Um Calvino diferente

calvino

Eu não sou calvinista. Embora concorde com os calvinistas com relação à Eleição Incondicional, não concordo com as doutrinas da Perseverança dos Santos, nem com certas formulações da Expiação Limitada, nem consigo ver como compatível com as Sagradas Escrituras que a graça salvífica seja sempre Irresistível, ainda que seja finalmente vitoriosa. Isso é minha forma de dizer: eu não sou calvinista. Não sou membro de uma comunidade calvinista. Não tenho nenhum amor particular pelo calvinismo. Não planto tulipas.

Mas admira-mo bastante de ver em Calvino elementos universais do cristianismo que se perderam conforme os séculos se passaram. Eis alguns:

1. Regeneração Batismal e Realismo Sacramental

Como os pais da Igreja e como os escolásticos, Calvino via no Batismo o “banho da regeneração” de Tito 3:5. Ao contrário do calvinismo dos séculos XIX e XX, Calvino não tinha qualquer dificuldade em ver no sacramento mais do que mero símbolo, mera representação. Os sacramentos eram meios de graça eficazes.

Institutas 4.17.1: Pois, assim como no batismo, pelo qual Deus nos regenera e nos insere na sociedade de sua Igreja e nos faz seus por adoção, assim também dissemos que ele desempenha o ofício de providente pai de família, que ministra o alimento assiduamente com que nos sustenha e conserve nessa vida à qual nos gerou por sua Palavra.

Institutas 4.15.3: Mas a este respeito temos de saber que em qualquer tempo em que formos batizados, somos lavados e purificados de uma vez para toda a vida.

Institutas 4.15.4: O pecador recebe remissão pelo ministério da Igreja; com efeito, não sem a pregação do evangelho. Mas, que pregação é essa? Que somos lavados de nossos pecados pelo sangue de Cristo. Mas, qual é o sinal e testemunho dessa lavagem, senão o batismo?

É essencialmente a mesma idéia que Calvino vê em Agostinho e cita nas Institutas 3.3.13: “foi removida a culpa no sacramento pelo qual os fiéis são regenerados”. É claro que, para Calvino, nem todas as pessoas que recebem o Batismo são regeneradas. Comentando sobre o “banho da regeneração” em Tito 3:5, ele deixa claro que os réprobos, os sem fé, não recebem essa regeneração. Há uma tendência ao equilíbrio entre a eficácia do sacramento e a fé. Ainda assim, ela é o meio pelo qual Deus regenera os eleitos.

Essa mesma teologia é ecoada no Catecismo Maior de Westminster, que fala dos “meios exteriores pelos quais Cristo nos comunica os benefícios de sua mediação (Q. 153) que são “a Palavra, os Sacramentos e a Oração” (Q. 154), definindo sacramento como “uma santa ordenança instituída por Cristo em sua Igreja, para significar, selar e conferir àqueles que estão no pacto da graça os benefícios da mediação de Cristo; para os fortalecer e lhes aumentar a fé e todas as mais graças, e os obrigar à obediência; para testemunhar e nutrir o seu amor e comunhão uns para com os outros, e para distingui-los dos que estão fora.” (Q. 162)

2. Regeneração progressiva

Calvino não prefigura a tendência puritana de ver a regeneração como um acontecimento instantâneo, algo que acontece em um só momento. Para ele, a regeneração é progressiva, perpassa toda a vida.

Institutas 3.3.9: Portanto, interpreto o arrependimento com uma palavra: regeneração, cujo objetivo não é outro senão que em nós seja restaurada a imagem de Deus, a qual fora empanada e quase apagada pela transgressão de Adão. (…) Portanto, mediante esta regeneração, somos pela mercê de Cristo restaurados à justiça de Deus, da qual havíamos decaído através de Adão, modo pelo qual ao Senhor agrada restaurar integralmente a todos quantos adota para a herança da vida. E esta restauração, na verdade, não se consuma em um momento, ou em um dia, ou em um ano; antes, através de avanços contínuos, ainda que amiúde de fato lentos, Deus destrói em seus eleitos as corrupções da carne, os limpa de sua imundície e a si os consagra por templos, renovando-lhes todos os sentimentos à verdadeira pureza, para que se exercitem no arrependimento toda sua vida e saibam que não há nenhum fim para esta luta senão na morte.

