Per modum exempli: Tomás de Aquino sobre Cl. 1:24

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“Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja;” (Colossenses 1:24)

Colossenses 1:24 é um texto recorrente nos debates entre católicos romanos e protestantes acerca da intercessão dos santos e do tesouro de mérito. O texto nos diz que Paulo preenche, em sua própria carne e em favor da Igreja, o que falta das aflições de Cristo. O que quer que isso signifique, não é algo que se possa ignorar.

Católicos romanos e protestantes podem concordar em que, dada a descrição paulina da Igreja como Corpo de Cristo (1Co. 12; Rm. 12), no qual o sofrimento é partilhado, Cristo sofre em todos os seus membros. O sofrimento de todos os santos de todas as épocas, de certo modo, preenche o que resta das aflições de Cristo, a saber, de tudo aquilo que Cristo sofrerá em todas as épocas. De fato, a caminhada cristã envolve a comunhão nos sofrimentos de Cristo — hē koinōnia tōn pathēmatōn (Rm. 8:17; 2Co. 1:5; Fp. 3:10; 1Pe. 4:13). Esse ponto é pacífico e pode ser visto igualmente em comentários bíblicos de origem católica romana ou protestante.

A pergunta que aqui se levanta é: Tomás interpreta Cl. 1:24 do mesmo modo que seus seguidores contemporâneos? Não é difícil demonstrar que ele pensava que os sofrimentos dos santos são válidos apenas como exemplo, solum per modum exempli. Aqui não se faz nenhum juízo sobre a teologia em geral de Tomás, ou mesmo sobre o seu tratamento em geral sobre doutrinas específicas, coisas muito além da minha capacidade; procura-se apenas demonstrar como ele encarava Cl. 1:24.

O lugar natural para procurar a interpretação que ele faz desse texto são os seus comentários bíblicos, embora sua obra sistemática, especialmente a Suma Teológica, seja de grande valia. Antes, porém, é preciso ter em mente a noção de Comunhão dos Santos, sinteticamente exposta em seu Comentário ao Credo.

A Comunhão dos Santos

Ao expor o sentido da Comunhão dos Santos — communio sanctorum — no Credo, Tomás escreve:

Deve-se saber também que não somente a eficácia da paixão de Cristo nos é comunicada, mas também o mérito da vida de Cristo. E qualquer bem feito por todos os santos é comunicado aos que estão em caridade, sendo todos um (…) Assim aquele que vive em caridade participa de todo bem realizado em todo mundo, mas mais especialmente aquele por quem é feito especificamente algum bem. (…) Portanto por essa comunhão recebemos duas coisas: a primeira é que os méritos de Cristo são comunicados a todos; a segunda é que o bem de um é comunicado a outro.

Sciendum est etiam, quod non solum virtus passionis Christi communicatur nobis, sed etiam meritum vitae Christi. Et quidquid boni fecerunt omnes sancti, communicatur in caritate existentibus, quia omnes unum sunt (…) Et inde est quod qui in caritate vivit, particeps est omnis boni quod fit in toto mundo; sed tamen specialius illi pro quibus specialius fit aliquod bonum. (…) Sic ergo per hanc communionem consequimur duo: unum scilicet quod meritum Christi communicatur omnibus; aliud quod bonum unius communicatur alteri.
Expositio in Symbolum Apostolorum

O texto parece auto-explicativo. Embora Tomás se refira a dois benefícios, é importante notar a distinção que feita entre a eficácia da paixão de Cristo (virtus passionis Christi) e o mérito de sua vida (meritum vitae Christi). Essa distinção reaparecerá, de algum modo, no comentário bíblico. Além disso, talvez o texto da Suma Contra os Gentios dê uma nova perspectiva acerca do que Tomás escreveu aí.

Comentário a Colossenses

No Comentário, Tomás levanta as possibilidades que ele observa para a interpretação de Cl. 1:24. A conjunção latina vel (“ou”) não é exclusiva, de maneira que seria possível, para o leitor, adotar ambas as posições ou apenas uma delas.

