Duas palavrinhas sobre o “Milênio” em Ap. 20:4-6

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“Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos.” (Apocalipse 20:4-6)

Dois pontos são especialmente incompreendidos quando se trata da interpretação de Apocalipse 20:4-6. Esse texto fala de um período de mil anos entre duas ressurreições. Aqueles que participam da primeira ressurreição reinam com Cristo pelos mil anos e a morte não tem domínio sobre eles, enquanto os outros mortos participam da segunda ressurreição.

A interpretação “pré-milenista” é de que esse Milênio “literal” precede o Juízo Final e a vida eterna. Segundo vários os defensores dessa posição, é durante esse tempo que se cumpre um conjunto de profecias vetero-testamentárias acerca do Reino de Israel; um grupo desses pré-milenistas, os dispensacionalistas, crê inclusive que o povo de Israel (judeus no sentido étnico), agora convertido, reinará com Cristo a partir de Jerusalém. Ao longo da história, essa posição é minoritária, embora esteja bem representada entre as igrejas evangélicas de origem americana e, por isso, também no Brasil.

Na retórica dessa posição, eu observo dois problemas principais. Os defensores dessa posição argumentam que: (1) essa posição é mais literal, e assim preferível; (2) essa era a posição dos primeiros cristãos, dos pais da Igreja, até o surgimento de alguns teólogos como Eusébio e Agostinho. O primeiro ponto é falso, e o segundo é metade da verdade.

Quanto ao primeiro, é apenas uma prova de que os pré-milenistas simplesmente não lêem o texto, especialmente os da vertente dispensacionalista. Não se trata apenas de que nada da Bíblia conecta Ap. 20:4-6 às profecias que esses pré-milenistas querem ver cumpridas literalmente. Trata-se do texto em si. O texto diz que seriam ressuscitados os que morreram decapitados por conta do testemunho cristão que deram diante da besta; não fala da ressurreição de nenhuma outra pessoa, colocando todas as outras na segunda ressurreição. Querer aplicar isso aos demais cristãos é alegoria, e essa alegoria está tão longe da literalidade quanto se a queira aplicar com respeito ao Estado de Israel ou aos judeus, como querem os dispensacionalistas.

Não há literalidade possível além dessa: os que não foram decapitados não participam da primeira ressurreição. Não que a interpretação desse texto precise ser literal, mas dizer que a interpretação pré-milenista é “literal” é auto-ilusão.

O segundo ponto é parte da verdade. É fato que muitos pais da Igreja, como Justino ou Irineu, escrevem esboçando posições pré-milenistas. Embora Agostinho tenha sido um dos responsáveis pela interpretação “amilenista” de Ap. 20:4-6, não é verdade que os primeiros cristãos eram todos pré-milenistas. O próprio Justino Mártir, no capítulo 80 do Diálogo com Trifão (leia em inglês aqui e em grego aqui), nos diz que muitos “que pertencem à fé pura e piedosa, e que são verdadeiros cristãos” discordavam da interpretação pré-milenista, não crendo nesse milênio com cumprimento dessas profecias.

Ademais, pouco se considera que os pais da Igreja universalmente afirmavam que Jesus, depois de assentar ao lado do trono do Pai, viria novamente para julgar os vivos e os mortos, uma crença patrística tão importante que veio a integrar o Credo Apostólico, e depois dele os credos Niceno e Atanasiano, mas que se fundamenta na pregação apostólica primitiva, o querigma. O próprio Justino expressa essa crença no capítulo 132 da mesma obra. Ora, dizer que Jesus virá para julgar os vivos e os mortos é negar o pré-milenismo, que afirma que Jesus virá fazer outras coisas antes de vir para julgar os vivos e os mortos; nesse sentido, havia uma contradição em todos os pais da Igreja que afirmavam algum tipo de pré-milenismo. Deixar o pré-milenismo para trás foi parte da busca por coerência no discurso.

G. M. Brasilino

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