Certeza da salvação (II): João Calvino

calvino

“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1:13)

Continuando o texto anterior (leia aqui), agora nos voltamos para Calvino, cuja doutrina da certeza da salvação é mais famosa. Diferentemente de Tomás, que localiza a certeza da salvação na virtude da esperança, Calvino a coloca na virtude da fé; ainda assim, a diferença não é gritante se lembrarmos que Tomás coloca já na fé o fundamento da esperança, na medida em que a fé tem por objeto o Deus onipotente e misericordioso.

Calvino também segue nessa direção, embora nele a esperança pareça ser parte da fé, uma vez que ele coloca também na fé o direcionamento da benevolência de Deus para conosco:

“Ora, onde quer que exista esta fé viva, necessariamente irá acompanhada da esperança na vida eterna; ou, melhor dizendo, ela a engendra e produz.” (Inst. III.2.42)

“Portanto, podemos obter uma definição perfeita de fé, se dissermos que ela é o firme e seguro conhecimento da divina benevolência para conosco, fundado sobre a veracidade da promessa graciosa feita em Cristo, não só é revelado à nossa mente, mas é também selado em nosso coração mediante o Espírito Santo.” (III.2.7)

Calvino reporta-se à palavra grega plērophoria (III.2.15), entendida como “plena certeza”, que ocorre algumas vezes no Novo Testamento (Cl. 2:20; 1Ts. 1:5; Hb. 6:11; 10:22). Em Hb. 6:11, fala-se da “inteira certeza da esperança”, hē plērophoria tēs elpidos, ao passo que Hb. 10:22 nos fala da “inteira certeza da fé”, plērophoria pisteōs. Por isso, em toda sua discussão sobre a natureza da fé, Calvino enfatiza a certeza. Assim: “…somente compreendemos realmente a bondade de Deus quando estamos plenamente seguros dela.” (III.2.16)

Calvino concorda com Tomás de que a principal esperança do cristão diz respeito à vida eterna, recebida de Deus:

“Ora, por certo a fé não promete longevidade, nem honra, nem riquezas nesta presente vida, uma vez que nada destas coisas quis o Senhor nos fosse destinado; pelo contrário, vivemos contentes com esta certeza: por mais que nos faltem muitas coisas que dizem respeito ao sustento desta vida, Deus, no entanto, jamais nos haverá de faltar. Mas, sua primordial certeza reside na expectação da vida futura que, pela Palavra de Deus, foi posta além de toda dúvida.”  (III.2.28)

Penso que se pode dizer que uma preocupação importante para Calvino e para a teologia protestante clássica é assegurar que Deus se manifesta a nós como propício e perdoador: Deus jamais nos haverá de faltar, e essa confiança encontra apoio na imutabilidade do caráter divino. Assim, a esperança correta é aquela em que há confiança da herança eterna: “…ninguém espera no Senhor como deve senão aquele que se gloria confiadamente de que é herdeiro do reino celeste.” (III.2.16)

Nesse ponto, Calvino aproxima-se de Tomás, para o qual aquele que tem fé está seguro da bondade divina, e a esperança é também a segurança de que essa bondade diz respeito a mim. Essa certeza da fé, no entanto, não exclui a dúvida e a inquietude. Calvino escreve:

“Nós, de fato, enquanto ensinamos que a fé deve ser certa e segura, não imaginamos alguma certeza que jamais possa ser tangida por alguma dúvida, nem uma segurança que não possa ser atingida por alguma inquietude; senão que, antes, dizemos que os fiéis têm perpétuo conflito com sua própria desconfiança. (…) Todavia, por outro lado, de qualquer maneira que sejam afligidos, negamos que decaiam e se apartem daquela segura confiança que conceberam da misericórdia de Deus.” (III.2.17)

Para Calvino, assim como para Tomás, não há contradição entre o temor e a esperança. Na verdade, Calvino chega dizer que o temor fortalece a esperança, uma vez que a vida sem temor enfraquece a certeza. Com o temor, a certeza “é estabelecida com maior firmeza” (III.2.22); vê-se então que pode haver maior ou menor firmeza. Os fiéis, diante das ameaças da ira divina, “solicitamente se munem de prudência para que não lhes aconteça que provoquem contra si a ira de Deus mediante as mesmas ofensas” (III.2.22)

Também não há contradição entre esperança e dúvida. Na realidade, a dúvida é parte da vida cristã! Ele escreve que:

“Nós, de fato, enquanto ensinamos que a fé deve ser certa e segura, não imaginamos alguma certeza que jamais possa ser tangida por alguma dúvida, nem uma segurança que não possa ser atingida por alguma inquietude; senão que, antes, dizemos que os fiéis têm perpétuo conflito com sua própria desconfiança.” (III.2.17)

