Agostinho e a Igreja invisível

agostinho-de-hipona

“Deixai-os crescer juntos até à colheita,
e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros:
ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado;
mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.”
(Mateus 13:30)

Agostinho ensinava a noção de Igreja invisível? Como expliquei num texto anterior (leia aqui), a noção de Igreja invisível pode ser tomada em direções diferentes, uma mais moderada e outra mais radical: pode-ser ver mais unidade ou mais tensão entre o visível (a instituição, a hierarquia, a membresia, o rito) e o invisível (o destino eterno). Por isso, antes de que pergunte se o Doutor da Graça apoiou ou mesmo originou a noção de Igreja invisível, é preciso afastar noções mais populares e menos elaboradas desse conceito. Trata-se de um teólogo — o maior da Igreja antiga.

Na sua versão mais moderada, a distinção entre Igreja invisível e Igreja visível é simplesmente a distinção entre aqueles que herdarão a vida eterna (desconhecidos a nós, um número invisível) e aqueles que simplesmente são membros da Igreja (conhecidos a nós, um número visível). Na versão mais radical, Cristo só está presente na Igreja invisível, que é a única e verdadeira Igreja, a única que tem um ministério válido. Trata-se de uma concepção mais concreta, objetiva, sacramental, de continuidade, e outra mais platônica, subjetiva, interior, de ruptura. Por isso, essa segunda versão é a única que aparece nos debates entre católicos e protestantes, já que é a única que serve à polêmica.

A versão moderada, curiosamente a menos platônica, parece capturar adequadamente a eclesiologia de Agostinho. Por um lado, ele — como todos os pais da Igreja — acredita que esses estão vinculados à Igreja (cidade de Deus) pelos sacramentos:

Assim também a cidade de Deus, enquanto peregrina no mundo, tem alguns, conexos na comunhão dos sacramentos, que não habitarão na herança eterna dos santos. (…) Na verdade, essas duas cidades estão confundidas neste mundo e misturadas [permixtae] até que o juízo final as separe.
(Cidade de Deus, I, c. 35)

A Igreja é um corpo misto de santos e pecadores. Mas Agostinho vai além. Em seu livro sobre interpretação, De doctrina christiana — A doutrina cristã —, Agostinho se propõe a traçar regras que, diante das dificuldades interpretativas, auxiliem os leitores de modo que eles “não precisarão de alguém para lhes descobrir o que estiver oculto. Observando certas regras, eles próprios chegarão sem erro a descobrir o sentido oculto.” (prólogo). No livro III dessa obra, Agostinho lida com o Liber regulorum do donatista Ticônio, que propôs sete regras que solucionariam todos as dificuldades de interpretação das Escrituras, mais ou menos a mesma proposta do Doutor de Hipona. Como Agostinho observa, as regras de Ticônio são boas, mas a propaganda é boa demais pra ser verdade — elas só solucionam alguns tipos de problemas.

Tendo combatido severamente os donatistas, Agostinho não hesita em chamá-lo de herege, mas faz uso de sua obra do mesmo modo como indicou o uso da ciência pagã: como ouro egípcio. A segunda regra de Ticônio é “O Corpo bipartido do Senhor” (De Domini corpore bipertito). Sobre essa regra interpretativa, Agostinho escreve:

A segunda regra é : “O Corpo do Senhor dividido em duas partes”. Na verdade, Ticônio não deveria ter empregado essa fórmula, pois não é Corpo do Senhor o que não haverá de estar com ele para sempre na eternidade [Non enim re vera Domini corpus est, quod cum illo non erit in aeternum]. Mas deveria ter dito: “O Corpo do Senhor verdadeiro e o misto” [vero atque permixto]. Ou então: “O Corpo do Senhor verdadeiro e o simulado [vero atque simulato] Ou outra expressão parecida. Pois não se pode dizer que os hipócritas estarão com ele eternamente, e nem que estejam com ele agora, parecendo estar em sua Igreja. Por isso, essa regra poderia, de preferência, ser intitulada: “A Igreja mista” [De permixta ecclesia].
Essa segunda regra exige leitor atento, já que a Escritura, quando fala a uma parte da Igreja, parece dirigir-lhe palavras que ela dirige a outra; ou bem, passa da primeira à segunda porção enquanto se dirige ainda à primeira, como se ambas partes constituíssem um só corpo, devido à sua mistura aqui na terra e à sua comum participação dos mesmos sacramentos.
(A Doutrina Cristã, III, c. 32)

Note-se: Agostinho corrige Ticônio, mas em termos que parecem incríveis: “não é Corpo do Senhor o que não haverá de estar com ele para sempre na eternidade”. Tendo em mente a doutrina agostiniana da Predestinação, essa sentença indica o mesmo que a noção de Igreja invisível para a Confissão de Fé de Westminster: na perspectiva divina, oculta aos homens, são membros do Corpo de Cristo apenas aqueles que o serão eternamente. Agostinho chega até mesmo a desafiar a distinção feita acima entre uma eclesiologia mais moderada e outra mais radical — posterior a ele em mais de um milênio, é claro — ao distingüir entre o “Corpo verdadeiro” e o “Corpo simulado”, que vivem “como se” (tamquam) fossem um só corpo.

O vínculo sacramental, constitutivo da Igreja e do qual também participam muitos réprobos, está presente tanto no trecho do De civitate dei quanto no do De doctrina christiana. Mas enquanto no primeiro Agostinho parece considerar que os réprobos vinculados à Igreja pelos sacramentos são membros temporários da Cidade de Deus, em razão dos sacramentos, no segundo ele parece considerá-los apenas membros aparentes, apesar dos sacramentos.

Agostinho ensinava a noção de Igreja invisível? De certo modo, sim. Mas ele certamente decepciona os simplistas.

G. M. Brasilino

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