Certeza da salvação (I): Tomás de Aquino

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“Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.” (Judas 20-21)

A caminhada cristã é marcada, nutrida, sustentada, regida e consumada pela misericórdia de Deus. A bondade efusiva e obstinada do Pai das luzes, sumamente manifestada e realizada em seu Filho Jesus Cristo e trazida a nós nos meios de graça e esperança da glória eterna no poder do Espírito Santo, é a única cura para a chaga mortal do pecado humano, chamando-o a nova vida.

A Cruz e a Ressurreição mostram a seriedade e tenacidade com que o plano do amor divino é capaz de ir “até o fim”, fazendo com que resplandeça a luz onde havia escuridão e convertendo os homens do poder de Satanás para o reino de Deus. Por isso, para os cristãos o retorno de Cristo é uma “bendita esperança”, não “dia de trevas”, pois são filhos, não da noite, mas da luz.

Essa mesma santa história aparece, em linguagens diferentes, nos lábios e letras, nos símbolos e no sangue da Igreja de todos os tempos, especialmente encarnada na vida daqueles que mais amaram a vida eterna e que foram sinais de Cristo para o seu tempo. Mas ela pode aparecer também nos lábios daquele que, como joio em meio ao trigo, não permanecendo nesse amor, deseja achar nele uma escusa para o engano, o ódio e o desespero nos quais sua vida se desfaz. E como joio em meio ao trigo, somente o Juízo Final fará separação absoluta entre os que fazem parte da história e os que não fazem, entre amor sui e amor dei.

O que permite aos cristãos dizer, como Paulo, que “estaremos sempre para sempre com o Senhor” (1Ts. 4:17), que “a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2Tm. 4:8), e, ao mesmo tempo, que “não julgo que o haja alcançado” (Fp. 3:13)? O que há entre a presunção e o desespero?

Vários teólogos se gastaram nessa questão, e ela é freqüente nos debates ligados à Reforma Protestante. Penso que as importantes respostas de Tomás de Aquino, João Calvino e Richard Hooker, como representantes de três tradições do cristianismo ocidental. Conforme a comparação nos permita, as diferenças, nuances e ênfases ficarão evidentes, assim como as preocupações pastorais que as motivam.

Em Tomás, reflexo e epítome da escolástica, essa questão se localiza na virtude teologal da esperança. Nas Quaestiones disputatae de virtutibus, Tomás desenvolve sua teologia da esperança e nos várias coisas obre o objeto da esperança:

Importa, pois, haver em sua natureza alguma certeza de obtenção (quamdam securitatem ascipiendi). Portanto, são consideradas quatro coisas acerca do objeto da esperança: primeiro, pois, que seja bom, pelo qual difira do temor; segundo, que seja um bem futuro, pelo qual difira da alegria e do prazer; terceiro, que seja um bem difícil (boni ardui), pelo qual difira do desejo; quarto seja um bem possível, pelo qual difira do desespero. Entretanto, é possível que alguém possa ter algo de dois modos: um modo pela própria capacidade; outro modo, pelo auxílio de outro, porque algumas coisas nos são possíveis pelos amigos, e dizemos possíveis de qualquer maneira, como se evidencia pelo Filósofo no livro III da Ética. (…) E, então, é necessário que o movimento da esperança seja considerado em dois objetos: ou seja, em um bem atingível e em outro, cujo auxílio se inicia. Entretanto, o homem não pode obter o sumo Bem, que é a felicidade eterna, senão por auxílio divino, conforme se lê Rm 6,23: A graça de Deus é a vida eterna.” E, por isso, a esperança de se obter a vida eterna (spes adipiscendi vitam aeternam) tem dois objetos, a saber, a própria vida eterna, a qual alguém espera, e o auxílio divino, a partir do qual alguém espera;
De virtutibus, q. 4 a. 1 co.

Nessa doutrina da esperança, a vida eterna é um bem árduo, porém possível, que é esperado de Deus. Espera-se, com alguma segurança, que Deus conceda o auxílio (graça) para que a vida eterna seja alcançada. Logo em seguida, ele aponta o erro do que se presume salvo, ainda que perseverante no pecado (q. 4 a. 1 ad 1). Por isso, esperamos que pela graça de Deus e pelos bons méritos consigamos a felicidade (q. 4 a. 1 ad 1). Ele nos diz ainda que “a certeza da esperança deriva-se da certeza da fé” (q. 4 a. 2 ad 4) e que “o objeto principal é que alguém espere a beatitude para si mesmo (q. 4 a. 4 co.).

De fato, no Compendium theologiae, ele é enfático em dizer que a virtude da esperança é colocada em Deus, não em nós mesmos ou em outras pessoas: “Entretanto, não pertence à virtude da esperança a esperança que alguém coloca em si mesmo ou que tem em outro homem, mas só é esperança a que é colocada em Deus.” (lib. 2 cap. 7)

Na Suma ele trata novamente da dependência da esperança em relação aos atributos divinos:

“A esperança não se apóia principalmente na graça já recebida, mas na onipotência e misericórdia divina, pela qual mesmo quem não tenha recebido a graça pode obtê-la, para assim chegar à vida eterna. E assim quem tem fé está certo da onipotência de Deus e sua misericórdia.” ST IIa-IIae q. 18 a. 4 ad 3

Esse texto diz algo muito importante sobre a relação entre esperança e fé; uma vez que todo ato de esperança manifesta e pressupõe um ato de fé (IIa-IIae q. 17 a. 6 ad 2), não é possível ter fé sem ao mesmo tempo ter fé na onipotência e misericórdia divinas; não há outro Deus em quem depositar fé, senão o Deus da fé cristã, que é onipotente e misericordioso. Nesse sentido, essa confiança na misericórdia deve ser universal para os cristãos.

Aqui se levanta então a questão da presunção, que é uma “esperança desordenada” (IIa-IIae q. 21 a. 2 co.). Afinal, como pode ter esperança da vida eterna quem vive e quer viver no pecado? Como ele acrescenta pouco depois, a presunção não é uma “excesso de esperança” (IIa-IIae q. 21 a. 2 ad 2); afinal, nas virtudes teologais consideradas em si mesmas não pode haver “excesso”, pois elas tendem infinitamente para a verdade, bondade, onipotência e misericórdia divinas, que não tem limites (ST Ia-IIae q. 64 a. 4 co.).

Antes, a presunção é uma esperança naquilo que não convém a Deus, como conceder a vida eterna àqueles que permanecem no pecado; assim, quem peca com a intenção de permanecer no pecado e assim ser perdoado é presunçoso, o que agrava o próprio pecado (IIa-IIae q. 21 a. 2 ad 3).

No entanto, ele faz uma observação importante: mesmo a esperança justa (spes recta) que temos na misericórdia de Deus pode parecer presunção; mas ela não é, se levada em conta a “imensidade da bondade divina” (IIa-IIae q. 21 a. 2 ad 1). Não é presunçoso aquele que peca, em esperança do perdão, mas com intenção de deixar o pecado (IIa-IIae q. 21 a. 2 ad 3).

Assim, segundo Tomás, o cristão deve ter uma certeza da salvação eterna para si mesmo, que deposite exclusivamente em Deus e que não se confunda com presunção, ainda que possa parecer com essa; ou seja, uma certeza da salvação eterna que não inclua a intenção de permanecer no pecado. Pela justiça divina, o cristão deve temer a Deus, mas pela sua misericórdia, deve esperar dele a vida eterna (IIa-IIae q. 19 a. 1 ad 2). É uma “certeza condicionada”, certitudo conditionata (De veritate, q. 6, a. 5).

G. M. Brasilino

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