Assim como Tomás, Calvino nos diz que essa esperança da vida eterna está depositada em Deus, e não em nós mesmos. De fato, é justamente o não esperarmos em nós mesmos que fortalece nossa confiança em Deus: “Com efeito, nada nos desperta tanto a depositar no Senhor a confiança e certeza de espírito quanto a falta de confiança em nós mesmos e a ansiedade oriunda da consciência de nossa situação calamitosa.” (III.2.23)

Calvino fala da “estulta confiança carnal” (III.2.22) daqueles que abusam da misericórdia de Deus, o que não deixa de ter a mesma função que a “presunção” tem na teologia de Tomás — a confiança infundada daquele que quer permanecer no pecado e, não obstante, espera a misericórdia divina. Pode-se dizer, então, que ambas teologias acomodam a situação da “esperança infundada”. Essa é, certamente, a situação daqueles que tem a “fé temporária” ou “graça evanescente”, e que não perseveram, distintos daqueles que possuem uma fé viva.

Embora haja diferenças quanto à doutrina da perseverança, tanto Tomás quanto Calvino aderem à doutrina da eleição incondicional (ante praevisa merita). É aí que surge a tensão entre a doutrina da predestinação e a doutrina da esperança. Como essa certeza da salvação chega a nós? Para Tomás, ela se fundamenta na fé que conhece os atributos de Deus: sua onipotência, pela qual é capaz de salvar a qualquer um, e sua bondade, na qual está seu desejo de salvar. Mas se Deus só predestina alguns, e não todos, como posso fundamentar minha esperança na certeza de fé de que Deus é onipotente e bondoso, se não sei se (e não posso saber) Deus será bondoso para comigo para a vida eterna? Como posso, aliás, ter alguma certeza da vida eterna sem ter certeza da perseverança, da qual depende essa vida eterna, e que, em ambas teologias, é concedida por Deus (cf. ST Ia-IIae, q.109 a.10 co.)?

Calvino responde a essa questão apelando à doutrina do testimonium internum, mas penso que esse seja um ponto fraco. Calvino, assim como muitos evangélicos contemporâneos, lê Rm. 8:16“O mesmo Espírito testifica com [symmartyrei] o nosso espírito que somos filhos de Deus” — como dizendo que o Espírito testifica ao nosso espírito; não como algo que nós dizemos juntamente com o Espírito, mas como algo que o Espírito diz internamente a cada um de nós. Mesmo a certeza da veracidade da Escritura Sagrada se fundamenta no testimonium internum (I.7.5). Embora Rm. 8:16 não seja o único texto para o qual se possa apelar, certamente ele tem um papel fundante, e tal interpretação se baseia em um erro óbvio: o texto grego não permite de modo algum dizer que o Espírito testifica a nós, mas apenas que testifica conosco.

Uma vez que para Calvino todos os filhos de Deus são salvos, e todos os salvos perseverarão, ou seja, uma vez que todos os filhos de Deus recebem o dom da perseverança (e nisso ele discorda de Agostinho e Tomás), interpretar Rm. 8:16 como referência ao testimonium internum implica em certeza da eleição e, portanto, da perseverança futura (III.2.40).

O grande problema é que essa solução contradiz a natureza historicamente datada da doutrina do testimonium internum. Ela surgiu, pode-se dizer, com a Reforma, e assim pergunta-se: os cristãos anteriores não tiveram esse testimonium internum? Se até o século XVI todos os salvos tiveram o testimonium, como é possível que nenhuma doutrina do testimonium tenha surgido? Se o tiveram, não o souberam expressar? Se eles o tiveram e o souberam expressar, então o testimonium internum não pode ser nada além da esperança depositada no caráter de Deus da qual fala Tomás. Assim, a única forma de salvar historicamente a doutrina de Calvino é fazê-la convergir na direção da de Tomás!

Ademais as pessoas têm o testimonium internum, por que é preciso ensiná-las que elas o têm? O Espírito já não ensina justamente isso? O testminium internum se torna um testimonium ecclesiae. Isso nos leva a uma notável circularidade: o testimonium explica a fé nas Escrituras, e as Escrituras explica a fé no testimonium. Como toda doutrina circular, adotá-la é um ato de vontade injustificado.

Ademais, uma vez que, segundo Calvino, um réprobo pode não ter como saber a diferença entre sua fé temporária e a fé viva do eleito (III.2.11), é perfeitamente possível que alguém pense ter o testimonium internum sem de fato tê-lo.

