O Massacre dos Canaanitas

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“O SENHOR é misericordioso e compassivo;
longânimo e assaz benigno.
Não repreende perpetuamente,
nem conserva para sempre a sua ira.
Não nos trata segundo os nossos pecados,
nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades.”
(Salmos 103:8-10)

A sombra da heresia de Marcião se faz presente quando o Antigo Testamento é nomeado. Fala-se com horror do “Deus do Antigo Testamento”. Com isso, quer-se dizer um que seja furioso, exigente e severo, em oposição ao amoroso e terno do Novo Testamento; um Deus distante e ritualista contra um Deus próximo e sentimental; um Deus que usa os seres humanos em oposição a um Deus que se doa aos seres humanos. Essa é uma das piores caricaturas da Sagrada Escritura.

Ainda que a nota da compaixão se faça ouvir com maior vigor na cercania da encarnação do Filho de Deus, um leitura honesta, atenta e cuidadosa do Primeiro Testamento concluirá que este representa o amor como opus proprium de Deus Javé, e sua ira e punição como opus alienum, como atividade subsidiária em relação ao seu amor — de fato, como um instrumento do seu amor pactual. O livro de Jonas satiriza precisamente a incompreensão dos hebreus quanto à primazia do amor e do perdão, que se estende além das fronteiras visíveis do povo de Deus. Se as ameaças de castigos a Israel se mostram constantes no A.T., jamais se mostram desmerecidas: afinal, a função dos profetas que as escreveram era precisamente advertir Israel de seus desvios; quando o povo ia bem, não escreviam coisa alguma. Não houvessem tantos desvios, a Escritura teria outra forma.

Igualmente, não é segredo para os leitores dos evangelhos o quão arraigadas na Escritura Hebraica estão as palavras de Jesus. Ele mesmo disse que deveríamos ler a Lei em busca do mais importante: “o juízo, a misericórdia e a fé” (Mt. 23:23). Que curioso: para Jesus, essa misericórdia está entre os principais ensinamentos da Lei! A crítica de Jesus contra os fariseus e juristas de seu tempo se pautava não em uma nova lei, mas naquela que eles tinham em mãos.

Mas se há um tema no A.T. que dá razão e munição aos marcionitas de todos os tipos, lido de modo fundamentalista, é a narrativa do massacre canaanita, a destruição anunciada ao povo canaanita no Êxodo, o ḥērem. O Êxodo não indica apenas um juízo divino sobre o povo e os deuses do Egito, do qual foram libertos os hebreus, mas também sobre os habitantes da Canaã que Deus jurou dar ao seu povo e para onde agora iam. De fato, o vínculo entre o Êxodo hebreu e o castigo divino contra os canaaneus aparece já no prenúncio feito a Abraão: os hebreus só retornariam quando “a medida da iniqüidade dos amorreus” estivesse completa (Gn. 15:16). O deuteronomista estabelece então:

Deuteronômio 7:1,2
1 Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; 2 e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas;

O texto é claro: os hebreus que se apossassem de Canaã deveriam destruir todas as pessoas naquela terra. Não deveriam ter piedade de ninguém. Uma reação natural do leitor é pensar: os canaaneus devem ter feito algo muito ruim para merecer uma punição tão dura e tão geral; a “medida da iniqüidade” deve ter se completado. Deus jamais condenaria sem justa causa. So far, so good. Mas a narrativa vai além:

Deuteronômio 20:16-18
16 Porém, das cidades destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego17 Antes, como te ordenou o SENHOR, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus, 18 para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, pois pecaríeis contra o SENHOR, vosso Deus.

Exatamente: os hebreus deveriam matar também as crianças e animais que lá estivessem. O contexto de Dt. 20 é o de leis de guerra: quando guerreassem contra outros povos cujos territórios não fizessem parte de Canaã, deveriam passar “a fio de espada” (v. 13) todos os homens, mas poderiam deixar viver “as mulheres, e as crianças, e os animais” (v. 14).

Mas com os canaaneus deveria ser diferente: nada que tem fôlego deveria viver. Crianças de colo punidas pelos pecados dos pais. Depois de condenar os canaanitas por matar seus próprios filhos (Dt. 12:31), a ordem divina seria de que os hebreus deveriam invadir Canaã e matar os filhos dos canaanitas. E a justificativa oferecida pelo texto é surpreendente: “para que não vos ensinem a fazer segundo todas as suas abominações” (v. 18). Não é fácil imaginar o modo em que crianças e animais iriam ensinar os hebreus a fazer segundo todas as abominações dos canaaneus.

Não é fácil entender, aliás, de que maneira isso pode ser minimamente justo. Não me refiro à “justiça humana”, mas a justiça divina que a própria Escritura revela: se, por um lado, Deus jamais trata o culpado como inocente (Êx. 34:7; Nm. 14:18; Na. 1:3), também é verdade que ele jamais trata o inocente como culpado:

“Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, porque não justificarei o ímpio.” (Êx. 23:7)

“Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos.” (Pv. 6:16-19)

“O que justifica o ímpio, e o que condena o justo, tanto um como o outro são abomináveis ao Senhor.” (Pv. 17:15)

A lei do talião — olho por olho, dente por dentre —, freqüentemente encarada como severa e bárbara, na realidade é uma expressão de justiça, um limite à severidade humana: não se pode punir além do delito cometido, porque também isso é punir o inocente. A responsabilidade é individual: “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez. 18:4). Essa é a maravilhosa justiça divina, e é a essa justiça que uma leitura literal da tomada de Canaã afronta.