3. Juízo Final segundo as Obras

Calvino fornece a base interpretativa para a doutrina do juízo final segundo as obras conforme expressa nas confissões reformadas de Westminster, Savoy e Londres (leia aqui). Ele escreve:

Institutas 3.15.4: Com efeito, o ensino da Escritura é que nossas boas obras estão sempre salpicadas de muitas manchas pelas quais, com razão, Deus se ofende e contra nós se indigna, tão longe está de que, ou que possam reconciliar-nos com ele, ou provocar sua benevolência para conosco. Entretanto, porque as examina em função de sua indulgência, não de seu direito supremo, as aceita exatamente como se fossem as mais puras possíveis, e por isso, ainda que destituídas de mérito, as galardoa com infinitos benefícios, tanto da presente vida, quanto também da vida futura. Pois não aceito a distinção feita por varões de outra sorte doutos e pios de que as boas obras são merecedoras dessas graças que nos são conferidas nesta vida, que o único prêmio da fé é a salvação eterna, porquanto o Senhor quase sempre coloca no céu a recompensa dos labores e a coroa do combate.

Institutas 3.17.4: Portanto, confesso que às obras dos fiéis se atribuem as recompensas que, em sua lei, o Senhor prometeu aos cultores da justiça e da santidade, contudo nesta retribuição deve ser sempre considerada a causa que granjeia favor para as obras. Verificamos que, de fato, esta é tríplice. A primeira é que Deus, não olhando para as obras de seus servos, as quais sempre merecem mais reprovação do que louvor, os abraça em Cristo, e interpondo-se somente a fé, os reconcilia consigo à parte da participação das obras. A segunda, que as obras, não as estimando por sua própria dignidade, mercê de sua paterna benignidade e indulgência, lhes imprime certo valor e lhes presta certa atenção. A terceira, Deus acolhe a essas mesmas obras com perdão, sem imputar-lhes qualquer imperfeição, que de tal maneira as poluem que, de outra sorte, seriam computadas mais aos pecados do que às virtudes.

A contenda de Calvino com os “papistas”, nesses textos, não é contra a idéia de que as obras têm um papel no juízo final e na concessão da vida eterna, mas apenas contra a associação entre obras e mérito. Para Calvino, essas obras são recompensadas por Deus com base na misericórdia perdoadora de Deus, que cobre nelas todos os defeitos que as tornariam inaceitáveis se julgadas conforme a severidade divina. Uma vez que Deus retira dessas obras, por sua misericórdia em Cristo, qualquer imperfeição que nelas haja, elas são consideradas aceitáveis e tem valor diante de Deus. Por isso, essas mesmas obras são justificadas pela fé, não contradizendo o princípio Sola Fide.

Ao contrário a tendência moderna (dispensacionalista) de ver no juízo das obras apenas a concessão de recompensas não ligadas à salvação, Calvino escreve:

Institutas 3.18.2: E, com efeito, nessas próprias passagens em que o Espírito Santo promete que a glória eterna haverá de ser um galardão às obras, chamá-la expressamente herança, mostra que ela nos provém de outra parte.

Por isso, Calvino não tem nenhum problema em ver que os santos das Escrituras são chamados de “justos” em razão de suas obras:

Institutas 3.17.10: Muito menos deve inquietar-nos e causar-nos escrúpulo que os fiéis sejam, com freqüência, chamados justos na Escritura. Certamente, confesso que eles são justos em virtude de sua santidade de vida.

 

G. M. Brasilino

 

2 comentários em “Um Calvino diferente

  1. Gyordano, você disse “…não concordo com as doutrinas da Perseverança dos Santos, nem com certas formulações da Expiação Limitada, nem consigo ver como compatível com as Sagradas Escrituras.” Poderia explicar o que você discorda dessas doutrinas? Sempre ouço falar sobre ” tem que perseverar”. Por favor.

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    1. Perseverança dos Santos é a doutrina calvinista segundo a qual todos os salvos irão perseverar e nenhum deles se perderá.

      Expiação Limitada é a doutrina calvinista segundo a qual Jesus morreu apenas por um grupo limitado de pessoas (os eleitos), não por todo o gênero humano.

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