E além disso há o fruto, para que eu cumpra “o que falta nos sofrimentos de Cristo” etc. Assim dito, lido superficialmente, pode-se entender errado como se o sofrimento de Cristo não fosse suficiente para a redenção, ao qual se acrescentam como complemento os sofrimentos dos santos. Mas isso é herético, pois o sangue de Cristo é suficiente para a redenção mesmo de muitos mundos. “Ele é a propiciação pelos nossos pecados” etc. (1Jo. 2:2). Mas deve-se entender que Cristo e a Igreja são uma única pessoa mística, cuja cabeça é Cristo, cujo corpo são todos os justos: “membros do membro” (1Co. 12:27) Assim Deus ordenou em sua predestinação quanto mérito deve haver em toda a a Igreja, tanto na cabeça quanto nos membros, assim como predestinou o número dos eleitos. E entre esses méritos estão precipuamente os sofrimentos dos santos. Mas os méritos de Cristo, como cabeça, são infinitos, enquanto cada santo exibe algum mérito segundo sua medida. E assim diz “cumpro o que falta nos sofrimentos de Cristo“, isto é, de toda a Igreja, cuja cabeça é Cristo. “Cumpro“, isto é, acrescento minha medida. E tal “na carne“, ou seja, eu mesmo sofrendo. Ou acerca das paixões que faltam na minha carne. Pois o que falta é que, assim como Cristo sofreu em seu corpo, também sofresse em seu membro Paulo, bem como nos demais santos. E “pelo corpo, que é a Igreja“, que seria redimida por Cristo “Para que ele exibisse para si a Igreja gloriosa, sem ter mácula nem ruga” (Ef. 5:27). Do mesmo modo todos os santos sofrem pela Igreja, que recebe força do seu exemplo. Glosa: “ainda faltam aflições, pois o tesouro dos méritos da Igreja se completaram, nem foram cumpridos, e não estarão até o fim do mundo”. Esse tesouro é um vaso ou casa onde a pena é reunida.

Et etiam hoc fructu, ut adimpleam ea, quae desunt passionum Christi, et cetera. Haec verba, secundum superficiem, malum possent habere intellectum, scilicet quod Christi passio non esset sufficiens ad redemptionem, sed additae sunt ad complendum passiones sanctorum. Sed hoc est haereticum, quia sanguis Christi est sufficiens ad redemptionem, etiam multorum mundorum. I Io. c. II, 2: ipse est propitiatio pro peccatis nostris, et cetera. Sed intelligendum est, quod Christus et Ecclesia est una persona mystica, cuius caput est Christus, corpus omnes iusti: quilibet autem iustus est quasi membrum huius capitis, I Cor. XII, 27: et membra de membro. Deus autem ordinavit in sua praedestinatione quantum meritorum debet esse per totam Ecclesiam, tam in capite quam in membris, sicut et praedestinavit numerum electorum. Et inter haec merita praecipue sunt passiones sanctorum. Sed Christi, scilicet capitis, merita sunt infinita, quilibet vero sanctus exhibet aliqua merita secundum mensuram suam. Et ideo dicit adimpleo ea quae desunt passionum Christi, id est totius Ecclesiae, cuius caput est Christus. Adimpleo, id est, addo mensuram meam. Et hoc in carne, id est ego ipse patiens. Vel quae passiones desunt in carne mea. Hoc enim deerat, quod sicut Christus passus erat in corpore suo, ita pateretur in Paulo membro suo, et similiter in aliis. Et pro corpore, quod est Ecclesia, quae erat redimenda per Christum. Eph. V, 27: ut exhiberet ipse sibi Ecclesiam gloriosam, non habentem maculam neque rugam. Sic etiam omnes sancti patiuntur propter Ecclesiam, quae ex eorum exemplo roboratur. Glossa: passiones adhuc desunt, eo quod paritoria meritorum Ecclesiae non est plena, nec adimplebitur, nisi cum saeculum fuerit finitum. Paritoria autem est vas, vel domus, ubi pariter multa inferuntur.
— Super Epistolam B. Pauli ad Colossenses lectura, Lectio 6

As duas possibilidades levantadas são: (a) os sofrimentos constituem parte do mérito que o apóstolo Paulo (assim como todos os santos) acrescenta à totalidade da Igreja; (b) os sofrimentos constituem parte do sofrimento que faltava Cristo sofrer na carne do próprio Paulo (assim como em todos os santos).

