Seis fatos importantes sobre a Ceia do Senhor

lutero-e-zuinglio

“Temos um altar, de que não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo.”
(Hebreus 13:10)

Há alguns meses, eu escrevi um texto acerca da irrelevância dos debates sobre a Ceia do Senhor. O propósito do texto era afirmar a ininteligibilidade das distinções entre as diversas teorias sobre a Presença Real no sacramento. As teorias não são idênticas; há diferenças substanciais. Mas não há nenhum sentindo em diferençar uma “substância sem acidentes físicos” de uma “presença espiritual”.

Resolvi então colocar nesse texto alguns detalhes sobre como a Sagrada Escritura trata o sacramento. Alguns já foram tratados em textos anteriores (aqui e aqui). Esses detalhes são importantes e, penso, não são ecoados adequadamente na Transubstanciação, no Recepcionismo (ou Presença Espiritual) e do Memorialismo.

1. PÃO: O “pão” consagrado ainda é chamado de “pão” em 1Co. 10:16,17; 11:26,28. Embora isso não negue a Presença Real de Cristo, mostra sem dúvida que chamar o pão de pão não pode ser um erro. Mas se o dogma da Transubstanciação fosse correto, o nome “pão” não poderia ser usado após a consagração.

1Co. 10:16-17: Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.

1Co. 11:26-27: Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice;

2. LUGAR: Não há sentido em falar de Presença Real, ainda que espiritual, sem falar em um “lugar”. Estar presente é estar em algum lugar. De fato, Jesus está sempre presente na reunião dos discípulos (dois ou três, Mt. 18:20). Na Eucaristia, algo diferente acontece. Na realidade, os textos bíblicos nos quais se fundamenta a Presença Real do Cristo são as palavras de instituição: Meu corpo, meu sangue.

3. MANDUCATIO INDIGNORUM: A teologia calvinista da “Presença Espiritual” é essencialmente recepcionista. Para essa doutrina, somente algumas pessoas (os salvos) recebem a Cristo no sacramento, aqueles que o recebem com fé, enquanto outras pessoas recebem apenas pão. Todas as teologias protestantes da Eucaristia enfatizam o papel da fé em receber o sacramento; mas o recepcionismo torna a presença de Cristo dependente da nossa fé. A lógica da teologia eucarística protestante é: os sacramentos só são recebidos frutiferamente se houver fé. O recepcionismo calvinista radicaliza essa noção: Cristo só está presente se houver fé; na realidade, não é Cristo que desce à terra no sacramento, mas nossa fé nos eleva ao céu por meio do sacramento. Há algo de neoplatônico em tudo isso.

Essa teologia é associada a Calvino, mas alguma forma da doutrina da recepção já havia na época de Tomás de Aquino, que busca refutá-la em seu comentário a 1Co. 11:27-34. Havia alguma diferença entre o recepcionismo de sua época e o recepcionismo calvinista: a versão mais antiga não tornava a presença de Cristo dependente da fé; Cristo apenas se “ausenta” do sacramento quando recebido indignamente. Mas o argumento proposto como refutação por Tomás de Aquino é a mesma dos luteranos: a manducatio impiorum.

Manducatio impiorum ou manducatio indignorum é a advertência do apóstolo Paulo contra comer pão e tomar o cálice indignamente; quem o faz, come e bebe condenação, tornando-se culpado do corpo e do sangue do Senhor (1Co. 11:27-30). Essa advertência não faz nenhum sentido se os “indignos” ou “sem fé” não fossem capazes de comer do pão e beber do cálice. Como alguém pode ser réu do corpo e do sangue do Senhor sem algum contato com o corpo e sangue do Senhor? Afinal: Jesus disse “Isto é meu corpo”, “meu sangue”, mesmo quando a mão do traidor estava com ele à mesa (Lc. 22:21).

1Co. 27-30: Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice; pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si. Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem.

Lc. 22:21: Todavia, a mão do traidor está comigo à mesa.”

4. EM MEMÓRIA: “Fazei isto” se refere à repetição dos atos de Jesus (tomar o pão, dar graças/abençoar, partir, dar, tomar o cálice, dar graças/abençoar, dar), não ao próprio pão e vinho, nem ao ato de comer o pão e o vinho. Eles não são “memoriais”. Quem tenta explicar o papel da Ceia do Senhor a partir de “em memória de mim” precisa ler o texto. Jesus não diz que o pão e o vinho são memoriais; diz que o pão e o vinho são o corpo e o sangue.

Os atos de Jesus repetidos pelo ministro, estes sim, são memoriais — como adjetivo, não como substantivo, como atos que relembram, e não como atos cujo único propósito é relembrar. Nesse sentido, o oficiante é, naquele momento, um símbolo de Cristo, in persona Christi.

5. MEIO DE GRAÇA: Ao contrário do que afirma o memorialismo, a Ceia do Senhor é descrita na Sagrada Escritura como um meio de graça, um instrumento divino no qual Cristo entrega a si mesmo e é recebido em fé. Pois o pão e o vinho são a comunhão no corpo e no sangue de Cristo (1Co. 10:16,17), sangue derramado “para remissão de pecados” (Mt. 26:28).

6. CONSAGRAÇÃO: O sacramento instituído por Cristo envolve uma “ação de graças” (eucharistia em grego). Mas quando oramos dando graças por um alimento, ao mesmo tempo o santificamos, isto é, consagramos (1Tm. 4:4,5). Por isso, essa mesma ação é chamada em Marcos (e em 1Co. 10:16) de abençoar. Se é assim com o que nós abençoamos para nosso alimento, quanto mais com aquele que Cristo abençoou?

1Tm 4:4,5: pois tudo que Deus criou é bom, e, recebido com ações de graças, nada é recusável, porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificado.

Mc. 14:22: E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.

1Co. 10:16: Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?

G. M. Brasilino

4 comentários em “Seis fatos importantes sobre a Ceia do Senhor

  1. Gyordano o pão servido na ceia tem que ser sem fermento? E o período para criar tem que ser mensal ou pode ser trimestral até mesmo semestral? Poderia me orientar

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    1. Jesus não estabeleceu que o pão da Ceia deve ser sem fermento, mas ele com certeza usou pão sem fermento, pois na Páscoa judaica não se come pão com fermento, e a Ceia foi instituída durante a Páscoa judaica. Além disso, a Escritura nos ensina a festejarmos a Páscoa com “pães sem fermento”, porém em sentido alegórico (1Co. 5:7-8).

      O que você quis dizer com “período para criar”?

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