em específico. Há muitas diferenças de linguagem teológica, de método — mas uma verdadeira hermenêutica do amor conduziria a uma convergência pacífica.

Obviamente, assim como Lutero não é autoridade infalível para protestantes, Tomás de Aquino não é autoridade infalível para católicos romanos, ainda que sejam autoridades reconhecidas. Mas eles talvez simbolizem o fato de que, na sua melhor forma, as diferentes tradições cristãs nas quais eles se inserem dizem, talvez, a mesma coisa.

G. M. Brasilino

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