Assim, dada a noção de Comunhão dos Santos (na qual se compartilham os méritos) e dada à conexão entre os sofrimentos do santos e o mérito da Igreja, na primeira hipótese, seria óbvio concluir que, para Tomás, os sofrimentos dos santos de algum modo trazem um mérito para toda a Igreja, beneficiando diretamente aos seus membros em particular que carecem desse mérito. Mas ele diz algo muito diferente quando comenta esse texto em dois outros lugares: no Comentário a 1 Coríntios e na própria Suma Teológica. Ele nega essa dedução, e a negação vem daquilo que ele já disse acima: a força que beneficia o restante da Igreja vem ex eorum exemplo, e não de um poder redentor comunicado.

Comentários às epístolas a Coríntios e a Suma

No início de 1 Coríntios, Paulo trata da eficácia do batismo no contexto do partidarismo presente naquela Igreja. Tomás observa que o havia entre os coríntios o erro de pensar que “havia diversos batismos, a depender do batizador” (eorum errore quod diversum Baptisma esse aestimabant secundum differentiam baptistarum), cabendo a Paulo o papel de refutar esse erro. Então escreve:

Ele o demonstra duplamente. Primeiro, da parte do sofrimento de Cristo, em cuja virtude o Batismo opera, segundo Rm. 6:3: “todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, somos batizados em sua morte”. E assim ele diz: “Teria Paulo sido crucificado por vós?”. Ou seja: São os sofrimentos de Paulo a causa da vossa salvação, de maneira que o batismo depende dele para seu poder de salvar? Ou seja: Certamente não. Tal é exclusivo de Cristo, conforme sua paixão e morte aconteceu para nossa salvação. “É necessário que um só homem morra pelo povo e não pereça toda a nação” (Jo. 11:50). “Um morreu por todos” (2Co. 5:14). Contra isso, porém, pode-se alegar o que o apóstolo disse: “alegro-me nos meus sofrimentos por vós, e cumpro, e cumpro o que falta dos sofrimentos de Cristo na minha carne pelo seu corpo, que é a Igreja”. (Cl. 1:24). Mas deve-se dizer que o sofrimento de Cristo nos foi salvífico não só como exemplo: “Também Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, para que sigamos os seus passos” (1Pe. 2:21), mas também como mérito e como eficácia, visto que por seu sangue nós fomos redimidos e santificados: “Assim Jesus sofreu fora do portão para santificar o povo pelo seu próprio sangue” (Hb. 13:12). Mas o sofrimento de outras pessoas é salvífico para nós somente como exemplo: “Se somos afligidos, é para o vosso conforto e salvação” (2Co. 1:6).

Hoc autem ostendit dupliciter. Primo quidem ex parte passionis Christi, in cuius virtute Baptismus operatur, secundum illud Rom. VI, 3: quicumque baptizati sumus in Christo Iesu, in morte ipsius baptizati sumus. Et ideo dicit numquid Paulus crucifixus est pro vobis? Quasi dicat: numquid passio Pauli causa est nostrae salutis, ut secundum ipsum Baptismus habeat virtutem salvandi? Quasi dicat: non. Hoc enim proprium est Christo, ut sua passione et morte nostram salutem operatus fuerit. Io. XI, 50: expedit ut unus homo moriatur pro populo, et non tota gens pereat. II Cor. c. V, 14: unus pro omnibus mortuus est. Sed contra videtur esse quod apostolus dicit Col. I, 24: gaudeo in passionibus meis pro vobis, et adimpleo ea quae desunt passionum Christi in carne mea pro corpore eius, quod est Ecclesia. Sed dicendum quod passio Christi fuit nobis salutifera non solum per modum exempli, secundum illud I Petr. II, 21: Christus passus est pro nobis, vobis relinquens exemplum, ut sequamini vestigia eius, sed etiam per modum meriti, et per modum efficaciae, inquantum eius sanguine redempti et iustificati sumus, secundum illud Hebr. ultimo: ut sanctificaret per suum sanguinem populum, extra portam passus est. Sed passio aliorum nobis est salutifera solum per modum exempli, secundum illud II Cor. I, 6: sive tribulamur, pro vestra exhortatione et salute.
Super I Epistolam B. Pauli ad Corinthios lectura, Lectio 2