Esse tipo de leitura, que busca encarar o Texto Sagrado à luz da natureza divina como revelada nele mesmo, é o que chamamos propriamente de leitura teológica. Esse tipo de leitura ocorre, por exemplo, quando os textos sobre o “arrependimento” de Deus — como a narrativa do Dilúvio — são postos à luz do atributo da imutabilidade divina, e por isso encarados com menor literalidade, mas não menor valor espiritual.

Eu não escrevo como certos cripto-marcionitas — ou cardio-marcionitas, tanto fezes — que dizem (ou pensam) algo como: agora que Cristo nos revelou como Deus realmente é, precisamos nos livrar do Antigo Testamento. De modo algum! Mas o Antigo Testamento precisa ser encarado na totalidade de sua mensagem, como Cristo de fato indica, e, quando encarado assim, levando em conta a “dureza dos vossos corações” (Mc. 10:5) da qual resultam “juízos pelos quais não haviam de viver” (Ez. 20:25).

Também não se pressupõe nenhum pacifismo. Embora a guerra injustificada seja má e embora a promessa bíblica — feita no Antigo Testamento, veja só — é a de no mundo redimido não haverá guerra, nem toda guerra é injustificada ou um mal em si mesma. O uso das armas feito pelos aliados contra as forças de Hitler foi legítimo e justo, uma forma de defender os inocentes contra a maldade de um tirano. Esse uso, inclusive, é sancionado pelo Novo Testamento (Rm. 13:4). Portanto, não se pressupõe aqui uma condenação absoluta da guerra.

Também não escrevo como alguém que é contra a idéia de uma punição dos pecados humanos, idéia que é, aliás, onipresente na Escritura — de Gênesis a Apocalipse —, e está nas palavras de Jesus citadas acima: juízo e misericórdia lado a lado. Quem não pune o mau não tem misericórdia pelo bom.

Mas o massacre dos canaanitas coloca um desafio moral para qualquer leitor fundamentalista: como um Deus que é sempre justo em tudo o que faz pode, em algum momento, desejar algo que é injusto? Afinal de contas, qualquer cristão (espero que qualquer ser humano) sabe que invadir uma cidade e matar todas as pessoas indiscriminadamente, inclusive crianças de colo, é uma injustiça gritante, e é injustiça com base na justiça de Deus, não apenas na nossa. Deus teria ordenado aquilo que ele proíbe em qualquer outra situação. O massacre dos canaanitas seria algo bom na narrativa deuteronômica, mas mau em qualquer outro momento idêntico.

Somente a arbitrariedade pode tornar algo bom hoje e mau amanhã, repetindo-se a mesma situação. Por isso, o último refúgio dos fundamentalistas, ao encarar essa narrativa, é o voluntarismo, que na ética se chama “teoria do comando divino”, doutrina muçulmana segundo a qual algo se torna bom ou ruim pelo simples comando divino. A vontade divina expressa, o comando, a ordem, seria o fator determinante na ética, na determinação do que é certo ou errado.

É por isso que certos apologistas cristãos, como William Lane Craig — que não age como fundamentalista em outras questões, como a interpretação da narrativa da criação no Gênesis — recorrem a esse tipo de raciocínio, que basicamente é uma petição de princípio: dizer que algo é bom ou mau simplesmente porque Deus quis é simplesmente negar a coerência de Deus com sua própria justiça.

G. M. Brasilino

4 comentários em “O Massacre dos Canaanitas

  1. G.M Brasilino, não consegui identificar direito a sua conclusão sobre o massacre nos canaanitas.

    Você fala contra uma leitura “fundamentalista” do texto. Sua conclusão é que Deus não mandou matar crianças?

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  2. Olá, Gyordano, ótimo artigo, muito bem elaborado. Apenas não ficou suficientemente claro (para mim, pelo menos) qual a sua visão sobre a matança dos cananitas. Você interpreta todos os trechos bíblicos que falam da morte dos cananitas de forma alegórica, ou seja, ninguém morreu? Ou eles mataram todos, menos crianças e animais? Ou mataram também crianças e animais, e neste caso não há nenhuma justificativa moral para o que o Deus do AT fez? Abs!

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    1. Eu não faço (não apenas no texto, mas pessoalmente) nenhum juízo sobre a historicidade do massacre. Faço apenas um juízo teológico, sobre a natureza de Deus: ele abomina a morte de inocentes. Nesse sentido, eu não posso encarar literalmente as ordens dadas por Deus para a morte de inocentes. A minha tendência é encarar essas narrativas da conquista mais ou menos na linha de 1Co. 10, como advertências para nós sobre a nossa vida espiritual.

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