Eu não pretendo responder à difícil questão de se na teologia de Calvino todo cristão têm certeza da vida eterna, mesmo que, como vimos, seja uma certeza constantemente assaltada pela dúvida. Parece-me que a resposta é sim, uma vez que ele coloca essa certeza na definição mesma da fé, mas talvez essa definição deva ser entendida como tipológica, como um modelo de fé, e não como uma característica igualmente presente em todos.

Fato é que, passado um século, a tradição reformada não teria dificuldade em ver que nem todos os cristãos têm imediatamente a certeza da salvação; ela não é parte da definição da fé, mas algo que se recebe depois, como diz a Confissão de Fé de Westminster (XVIII.2), igualmente seguida pela Declaração de Savoy e pela Confissão Batista de Londres. Essa separação entre a fé e a certeza da salvação, tornando a segunda algo a se alcançar (receber), parece um pouco mais com a doutrina de Tomás, que nos diz que primeiro recebemos a virtude da , depois a esperança (na qual está a esperança da vida eterna) e, por fim, a caridade. Ainda assim, parece que para Westminster um cristão que morre sem a plena certeza está salvo, ao passo que para Tomás, a esperança é parte do requisito.

***

Penso que existe uma inescapável tensão entre a doutrina da predestinação e a doutrina da esperança.

Se dissermos, como os arminianos de tipo wesleyano, que nosso lugar na predestinação depende de nossa resposta à oferta da graça, que depende de nós, como podemos ter real certeza de salvação, já que no futuro podemos não perseverar? Se Deus não quer jamais mover a vontade de ninguém, essa certeza de salvação é apenas certeza de que Deus nos ajudará se o quisermos, mas ficará “simplesmente olhando” se decidirmos resolutamente abandoná-lo.

Esse problema não existe para Tomás, para o qual Deus move a vontade dos réprobos na direção da graça para aceitá-la (praemotio physica). Mas se dissermos, como Tomás, que Deus move nossa vontade na direção da sua eleição, ainda assim não sabemos se estamos no número dos fiéis aos quais Deus deseja conceder a perseverança. “A graça é dada a muitos aos quais a perseverança na graça não é dada.” (ST Ia-IIae q.109 a.10 co.). Sabendo disso, como posso ter certeza de que Deus será bondoso para comigo, e não apenas bondoso em geral? Assim, apelar para a recusa do réprobo é apenas deslocamento da tensão para outra área, e não solução.

Ainda que eventualmente Tomás possa afirmar que nos réprobos a condenação se deve à recusa pessoal perante a graça sempre ofertada, ele é claro em apontar, na tradição de Agostinho, que Deus que o desejo salvífico de Deus não é igual e universal sobre a humanidade (ST Ia q.23 a.3 ad 1). Nesse sistema, é perfeitamente possível ter uma esperança viva, decair e ser condenado. Isso não seria propriamente uma contradição, visto que a certeza da esperança não incluiria simplesmente “receber a salvação”, mas algo como “receber a salvação enquanto não se deseja o pecado”, e talvez possamos incluir outras qualificações.

Ainda assim, como em Agostinho, é possível no sistema de Tomás não receber a graça da perseverança, e por isso a esperança daquele que recebeu a graça inicial foi frustrada. A tensão se mostra também em Deus conceder uma virtude infusa à qual ele sabe que não pretende consumar.

Calvino elimina essas tensões, mas cai na circularidade já notada, e o tipo de certeza produzida por sua doutrina é minada pela própria realidade, já que os réprobos com “fé temporária” podem ter uma certeza infundada na salvação, e eles podem não ter como saber que são réprobos. O que a doutrina de Calvino ganha em simplicidade ela perde em realismo. Não são dúvidas e tentações, mas a própria realidade da “fé temporária” que mina a certeza. Penso que, longe de produzir certeza, essa doutrina só acrescenta dúvidas, e não demora muito até que se degenere em um tipo de certeza testificada pelas obras — afinal, nelas talvez se possa ver a diferença entre o réprobo e o eleito —, o moralismo de séculos posteriores que a Reforma tentou justamente banir.

G. M. Brasilino

 

2 comentários em “Certeza da salvação (II): João Calvino

  1. ”Espírito testifica a nós, mas apenas que testifica conosco” . Mas devido a salvação do cristão com o convencimento do pecado, da justiça e do juízo foram advindos do Espírito Santo, num já houve a testificação do Espirito Santo?

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    1. A questão é se esse convencimento por parte do Espírito Santo em João 16:8 envolve a certeza de que somos eleitos.

      Algumas pessoas acham 1 João 4:13 é base suficiente para acharmos que esse convencimento envolve a certeza de que “estamos nele”. Entretanto, levando em conta a alegoria da Videira em João 15, é possível estar nele e ser cortado. Portanto, não é a mesma coisa que ter a certeza de que somos eleitos.

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