As palavras desse comentário são decisivas para que se entenda de que modo os sofrimentos dos santos são benéficos para as outras pessoas. Tomás aqui encara o texto com posicionamento idêntico ao posicionamento protestante majoritário: nossa redenção procede exclusivamente dos sofrimentos históricos de Cristo (passio Christi), ao passo que o sofrimento de outras pessoas (passio aliorum, passiones sanctorum), como o próprio apóstolo Paulo — afinal, o Frei Tomás cita 2Co. 1:6, da pena de Paulo —, nos beneficia somente como exemplo (solum per modum exempli).

A expressão solum per modum exempli reaparece no Compendium Theologiae (cap. 231), quando nos diz que os sofrimentos e ações de Cristo foram proveitosos para a salvação, não somente como exemplo, mas também como mérito (suae singulae passiones et operationes fuerunt proficuae ad salutem, non solum per modum exempli, sed etiam per modum meriti), em óbvia crítica a soteriologia exemplarista de Abelardo. Mas se “solum per modum exempli” indica exemplarismo quando erroneamente aplicado por Abelardo a Cristo, significa também exemplarismo quando corretamente aplicado por Tomás aos santos. De fato, o que tornava os sacrifícios de Cristo salvificamente eficazes era a sua divindade (omnes eius actiones et passiones humanae virtute divinitatis salutares fuerunt), como ele também comenta no Compendium (cap. 212).

O texto de 2Co. 1:6, aliás, é uma oportunidade maravilhosa para que Tomás diga de que modo os sofrimentos dos santos são benéficos para o restante do Corpo, como comentário. Afinal, o texto diz: “Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos.” (2Co. 1:6). Paulo sofre pela salvação dos coríntios. De que maneira esses sofrimentos entram na economia da redenção? Como Tomás aproveita a oportunidade?

Primeiro sua aflição, quando ele diz: “Se nós nos atribulamos”, etc. Como se dissesse: verdadeiramente tudo o que recebemos é em vosso benefício, pois “se nós somos nos atribulamos, é para vossa exortação e salvação“, pois no nosso exemplo Deus vos adverte a suportar as aflições, o que é resulta pra vós em salvação eterna. Assim em 1Mc. 6:34 se lê que “eles mostraram aos elefantes os sucos de uvas e de amoras para incitá-los ao combate”. Isso acontece quando os mornos e preguiçosos têm os sofrimentos dos santos como exemplo. Segundo, ele mostra que sua consolação causa o bem aos demais, dizendo “se somos consolados”. Como se dissesse: nossa própria consolação, na qual nos consolamos pela esperança do prêmio, é para vossa consolação, porquanto nosso exemplo vós que, tendo a mesma esperança de prêmio, vos alegrais. Terceiro, ele mostra que a exortação que eles recebem causa o bem a outros, dizendo que se nós somos exortados, por uma inspiração interior ou por flagelos, é “para vossa exortação”, para que sejais animados a coisas maiores e espereis a salvação.

