Lutero foi a Roma — e gostou

roma-cronicas-de-nuremberg

O filme Lutero (2003) mostra o monge agostiniano e futuro reformador incomodado com a prostituição e a superstição que encontra em Roma, assim como incapaz de encontrar paz na prática religiosa da cidade eterna. Essa é uma noção bastante difundida. Lutero teria começado a compreender “a necessidade de uma reforma” depois de ver “um pouco da corrupção e da luxúria da Igreja Romana”, como escreve Earle E. Cairns em seu livro de história da Igreja.

A lógica dessa concepção é simples: Lutero não gostou do que viu (“corrupção”, “luxúria”), então passou a pregar algo diferente. Lutero, como todo bom moralista, seria um moralista inconformado, e seu moralismo indignado precipitou a Reforma. Eu não faço a menor idéia de como ela surgiu, mas isso tudo é uma grande lenda. Martin N. Dreher, historiador luterano, escreveu algo muito diferente:

“Discussões surgidas na ordem agostiniana levaram os observantes a enviarem uma delegação a Roma, da qual Lutero também participou. A participação foi motivo de alegria para Martim, pois lhe possibilitava a realização da confissão geral. Os confessores, porém, mostraram ser o contrário do que ele esperava. No mais, ficou muito impressionado com o que viu em Roma, visitando templos, catacumbas e santuários, peregrinou pelas sete igrejas principais da cidade santa, obtendo nelas a indulgência anunciada. As impressões colhidas em Roma não fizeram de Lutero um reformador; antes mostraram-no como filho exemplar da igreja medieval.” (História do Povo Luterano, p. 18)

Essa lenda fortalece uma interpretação moralizante e historicamente distorcida dos propósitos da Reforma. Lutero não seria o primeiro reformador moral do mundo, ou do cristianismo; só que ele não era. Se há algo que a teologia de Lutero legou à Reforma, é precisamente seu anti-moralismo. Zuínglio, e não Lutero, era o moralista da Reforma, e suas posições não são dependentes das do alemão.

Embora outras posições teológicas de Lutero antes disso, no contexto universitário, já fossem incompatíveis com a doutrina recebida (como as teses sobre livre-arbítrio e pecado original), a Reforma começa com o debate sobre as indulgências — principalmente sua natureza teológica, mas também sua venda —, e esse debate sobre indulgências não tinha ainda nada a ver com Roma, muito menos com a visita de Lutero a Roma.

De fato, mesmo a venda de indulgências, que não era o tema principal, foi originalmente uma questão alemã. No Comentário de Lutero sobre as suas Teses Debatidas em Leipzig, ele escreve sobre a Tese 11: “Pois na Itália, onde as indulgências são oferecidas gratuitamente em toda parte, ninguém lhes dá atenção. Na Alemanha, porém, se não dás, ninguém as dará a ti.”

G. M. Brasilino

4 comentários em “Lutero foi a Roma — e gostou

  1. Brasilino, pra você, quais os principais benefícios e quais os principais malefícios a Igreja Católica trouxe antes da Reforma Protestante? Quais os principais mitos são propagados – inclusive por protestantes – sobre a ICAR?

    Curtir

    1. Os benefícios são muitos. A Igreja de Roma deu unidade internacional à cristandade ocidental no momento bastante complicado entre o fim do Império Romano e a formação dos estados nacionais. Isso permitiu que uma mesma cultura intelectual fosse compartilhada em toda a Europa, com os mosteiros, escolas catedralícias e universidades. Se não houvesse algum tipo de unidade na Europa, ela teria sido destruída pelo avanço do Islão no meio da Idade Média, e provavelmente hoje seríamos maometas.

      Não sei dizer quais sãos mitos mais importantes. Acho que um mito persistente entre protestantes é o de que as práticas da Igreja de Roma são todas pagãs. As maiores mentiras são fruto de generalizações maliciosas.

      Curtir

  2. Achei esta citação de Lutero concernente à sua visita a Roma:

    “And I myself, in Rome, heard it said openly in the streets, If there is a hell, then Rome is built on it. That is, After the devil himself, there is no worse folk than the pope and his followers.”
    ―Martin Luther

    Source/Notes:
    Against the Roman Papacy, An Institution of the Devil ( Wider das Papstum zu Rom vom Teuffel Gestifft, A. D. 1545)

    Então podemos observar que de fato Lutero não gostou nada nada do que viu em Roma, nas próprias palavras dele.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s