Et primo eorum tribulationem, cum dicit sive, inquit, tribulamur, et cetera. Quasi dicat: vere quidquid recipimus est in bonum vestrum, quia sive tribulamur, pro vestra exhortatione et salute, quia scilicet nostro exemplo monet vos Deus ad passionum tolerantiam, unde provenit vobis salus aeterna. Unde I Machab. VI, 34 legitur, quod ostenderunt elephantis sanguinem uvae, et mororum, ut acuerent eos ad bellum. Quod fit, quando tepidis et pigris adhibentur passiones sanctorum in exemplum. Secundo ostendit, quod eorum consolatio in aliorum utilitatem cedit, cum dicit sive consolamur. Quasi dicat: ipsa nostra consolatio, qua nos spe praemii consolamur, est ad consolationem vestram, inquantum exemplo nostro vos etiam eamdem spem praemii habentes, gaudetis. Tertio ostendit quod eorum exhortatio passiva est ad bonum aliorum, dicens sive exhortamur, per internam inspirationem vel per flagella, hoc est pro vestra exhortatione, scilicet ut vos ad maiora animemini, et salutem speretis.
Super II Epistolam ad Corinthios lectura, Lectio 3

Para Tomás, as aflições do apóstolo beneficiam salvificamente os coríntios como exemplo. A mesma idéia aparece na Suma:

Respondo que os sofrimentos dos santos beneficiam a Igreja, não como redenção, mas como exortação e exemplo, conforme 2 Coríntios 1:6: “Se nos atribulamos, é para vossa exortação e salvação.”

Ad tertium dicendum quod passiones sanctorum proficiunt Ecclesiae, non quidem per modum redemptionis, sed per modum exhortationis et exempli, secundum illud II Cor. I, sive tribulamur pro vestra exhortatione et salute.
— ST, IIIa q. 48 a. 5 ad 3

Esse trecho da suma corresponde àquilo que se lê no comentário da 1 Coríntios: os sofrimentos dos santos beneficiam à Igreja “não como redenção” (ST), não por “mérito” ou por “eficácia” (C), mas “somente como exemplo” (C), por “exortação e exemplo” (ST). Trata-se do exemplo exortador que Tomás vê quando comenta 2Co. 1:6.

Um outro texto em que se esperaria que aparecesse a associação entre o tesouro de méritos, comunhão dos santos e os sofrimentos dos santos seria 1Co. 12:26. O texto diz: “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam.” (1Co. 12:26). Mas o comentário fala apenas de mútua solicitude (ad mutuam sollicitudinem), sofrer com a dor alheia (malo alterius compatiatur) e alegrar-se juntamente (bonis alterius congaudeat). Não há qualquer sinal de méritos partilhados dos sofrimentos dos santos!

Suma Contra os Gentios

Para Tomás, os pecados cometidos após o Batismo exigem satisfação pessoal, além do sacrifício de Cristo, para que haja perdão; elas corresponderiam, como ele diz no comentário a Mt. 3:1-12, ao “frutos dignos do arrependimento”. No comentário a Gl. 6:2, ele escreve que um dos modos pelos devemos carregar os fardos uns dos outros é “fazendo satisfação da pena devida, através de orações e obras” (pro poena sibi debita satisfaciendo, orationibus et bonis operibus).

Ora, essa poena obviamente envolve sofrimento, ainda que esteja totalmente fora daquilo que Cl. 1:24 diz, texto que não diz coisa alguma sobre fazer ativamente satisfação por pecados alheios. Mas de que modo os sofrimentos expiatórios de um podem ser úteis aos outros?  Uma resposta surpreendente aparece na Suma Contra os Gentios:

“Mas as coisas que fazemos através dos amigos, parece que nós mesmos fazemos”, pois a amizade faz com que dois seja um no afeto, e especialmente no amor da caridade. Desse modo, assim como por si mesmo, também por um outro se pode fazer satisfação perante Deus: principalmente havendo necessidade. De fato, também a pena que um amigo sofre por si, o outro amigo conta como se fosse também sua; e assim não se fica sem pena, enquanto se compartilha do sofrimento de um amigo — tanto mais quanto se é a causa do seu sofrimento. Ademais, a afeição da caridade naquele que sofre pelo amigo faz satisfação a Deus mais aceitável que quando sofre por si mesmo, pois num caso se é levado pela caridade, e noutro pela necessidade. Disso aprende-se que um pode fazer satisfação pelo outro, desde que ambos estejam em caridade. Assim, o apóstolo diz “Carregai os fardos uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.” (Gl. 6:2).

Quae autem per amicos facimus, per nos ipsos facere videmur: quia amicitia ex duobus facit unum per affectum, et praecipue dilectio caritatis. Et ideo, sicut per seipsum, ita et per alium potest aliquis satisfacere Deo: praecipue cum necessitas fuerit. Nam et poenam quam amicus propter ipsum patitur, reputat aliquis ac si ipse pateretur: et sic poena ei non deest, dum patienti amico compatitur; et tanto amplius, quanto ipse est ei causa patiendi. Et iterum affectio caritatis in eo qui pro amico patitur, facit magis satisfactionem Deo acceptam quam si pro se pateretur: hoc enim est promptae caritatis, illud autem est necessitatis. Ex quo accipitur quod unus pro alio satisfacere potest, dum uterque in caritate fuerit. Hinc est quod apostolus dicit, Galat. 6-2: alter alterius onera portate, et sic adimplebitis legem Christi.
— Contra Gentiles, lib. 3 cap. 158 n. 7

Em síntese, o argumento é de que existe um compartilhamento de sofrimento não porque um supre o sofrimento que não estava no outro, mas porque o sofrimento de um provoca o sofrimento do outro. Trata-se, portanto, de vínculos naturais, e nada disso foge à “exortação e exemplo” que se vê nos textos anteriores.

Ou seja, essa noção permite alinhar aquilo que Tomás diz sobre o sofrimento do santos em geral acerca de Cl. 1:24 no Comentário a 1 Coríntios e na Suma (solum per modum exempli) à concessão de mérito implícita no Comentário ao Credo e explícita em uma das possibilidades no Comentário a Colossenses (inter haec merita praecipue sunt passiones sanctorum): em se tratando dos sofrimentos, o exemplo é o meio pelo qual o mérito é conferido, não como se um suprisse o que falta no outro, mas como se um encorajasse a completar o que falta no outro. Somente em Cristo o mérito redentor independe do exemplo, ainda que este exista eminentissimamente. Isso ajudaria, inclusive, a entender o que ele diz no Comentário ao Credo sobre haver maior participação no bem alheio quando recebido diretamente (specialius illi pro quibus specialius fit aliquod bonum); afinal, nessa situação o exemplo é mais visível (como no caso do próprio Paulo para com os Colossenses e os Coríntios).

Obviamente Tomás tem em mente a noção de comunhão dos santos quando fala na unidade provocada pela caridade (ex duobus facit unum per affectum, et praecipue dilectio caritatis), ainda que a diferença de método da Suma Contra os Gentios force Tomás a adotar uma linguagem mais “natural”. Que a Comunhão dos Santos seja um “vínculo de amor” (connexio amoris) o diz também o Compendium (cap. 214).

O propósito da Suma Contra os Gentios é expor a “verdade que a fé católica professa” (veritatem quam fides Catholica profitetur) sem recurso à Sagrada Escritura — de maneira que mesmo as citações bíblicas existentes não são, a priori, parte da argumentação —, mas recorrendo à razão natural (necesse est ad naturalem rationem recurrere). Mas também em razão dessa diferença de método, o texto da Suma pode ser encarado de outra maneira. Pois como a razão natural tem limitações em relação à fé revelada, pode-se argumentar que aqui a apresentação do compartilhamento de sofrimentos é “inferior” àquela que se poderia ver em outros textos, e que por isso esse texto não deve ser usado para julgar os demais.

Penso que essa tentativa de se esquivar da Suma Contra os Gentios não convence de modo algum, tanto porque nega implicitamente a coerência entre a razão natural e a fé revelada que o próprio Tomás defende, quanto porque não atenta para o modo como outras verdades reveladas — sobre graça ou sobre os sacramentos, por exemplo — aparecem na Suma Contra os Gentios. Essa interpretação tem, ademais, a vantagem de conciliar as afirmações de Tomás sobre penitência com a interpretação de Cl. 1:24 à qual ele aderiu, segundo a qual os sofrimentos dos santos são válidos solum per modum exempli, somente como exemplos. Mas eu concedo que ele possa ter se contradito, se for o caso.

G. M. Brasilino

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